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15-04-2008  Informe especial  
Chade: restabelecendo a dignidade perdida
Em uma sociedade em que para as pessoas que têm algum tipo de deficiência é difícil encontrar o próprio espaço, os cuidados ortopédicos ajudam as vítimas de minas, de acidentes de trânsito e acidentes em geral a começar a vida de novo.

"Na nossa sociedade, as pessoas enxergam a deficiência como uma maldição", explica Mahamat Bodingar, gerente administrativo e financeiro do centro de próteses e reabilitação Kabalaye (Centre d'appareillage et de rééducation de Kabalaye, CARK) em N'Djamena, Chade. "Sem ajuda, essas pessoas ficariam marginalizadas pelo resto da vida. Nos vilarejos, as pessoas acreditam que foram punidas por pecados cometidos numa vida anterior."

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) apóia o CARK em N'Djamena desde 1982. A organização financia a colocação de próteses em pessoas atingidas por minas e munições. Fornece os componentes e materiais básicos necessários para a fabricação de próteses, aparelhos de ortopedia, muletas e bengalas. O CICV ajuda no treinamento de oito técnicos especializados em próteses e ortopedia, enviando regularmente especialistas para mantê-los atualizados.

Trezentas pessoas tratadas todos os anos

O centro oferece tratamento para cerca de 300 pacientes todos os anos: pessoas feridas por minas e munições, vítimas de acidentes de trânsito e pacientes com poliomielite ou outras enfermidades. Todos vêm para o centro na esperança de voltar à vida normal quando o tratamento tiver sido concluído.

Cada paciente recebe cuidados individuais que vão da produção de próteses e de instrumentos auxiliares (cadeiras de rodas e muletas) até a colocação de próteses e aparelhos ortopédicos. O centro fornece reabilitação e fisioterapia e, posteriormente, continua a acompanhar os pacientes.

Djouassoum Djabou tem 41 anos. Antes de procurar o CARK, viveu sem o braço esquerdo durante 12 anos. Em 1993, precisou ter o braço esquerdo amputado na altura do ombro, o que lhe trouxe graves prejuízos à carreira de professor de escola primária. "Meus sogros me rejeitavam porque eu só tinha um braço. Temiam que eu não pudesse estar ao lado da filha deles tal como desejavam. É uma batalha ser levado a sério como professor. As pessoas acreditam que a falta de um braço tenha conseqüências sobre a sua capacidade de pensar. Por isso nunca fui capaz de conseguir um emprego numa escola pública."

O CARK reacendeu as esperanças de Djabou em se reintegrar à sociedade. Técnicos em ortopedia produziram um braço artificial para ele, proporcionalmente adequado ao tamanho de seu corpo. Isto lhe permite cumprir tarefas cotidianas como pegar coisas e se vestir. Mais importante ainda, o braço artificial esconde sua deficiência. "Eles colocaram de volta a parte que faltava", afirma Djabou. "As pessoas na rua nunca saberão que tive um acidente."

Aprendendo o essencial novamente

Serge está sentado próximo a Djabou à espera de ser atendido. Ele conhece as equipes do CARK há quase 15 anos. Desta vez, veio para receber uma nova perna artificial. Em 1981, foi ferido por uma granada deixada pelos combates em 1979. É agricultor e tem seis filhos para criar. Voltar à vida normal não foi nada fácil. "Quando acordei depois da explosão, não sabia onde estava. Por sorte, algumas almas boas me levaram para N'Djamena, onde recebi tratamento de emergência, mas minha perna direita ficou tão gravemente ferida que tive de amputá-la. Para um homem que trabalha com a terra como eu, é difícil sobreviver quando todos os movimentos são difíceis e dolorosos."

Enquanto os técnicos estão fazendo uma estrutura em gesso para fabricar um molde de sua nova perna artificial, Serge brinca enquanto olha para o equipamento à sua volta. "Agora parece que está bom. Lembro-me de minha primeira perna. Foi feita de madeira e metal, e era pesada. Hoje nem sinto a perna. É muito mais confortável."

Ao longo dos últimos 15 anos, Serge se tornou amigo dos técnicos do CARK. Ele os viu crescer e se desenvolver como profissionais. "Na época eles ainda eram crianças. Mas foram eles que ensinaram este velho homem a andar de novo. Nunca posso lhes agradecer o suficiente. A eles e às pessoas que os ajudam."

Em 2007, o CICV financiou a fabricação e a colocação de próteses de membros para mais de 100 pessoas. Assim como Djabou e Serge, agora elas poderão ter capacidade para levar uma vida o mais normal possível e contribuir para o bem estar de suas famílias e parentes.

Especialistas em redução de riscos ligados a minas e outras munições estão avaliando a situação em áreas atingidas pelos combates no final de 2007 e fevereiro de 2008. Eles vão apresentar recomendações para as autoridades sobre como evitar que mais pessoas sejam feridas por esses dispositivos, que ainda existem em certas regiões do país.

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15-04-2008