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21-04-2008  Reportagem  
Chade: salvando animais, salvando uma forma de vida
A criação de animais é tão importante no leste do Chade e no resto do país que os rebanhos de animais e as plantações são amplamente considerados os pilares da economia nacional. Os recentes combates levaram muitos proprietários de rebanho a se refugiar com seus animais em áreas do país com escassez de serviços veterinários – os quais podem, às vezes, ser muito importantes para a sobrevivência dos animais. Considerando esta situação, o CICV começou a treinar pessoas para que possam prestar serviços veterinários. A delegada veterinária Ursula Kayali aborda o tema.

No leste do Chade os pastores conduzem seus camelos, gado, ovelhas e cabras para a migração sazonal. Eles passam a estação chuvosa nos amplos pastos da área nômade em torno da cidade de Arada e na região de Borkou-Ennedi-Tibesti. Quando a chuva pára, a água rapidamente escasseia, então eles se encaminham para o sul, em direção a Dar Sila e Salamat. Todas essas áreas têm o solo fértil necessário para alimentar um grande número de animais que comem pasto. Camelos enfeitados encabeçam as caravanas que vão e vêm nas rotas migratórias. Sua passagem é freqüentemente um acontecimento festivo para os moradores locais, que de repente encontram nas feiras leite, outros produtos animais e artigos feitos à mão pelos pastores.

Embora os pastos e o cultivo de plantações não estejam em contradição entre si, podem surgir conflitos entre esses diferentes estilos de vida e sistemas de produção. Quando um fazendeiro ou um pastor sente que seus interesses foram prejudicados, às vezes o conflito é solucionado pelos meios tradicionais, ou seja, os líderes locais discutem o assunto debaixo de uma árvore enquanto tomam chá, até que seja encontrada uma solução para uma compensação adequada.

Pastores estigmatizados

Nos últimos anos, a violência entre as comunidades que esporadicamente atinge o leste do Chade enfraqueceu os meios tradicionais de solução dos conflitos e, com a situação tão próxima que têm lugar em Darfur, piorou o estigma sofrido pelos pastores. Os termos "árabe", "africano negro" e "janjaweed" têm sido freqüentemente usados para descrever a tensa realidade que nem sempre é o que parece.

O estigma sofrido pelo povo nômade e semi-nômade tem, aos poucos, impedido o seu meio de vida, levando-os a se deslocar para regiões às vezes remotas, por exemplo, para além das wadis (cursos d'água que normalmente são secos, mas podem se tornar torrentes violentas, entre colinas cobertas por vegetação). O preço que eles pagam por este isolamento não é somente a falta de cuidados com a saúde, de serviços sociais e governamentais, mas também a falta de cuidados veterinários para seus rebanhos, sem o que os pastores não têm nada.

Tendo em vista que o mandato do CICV exige que a organização preste auxílio para as pessoas atingidas por conflitos armados e outros tipos de violência, faz sentido desenvolver um programa para treinar pessoas em cuidados veterinários.

Aqueles que recebem este treinamento são pastores escolhidos por sua própria comunidade. Eles passam por 14 dias de treinamento durante os quais aprendem a evitar, reconhecer e tratar as doenças mais comuns. No final do curso recebem um estoque de remédios. A renda obtida com a venda e as consultas e os outros serviços dispensados à sua comunidade lhes dão os meios para que renovem o estoque de medicamentos.

O resultado esperado é que a comunidade se beneficie do trabalho e das qualificações deles, enquanto apóia os esforços que eles fazem para melhorar a saúde de todos os rebanhos da comunidade.

Satisfazendo suas próprias necessidades

Com o apoio do Ministério dos Rebanhos, o CICV ofereceu treinamento em serviços veterinários para 74 pessoas em 2007, em Dar Sila e na área de Arada. Veterinários locais participaram do treinamento e agora vão monitorar o progresso dos que concluíram o curso e aumentar o conhecimento básico que obtiveram.

O CICV também lançou este programa em outras áreas. Em março, organizou um curso para 15 pastores em Iriba e Dar Zaghawa, uma região de pastoreio onde ficam os maiores campos de refugiados do Sudão e que está compartilhando seus recursos com pastores que fazem parte do grupo de refugiados.

Ao todo, o programa de treinamento em cuidados veterinários possibilitou a 23 mil pessoas que dependem fortemente de seus rebanhos a melhorar a saúde de seus animais e aumentar a produtividade.

O apoio a iniciativas tomadas pelas próprias vítimas de conflitos armados está no centro da abordagem do CICV em relação à ajuda humanitária. A organização observa de perto o meio de vida de uma comunidade e sua estratégia de sobrevivência, para depois trabalhar em parceria com ela a fim de encontrar a melhor forma de satisfazer às suas necessidades.

Mais de 80 mil pessoas deslocadas que enfrentavam situações difíceis em 2007 receberam distribuição emergencial de comida e outros produtos de primeira necessidade. Ao mesmo tempo, o CICV apoiou mais de 1.300 famílias a produzir verduras. Esta iniciativa incluiu o fornecimento de bombas de água e a construção de depósitos para guardar a colheita.


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21-04-2008