©James Nachtwey / ICRC / VII
Esta jovem foi abandonada pelos pais quando tinha dez anos e vagava pelas ruas de Cabul. A polícia a recolheu e a levou para o Marastoon, administrado pelo Crescente Vermelho afegão.
Najiba, de 52 anos, nos recebeu quando chegamos à porta do Marastoon, um lar para necessitados na periferia de Cabul - o lar para 18 mulheres com deficiências mentais e vários outros adultos abandonados e crianças órfãs.
A mulher sob os cuidados de Najiba estava no jardim fazendo seus exercícios matinais, portanto ela se sentou conosco em um lugar tranqüilo em seu dormitório vazio.
No complexo, uma mulher gemia e se lamentava. Um persistente ‘lalala’ acompanhava seu pranto, enquanto outra interna andava em círculos, balançando a saia, cantando para uma companhia invisível.
“Há uma menina aqui”, falou baixo Najiba, “a quem chamamos de Gul-ma. Significa ‘nossa flor’. Não sabemos seu verdadeiro nome. A polícia a encontrou há seis anos vagando e a trouxe para o Marastoon. Ela é deficiente mental e tinha sido abandonada pelos pais quando tinha dez anos”.
Ainda hoje, segundo Najiba, Gul-ma raramente fala e se retrai ainda mais em um mundo de silêncio quando está triste.
“Há trinta anos, durante o regime comunista do Afeganistão”, continua Najiba, mudando o rumo da conversa para sua própria história, “meu marido desapareceu e nunca mais voltou. Fiquei sozinha para criar quatro crianças. Foi quando vim trabalhar no Marastoon”.
“Às vezes, o mais difícil é lidar com o barulho à noite”, destacou, enquanto ouvíamos uma cacofonia dissonante que vinha do jardim.
“E o melhor?” - perguntei.
Ela pausou, depois sorriu: “O melhor é quando conseguimos fazer essas mulheres felizes”.
Pensei nos sacrifícios da vida, nas pessoas que se punham na linha de frente para ajudar outras, apesar de suas próprias tragédias. À nossa volta, o complexo, e a cantoria, e o dormitório branco e arejado no qual sentávamos, com vista para Cabul ao longe, alimentavam muitos pensamentos.
Na década de 30, os “marastoons” – uma palavra em pashto que significa “lar para necessitados” – foram estabelecidos pelo governo afegão nas cidades de Herat, Jalalabad, Mazar-i-Sharif, Kandahar e Cabul. O Crescente Vermelho afegão os assumiu em 1964 e, 30 anos depois, com a intensificação da guerra civil na capital afegã, o CICV interveio para evacuar os internos do marastoon à medida que as linhas de frente invadiam o complexo e choviam foguetes. O CICV manteve seu apoio na década seguinte.
Os marastoons, que primeiramente serviam como abrigos para desabrigados, também se tornaram refúgio para párias sociais e deficientes mentais. Apesar das diferenças regionais, cada um tem um objetivo em comum: dar às crianças que vivem aí educação e aos adultos, um ofício para facilitar sua integração de volta à sociedade quando chegar a época de saírem, depois de um período máximo de dois anos.
Mas Gul-ma e as outras mulheres na ala de deficientes mentais do Marastoon de Cabul não vão a lugar nenhum.
Muito foi feito nos últimos anos para que as mulheres do complexo se sentissem confortáveis e acolhidas. Como o presidente do Crescente Vermelho afegão, que foi responsável por muitas das melhorias, explicou em uma entrevista recente, “agora as mulheres podem viver e morrer com dignidade”.
As décadas de ocupação e de guerra civil no Afeganistão deixaram cicatrizes profundas em dezenas de milhares de pessoas física e mentalmente deficientes.
Gul-ma é uma das que tem sorte. Recolhida das ruas e levada para o Marastoon, pelo menos ela tem onde viver e alguém que cuide dela. Mas a ajuda que os marastoons pode oferecer às pessoas com distúrbio mental é apenas uma gota em um oceano de necessidade.
À medida que o conflito se intensifica mais uma vez pelas montanhas e planícies acinzentadas afegãs, Gul-ma e suas companheiras continuam protegidas das inumanidades da guerra em suas próprias solidões. As pessoas que estão nas aldeias de muro de barro, onde o combate acontece, não têm tanta sorte.