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28-03-2008    
Transformar a violência no Rio de Janeiro

Pierre Bratschi é um jornalista suiço independente radicado em Buenos Aires. O texto não reflete necessariamente a posição oficial do CICV com relação ao tema.



É difícil transmitir uma mensagem de respeito pelos demais e frear a violência em uma sociedade dominada pela exclusão e pelas desigualdades sociais. Contudo, é o que o CICV e a Cruz Vermelha Brasileira se propuseram fazer com a polícia e com os jovens das favelas.

São 250 mortes por mês provocadas pela violência entre bandos de narcotraficantes e a polícia. Neste quadro, é sobre as forças de segurança do Rio que recai grande parte da responsabilidade, colaborando para a reputação pouco gloriosa de ser uma das mais violentas polícias do mundo. “Esta violência tem uma origem histórica”, explica Ignácio Cano, professor de Sociologia na Universidade do Rio, “a polícia foi criada no século XIX para controlar os grupos mais pobres, os negros e os imigrantes, e golpear os escravos. Quando um proprietário considerava que seu escravo merecia um castigo, o levava até à polícia que o golpeava e logo o devolvia. Esta tradição de violência não evolucionou por 200 anos”.

Convencer 38.000 policiais

As autoridades, pressionadas pela opinião pública, decidiram mudar esta tradição de violência arraigada na polícia e aceitaram a ajuda do CICV. “O objetivo é introduzir nas diretivas das polícias as normas de direitos humanos aplicáveis ao uso da força, conhecidas também com o nome de princípios humanitários”, explica Michel Minnig, chefe da delegação do CICV para o Cone Sul da América Latina.

Apesar de ser uma idéia simples, não é nada fácil colocá-la em prática. “Para a maioria dos 38.000 homens que compõem o corpo da polícia do estado do Rio, os direitos humanos estão para proteger aos delinqüentes. É muito difícil convencê-los, já que dois policiais são mortos por semana pelos bandidos, em média". O coronel Ubiratan de Oliveira, chefe da polícia do Rio, não parece desarmar-se ante a imensidão da tarefa que o espera. "Os poucos policiais que começaram a aprender os princípios humanitários e o respeito por ele, são cada vez mais seletivos na hora de usar suas armas, portanto, há esperança”.

Ignácio Cano se mostra menos otimista: enquanto o objetivo da polícia se limitar a fazer a guerra contra os narcotraficantes, será impossível aplicar os direitos humanos. Segundo o professor universitário, a segregação, a exclusão e as desigualdades, converteram a violência em um modo de funcionamento em todas as camadas da sociedade. Precisaremos de tempo, e muito, para modificar um comportamento cultural.

Por esta razão, o CICV também trata de se dirigir aos jovens das favelas, que são os outros protagonistas neste contexto de violência, e o faz por meio da escola, das organizações não-governamentais, e inclusive da Cruz Vermelha Brasileira.

Outras armas para afrontar a violência

Os jovens das favelas se vêem confrontados quase diariamente com a violência, fato que já forma parte do estilo de vida. Freqüentemente, não podem ir à escola devido aos enfrentamentos nas ruas entre policiais e narcotraficantes. Para fazer com que estes jovens reflitam sobre a violência e seus limites, o CICV empreendeu um programa educativo piloto em oito escolas dos bairros periféricos pobres do Rio. “Através deste programa, buscamos que os alunos se interessem mais nos mecanismos que compõem a violência e repensem sobre suas conseqüências. Ensinamos o uso desta ferramenta pedagógica aos professores que para promover a análise usam textos, fotografias e vídeos de situações reais de conflito armado ou de violência. A violência já não deve ser percebida como um modo de comunicação. Aprender a dialogar e a respeitar os direitos humanos ou ‘princípios humanitários’ pode contribuir a mudar esta atitude dos jovens”, explica Michel Minnig.

A Penha, situado a meia hora de carro das praias de Copacabana e Ipanema, é um bairro de habitações em tal estado de deterioração que parecem abandonadas, apesar de uma super-povoação endêmica. Na escola local, os alunos de 10 a 18 anos, participam no programa do CICV.

“Os resultados têm superado nossas expectativas. Os jovens mostram muita atenção e interesse, e se as fotografias são de Ruanda, Camboja ou Vietnam, imediatamente eles fazem a conexão com a situação cotidiana que vivem”, assegura a entusiasta Maria Teresa Pils, professora de história, “os alunos aprenderam a escutar aos demais, a debater com os demais e sobretudo a respeitar as opiniões que não são deles. Também, despertou uma grande solidariedade entre eles. Até agora é um sucesso”.

Os estudantes compartem o entusiasmo da professora: “O programa permitiu que eu visse as coisas de um ponto de vista diferente e mudou a minha vida neste sentido”, fala Evelyne de 17 anos. “Agora temos outras armas para responder a violência, como a crítica ou a reflexão. Se não mudarmos nossa forma de pensar, nunca poderemos mudar nossa forma de agir”.

Nem todos os habitantes das favelas são traficantes

A escola é um bom meio para chegar aos jovens, mas não é suficiente. “No Brasil, 10 milhões de jovens abandonaram a escola em tenra idade e não têm acesso ao mercado de trabalho; estes jovens se encontram, então, numa situação de risco”, explica Ruber Fernandes, diretor da Viva Rio, uma ONG que se ocupa dos jovens que já tiveram problemas com a polícia. “É preciso encontrar outras formas para educá-los ou ajudá-los a encontrar trabalho. E este é o nosso trabalho”.

“Formava parte de uma equipe que vigiava as idas e vindas da polícia na nossa favela. Era perigoso e tinha medo. Um dia me encontrei com um amigo que me falou da Viva Rio. Fui e agora estou fazendo uma formação em Jornalismo”, conta Fernando, de 21 anos. “Escrevo meus artigos para um sítio de web que se chama Viva Favela. Finalmente minha vida é normal. Acho que a aplicação dos direitos humanos pelos policiais é uma excelente solução, mas antes é essencial que mudem a mentalidade. Por exemplo, eles têm que deixar de pensar que todos os habitantes das favelas são traficantes de drogas”.

Para o CICV, as ONG são outra possibilidade para promover o respeito dos ‘princípios humanitários’ entre os jovens. Mas antes dos direitos humanos estão as vítimas da violência, às quais a Cruz Vermelha trata de prestar assistência. “Trabalhamos em estreita colaboração com o CICV”, assinala Luis Hernandez, presidente da Cruz Vermelha Brasileira. “O CICV nos ajuda a capacitar os socorristas que se relacionarão com a população das favelas para cumprir seu trabalho humanitário”.

“Este trabalho da Cruz Vermelha Brasileira nos dá outra oportunidade de transmitir a mensagem sobre os limites da violência, uma mensagem na qual são sensíveis, sem dúvida alguma, os habitantes das favelas, que tendem ser as primeiras vítimas desta violência”.

Mudar a mentalidade promovendo o respeito dos direitos humanos e os “princípios humanitários” é um caminho comprido que, apesar de tudo, o CICV e a Sociedade Nacional decidiram recorrer ao objetivo de tratar de erradicar, sem violência, a violência que está deteriorando a sociedade brasileira.

Pierre Bratschi
Jornalista independente radicado em Buenos Aires.

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