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12-06-2007  Entrevista  
Afeganistão: continua o sofrimento em meio à escalada do conflito
O povo afegão passou por um sofrimento tremendo e aparentemente infindável por quase três décadas de guerra, sem um fim à vista, uma vez que o conflito está atualmente se intensificando e se espalhando. Por ocasião do 20º aniversário da presença permanente do CICV no Afeganistão, Reto Stocker, chefe da delegação do CICV em Cabul, esclarece a situação atual e explica por que ainda resta muito a fazer.

Tendo em vista a intensificação do conflito no ano passado, como o senhor vê a atual situação humanitária no Afeganistão?
O conflito aumentou e se espalhou para o norte e o oeste do Afeganistão a partir de 2006. A situação humanitária continua extremamente frágil. Os civis são altamente vulneráveis a uma escalada do conflito e às tragédias naturais que acontecem com regularidade. Continua muito difícil para as organizações humanitárias ter acesso às vítimas, especialmente fora das grandes cidades. Métodos de guerra indiscriminados, incluindo ataques contra alvos militares, mas que podem provocar muitos feridos civis, ou que são, de outra forma, conduzidos sem tomar as precauções necessárias para poupar os civis, também fizeram aumentar os riscos enfrentados pelas pessoas comuns.

O CICV está bem posicionado para reagir às mudanças nas circunstâncias em virtude da nossa presença no terreno nos grandes centros espalhados pelo país, e da nossa forte parceria com a Sociedade do Crescente Vermelho Afegão (SCVA), que tem uma rede extensa.

Como o CICV está ajudando o povo afegão a enfrentar a realidade do dia-a-dia no terreno?

Nossas atividades tradicionais, tais como o apoio às estruturas médicas, continuaram sem pausa. Esses serviços prestam assistência a milhares de beneficiários todos os anos. Até expandimos esses serviços para a conturbada região do sul ampliando nosso apoio para todos os departamentos do hospital regional em Kandahar.

Continuamos a melhorar a qualidade de vida das pessoas com nossos projetos de água e moradia. Também aumentamos significativamente nosso apoio material para o Crescente Vermelho Afegão, de forma que eles possam expandir seu “alcance material” para áreas mais remotas onde a ação humanitária é muito necessária; no entanto, não é sempre possível para o CICV fazer isso sozinho.

O senhor diria que os atores humanitários hoje estão se concentrando nas situações de emergência ao invés de priorizar o desenvolvimento?

Você não pode assistir de forma adequada as vítimas de um conflito armado em curso sem contrabalançar a resposta emergencial e o desenvolvimento. Tradicionalmente, sempre tentamos prestar assistência para o restabelecimento e o fortalecimento da infra-estrutura social existente, ao invés de substituir as estruturas. Ajudamos o povo afegão a enfrentar esta situação mostrando como ele pode ajudar a si próprio. Evitamos criar uma dependência de longo prazo. Nosso apoio ao hospital de ensino em Jalalabad, a forma como construímos a capacidade local em hospitais em Shibergan e Kandahar, e as nossas atividades de promoção de higiene, mostram que estamos mantendo um enfoque de longo prazo nos cuidados com a saúde.

Nosso trabalho de apoio ao Crescente Vermelho Afegão promove as instituições locais como as clínicas rurais, com vistas ao desenvolvimento da capacidade de longo prazo. Mantemos, portanto, um compromisso forte com o desenvolvimento, apesar de muitas áreas serem tão inseguras a ponto de reduzir as oportunidades de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, garantimos que estamos destinados a fornecer assistência humanitária às vítimas de conflito armado quando e onde eles acontecem. Este é o delicado equilíbrio entre o desenvolvimento e a resposta emergencial.

O senhor poderia abordar as necessidades da população afegã em todo o país ou existem algumas preocupações com a segurança em particular?

Desde 1978 assistimos as vítimas de guerra no Afeganistão; mas desde que estabelecemos nossa presença permanente no Afeganistão em 1987 nunca enfrentamos restrições tão agudas ao nosso trabalho como agora. Desde o início de 2003, tem sido cada vez mais difícil chegar até as vítimas nas localidades mais remotas. Os afegãos enfrentam dificuldades nas áreas em que a infra-estrutura social foi destruída. Há muitas histórias de pessoas que morreram dos ferimentos contraídos no longo caminho para os poucos centros médicos regionais que restaram.

Tentamos fazer com que nossas atividades sejam completamente transparentes para todas as partes a fim de demonstrar que temos somente um enfoque humanitário, mas a insegurança e a criminalidade imprevisível trazem perigos para a nossa equipe. Considerando o difícil contexto da segurança, estamos indo muito bem com o acesso que temos. Isto é um reflexo positivo das atitudes de todos os atores em relação ao trabalho do CICV e da qualidade e transparência de nossa equipe nacional e internacional.

