Era um dia agradável e claro depois de uma noite gélida. As estradas estreitas que levavam casas de barro nas colinas sobre um dos mais movimentados mercados de Cabul estavam escorregadias pelo gelo meio derretido e o esgoto. A maioria das pessoas que vive nesse bairro despedaçado é pobre e Raz Mohammad, um fisioterapeuta do centro ortopédico mantido pelo CICV, estava a caminho para visitar um paciente que há anos está paralítico devido a um ferimento na espinha dorsal.
O pai do homem, Mubarak Shah, estava esperando à soleira para receber o visitante. Ele o conduziu a um pequeno cômodo interno onde seu filho, Sardar, de 38 anos, estava recostado sobre almofadas. Atrás dele havia uma janela, na qual lenços plásticos substituíam os vidros. A sala era escura, protegida por cortinas vermelhas e aquecida por um tradicional aquecedor de sandali.
Os sandalis são uma alternativa econômica aos aquecedores de lenha, os bukharis, que as famílias pobres podem ter, mas que poucos podem usá-los devido ao alto preço do combustível. A bênção do sandali é que uma família inteira pode se sentar ao redor dele para se aquecer, com as pernas metidas nos cobertores que cobrem a estrutura retangular de madeira posto sobre o braseiro para manter o calor.
Mas os sandalis têm seus perigos também. A fumaça do carvão causa problemas respiratórios para os jovens e idosos; as crianças que se aconchegam sob os cobertores podem se asfixiar; paraplégicos, como Sardar, devem tomar cuidado para não queimarem os membros insensíveis quando estão muito próximos do calor, pois já não sentem dor.
A história de Sardar
© ICRC/J. Barry
Raz Mohammed limpa a ferida de Sardar.
Algumas noites antes, Sardar foi dormir próximo ao sandali, como sempre. Quando acordou pela manhã, percebeu um cheiro estranho.
“Vi que minha meia estava totalmente queimada", explicou a Mohammed, que desenfaixava o pé direito de Sardar, revelando os dedos e a carne negros e queimados.
Depois de limpar a ferida com iodo, Raz Mohammad diz ao paciente que vá ao centro ortopédico. “Você precisava fazer um exame de raios-X", explicou. "O médico decidirá se você precisa ir ao hospital ou não".
Sardar olhou para os dedos queimados, segurando sua perna fina junto à luz. Não se acovardou, nem chorou. Escutou as instruções sobre como enfaixar o pé adequadamente, sorriu para a mãe, Saberoo, que estava sentada do outro lado do sandali, com os olhos negros cheios de lágrimas e, então, se reclinou nas almofadas para falar de outras coisas.
“Fui atingido por estilhaços quando nossa casa em Shamali foi destruída por um foguete, anos atrás", começou. "Um de meus irmãos morreu e eu sobrevivi".
“Mas fiquei paralítico".
“Não podíamos ficar depois que a casa foi destruída", disse Saberoo, de 60 anos, assumindo a história. "Não tínhamos terra nem árvores, não havia dinheiro para reconstruir a casa, então nos mudamos para Cabul".
A família paga o equivalente a US$ 100 todos os meses por uns cômodos velhos alugados com vista para o bazaar; uma quantia exorbitante. "Mas o bom é que está perto do mercado", destacou Saberoo "então é mais fácil para meus filhos encontrarem trabalho".
É uma vantagem para Sardar também. Em vez de estar deitado em casa quando seus irmãos estão do lado de fora, eles o levam consigo, carregando-o pelas estradas escorregadias e estreitas até a estrada principal todas as manhãs. Entre os carrinhos de frutas sujos havia uma barraquinha. A família a comprou com o dinheiro de sementes de um sistema de micro-crédito administrado pelo centro ortopédico. Eles a estocam com biscoitos, leite e outros alimentos e é aí que Sardar passa seus dias, vendendo sua mercadoria e conversando com os fregueses. Não só lhe ajudou a fazer um pouco de dinheiro, como lhe deu independência, tão vital para o bem-estar de um deficiente físico.
As décadas de guerra e de confusão política no Afeganistão fazem da vida uma luta para poucos. Os cerca de 600 paraplégicos do centro ortopédico enfrentam enormes dificuldades. Praticamente todos são extremamente pobres e muitos são indigentes. Eles sobrevivem das porções de arroz, feijão, farinha, chá e manteiga de garrafa, ou ghee, que cada paciente recebe a cada três meses do CICV junto com o tratamento e as visitas às casas.
Neste inverno, muitos dos mais carentes receberão também lenha para seus bukharis, desta forma fornecendo uma fonte de calefação alternativa aos letais sandalis. Até o momento, cerca de metade dos 600 paraplégicos foram beneficiados, graças em parte à generosidade de indivíduos e outras pessoas que querem o bem do próximo que doaram dinheiro.
Quando terminou de enfaixar a ferida de Sardar, Raz Mohammed – ele mesmo um deficiente físico, que perdeu um braço numa explosão de uma mina terrestre quando adolescente – levou Mubarak Shah ao mercado de vendedores de madeira para comprar um kharwar de lenha – cerca de 560 kg para o bukhari da família. O presente veio tarde demais para salvar o pé de Sardar, mas significa que para o resto do inverno ele e sua mãe poderão dormir à noite sem medo de acordar com uma tragédia de manhã.