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English title: Afghanistan: portraits of the blind
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15-05-2009  Reportagem  
Afeganistão: retratos da cegueira
Dad-e-Khuda, Zalmai e Jamaluddin são deficientes visuais e vivem em um "Marastoon" do Crescente Vermelho afegão em Cabul. Aí eles encontram o apoio que necessitam para lidar com a nova vida e têm a oportunidade de aprender novas habilidades que lhes dão esperanças de um futuro melhor.

Dad-e-Khuda (32) ficou cego por um artefato que não havia explodido quando ele tinha 11 anos e brincava com amigos em um campo. “Primeiro não senti nada”, lembra. “Depois me sentei em uma pedra e percebi que meu rosto doía”. Ele perdeu a visão nos dois olhos.

Hoje, Dad-e-Khuda é um dos vários deficientes visuais que vivem no Marastoon do Crescente Vermelho afegão em Cabul. Literalmente ‘lugar de refúgio’, o Marastoon é o lar de mais de cem homens, mulheres e crianças necessitados de todo o Afeganistão.

“Estou aqui há dez anos”, diz Dad-e-Khuda. “Nos primeiros quatro meses, não fiz nada, mas depois comecei a frequentar a escola para deficientes visuais. Agora estou na nona série".

Ele espera que os estudos permitam que ele se torne professor. “E ir para a escola também me ajuda a conhecer o mundo”, diz.

Embora divida o quarto grande e arejado com outros internos, Dad-e-Khuda leva uma vida solitária, ouvindo e memorizando o Corão Sagrado. Como admitiu, prefere guardá-lo para si. “O Marastoon me dá comida e roupas”, conta. “Não preciso de nada mais. Minha família me visita de vez em quando”.

“Por enquanto fico aqui”, acrescenta, referindo-se ao Marastoon, “mas pode ser que não fique aqui toda minha vida. Ao aprender o Corão Sagrado, poderei trabalhar, ensinar e viver por minha própria conta”.

* * *


Zalmai (54) vive no Marastoon há 23 anos. Ele começa todos os dias recitando o Corão e passa a maior parte de suas manhãs sentado ao sol do lado de fora de seu quarto conversando com outros deficientes visuais. Seu dia termina com mais recitações do Corão Sagrado.

“Não há futuro para um cego”, diz. “É como viver debaixo da terra”.

Quando jovem, Zalmai vendia chicletes e bilhetes de loteria para viver, mas sua visão foi se deteriorando e ele passou por muitas dificuldades. Ele foi despejado da casa onde morava quando já não podia ver e foi parar no Marastoon.

“Ficarei aqui enquanto receber comida”, conta. “Deus sabe o que acontecerá no futuro”.

* * *

A família de Jamaluddin mora em uma aldeia há cerca de 30 quilômetros de Cabul. Ele perdeu a visão aos dois anos, quando um remédio ‘local’ foi usado para curar uma dor que sentia nos olhos. “Serei cego para o resto da minha vida”, lamenta.

Graças aos esforços de um casal canadense que lhe ensinou Braille, Jamaluddin agora tem um emprego como professor na escola para deficientes visuais e um futuro assegurado. “Depois que eles terminaram de me ensinar, voltaram para seu país”, conta Jamaluddin, referindo-se a seus professores. “Eles são boas pessoas. Rezo por eles todos os dias”.

Embora ele quisesse ter sua própria casa, os aluguéis estão muito altos para os salários de um professor. E ele descobriu que as pessoas não querem alugar casas para uma pessoa que não pode ver. “As pessoas me dizem: ‘Você é cego. Vai queimar a casa toda um dia.’”

No entanto, no Marastoon não existem sentimentos assim. Nos últimos sete anos Jamaluddin vive aí com sua esposa, também deficiente visual, e a filha deles, que não padece essa deficiência. “A comida é boa”, conta com prazer, “eles me dão roupas e há lenha para o aquecimento”.

Sobretudo, ele está feliz por ter um trabalho que lhe permite sair dessa realidade todos os dias. “Venham visitar a escola”, pede. “Há muitas crianças deficientes visuais. Não venham para me ver, venham ver as crianças. Se vocês puderem ajudá-los, seria muito bom”.

©ICRC/VII/James Nachtwey/v-p-af-e-01513
Dad-e-Khuda, 32 anos, perdeu a visão aos 11 anos, quando brincava com um artefato que não havia explodido.


©ICRC/VII/James Nachtwey/v-p-af-e-01512
Zalmai, que vive no Marastoon há 23 anos, perdeu sua visão gradualmente até não poder trabalhar mais.


©ICRC/J. Powell
Deficiente visual desde a infância, Jamaluddin tem uma esposa também deficiente visual e uma filha, de sete anos, que não padece a deficiência.

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15-05-2009