O que o CICV está fazendo em relação ao grande fluxo de feridos?

Estamos ocupados! Em primeiro lugar, ao longo dos anos a concentração que tivemos na melhoria da capacidade de longo prazo local e nacional dos grandes hospitais teve um grande impacto na qualidade de cuidados disponíveis aos feridos, incluindo a atenção para as vítimas de traumas. Em segundo lugar, fornecemos forte apoio para treinamento médico por meio de seminários cirúrgicos e do treinamento dos voluntários do Crescente Vermelho Afegão que atuam com primeiros socorros e estão baseados na comunidade. Dez mil deles levam cuidados médicos e primeiros socorros para áreas remotas, incluindo as 16 províncias mais atingidas pela guerra.

Finalmente, nossa boa cobertura por meio das subdelegações e escritórios do CICV nos permite monitorar a situação humanitária em todo o país e reagir rapidamente para as necessidades das vítimas, fornecendo aos feridos de guerra suprimentos para as áreas que precisam. Nossas ações de longo prazo em cuidados de saúde emergenciais e treinamento estão trazendo resultados.

Qual é o objetivo das atividades do CICV em prol dos detidos?

O CICV trabalhou em prisões afegãs por muitos anos, a fim de proteger e assistir as pessoas que foram detidas por causa do conflito. Visitamos regularmente mais de 80 prisões aqui, incluindo a prisão Pul-i-Charkhi, os centros de detenção do Diretório de Segurança Nacional e o centro de detenção dos EUA em Bagram. Acompanhamos individualmente o destino de milhares de detidos. As visitas regulares nos permitem identificar os problemas que podem existir com relação ao tratamento dos detidos, e monitorar os processos judiciais. Ocasionalmente, fornecemos roupas de inverno ou artigos de higiene para os detidos, e conduzimos um programa de capacitação chamado “Saúde na Prisão”, para treinar as equipes médicas em cinco prisões centrais em diferentes regiões.

Também garantimos que os detidos mantenham contato com suas famílias por meio das Mensagens Cruz Vermelha – foram enviadas seis mil com a ajuda do Crescente Vermelho Afegão só nos primeiros três meses de 2007. Finalmente, ajudamos as visitas familiares aos detidos na prisão Pul-i-Charkhi, recentemente construída. Algumas dessas visitas foram os primeiros contatos entre os detidos e suas famílias ao longo de vários anos. Como sempre, mantemos um diálogo confidencial com as autoridades responsáveis pela detenção, para garantir que sejam mantidos padrões mínimos de detenção.

Qual é o principal foco da cooperação do CICV com a Sociedade do Crescente Vermelho Afegão ?

Temos uma parceria realmente forte com a SCVA, e ela está ficando mais sólida à medida que o tempo passa. A SCVA tem uma ampla rede em todo o país e tem acesso a áreas onde o nosso deslocamento é limitado. Enquanto, em geral, estamos mais ocupados em treinar pessoal na SCVA, também reconhecemos os tremendos passos que eles deram para levar ajuda humanitária aos beneficiários, especialmente nas localidades remotas. Nossa parceria envolve trabalho de cooperação nos campos da assistência – especialmente cuidados com a saúde, educação para a prevenção de acidentes com minas, assistência emergencial e comunicação. Os afegãos podem se orgulhar de sua sociedade nacional – ela é dedicada, se concentra nas vítimas e é bem dirigida.

Como o senhor acha que a situação humanitária vai evoluir nos próximos meses?

Nunca foi fácil prever como a “situação humanitária” do Afeganistão vai mudar. No momento, há numerosas mudanças no cenário: uma ação insurgente maior e mais dispersa em termos geográficos, rumores sobre negociações entre o governo e a oposição armada, e um grau crescente de insatisfação com algumas forças internacionais devido ao número elevado de baixas entre os civis. Sempre há o risco de que nos próximos meses as partes piorem a situação humanitária à medida que tentem fortalecer suas posições de negociação. O ciclo de tragédias naturais também poderia recomeçar.

O povo afegão suportou um sofrimento enorme e precisamos estar prontos e aptos para prestar-lhe assistência, seja qual for a evolução do conflito em curto prazo. Isto vai exigir um bom entendimento e o respeito à nossa missão humanitária pelas partes no conflito, e vai depender das condições que tivermos para fazer nosso trabalho. Estamos cautelosamente otimistas de que será este o caso.

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12-06-2007