O que a impressionou mais nas missões já terminadas?
Não consigo explicar as emoções que senti... Foi uma experiência muito gratificante. Em um país acossado pelo conflito armado há décadas – a Colômbia – centenas de membros dedicados do CICV têm trabalhado duro por muito meses e anos para aliviar o sofrimento das pessoas afetadas. A maioria das vezes, nosso trabalho continua longe dos holofotes da mídia e nem sempre somos recompensados com tanta emoção como a que sentimos ao ajudar a reunir aqueles cinco homens com suas esposas, filhos, irmãos e pais. Dentre os membros do CICV que participaram dessas missões, muitos trabalharam nos bastidores – encontrando-se com autoridades de alto nível, dirigindo carros, operando rádios, e até mesmo preparando sanduíches para a equipe dos helicópteros. Nenhum de nós esquecerá aqueles momentos. As lembranças nos ajudarão a continuar nosso trabalho nos dias comuns, porque eles nos fazem perceber que o compromisso do CICV a longo prazo com as pessoas afetadas pelo conflito armado pode render frutos.
Mas não fomos os únicos a nos emocionar com essa experiência única. Os membros da Comissão de Colombianas e Colombianos pela Paz e a equipe brasileira do helicóptero também estavam muito comovidos pelo fato de o trabalho deles fazer uma diferença nas vidas das pessoas liberadas e das suas famílias. Na verdade, estou enternecida de ver que todo um país está participando, pelo menos emocionalmente, nas missões de liberação. Nos últimos dias, as pessoas ficaram grudadas dia e noite nos seus rádios e nos seus televisores, compartilhando a alegria das famílias que foram reunidas.
Como os cinco homens reagiram quando foram liberados?
O soldado e os três policiais liberados no último domingo estavam nas mãos da FARC por um ano e meio. Em dezembro, eles tinham ouvido no rádio que as FARC liberariam alguns policiais e militares, mas até o dia da liberação eles não sabiam que seria sua vez de voltar à liberdade. Quando eles nos viram, as emoções explodiram – podíamos ver como estavam animados e imaginávamos tudo que deveria estar passando pelas cabeças deles. Dentro do helicóptero, alguns se acalmaram, enquanto outros demonstravam seus sentimentos com abraços e beijos. Eles agradeceram a todos profundamente por terem tornado suas liberações possíveis.
Na quarta-feira, as FARC devolveram Alan Jara, o ex-governador do departamento de Meta. Ele nos cumprimentou com um abraço caloroso e disse "É bom revê-los depois de sete anos e meio de cativeiro!". Estou impressionada de ver como ele conseguiu manter seu ânimo – e o dos outros prisioneiros – durante os longos e difíceis anos na selva. Não conseguimos imaginar como deve ser difícil morar mais de sete anos em um clima úmido, ser constantemente picado por mosquitos e estar exposto à malaria e outras doenças tropicais (com quase nenhum cuidado médico disponível), sem falar de não poder tomar banho ou trocar de roupa por longos períodos e não ter uma cama confortável onde dormir à noite. Ele disse que ele usava seu tempo no cativeiro para dar aula de idiomas estrangeiros e outras matérias aos companheiros reféns, membros da comunidade e das FARC. Todas as noites ele planejava a lição do dia seguinte. Seus sequestradores lhe deram tudo que precisava para a sua "escola na selva". O sr. Jara mencionou que ele pôde ouvir as vozes de seus familiares no rádio em apenas três ocasiões. Ele me mostrou recortes de jornal com fotos de sua esposa e de seu filho – um tesouro que ele guardou em um saco plástico durante todos os anos de seu cativeiro.
Que desafios o CICV enfrentou durante as primeiras duas missões?
O fato de a mídia ter a atenção voltada para isso o tempo todo nem sempre facilitou as coisas. Tudo que os participantes das missões estão fazendo, ou não, dizendo, ou não, era imediatamente noticiado e interpretado pelos meios de comunicação. Em meio a todo tipo de especulação da mídia, era muito importante que não perdêssemos nosso objetivo de vista, que era trazer três policiais, um soldado e dois políticos de volta para suas famílias em segurança, com saúde e rápido.
Durante a primeira missão de entrega – no último domingo – muitas coisas não aconteceram conforme planejado. Isso atrasou nosso trabalho e não tivemos opção se não voarmos de volta ao anoitecer, algo que não tínhamos planejado de maneira alguma! Tivemos que coordenar nossas ações com o governo colombiano, as FARC, a Comissão de Colombianas e Colombianos pela Paz e a equipe brasileira do helicóptero, e todos os envolvidos no terreno e em Bogotá tiveram que se adaptar a uma rápida evolução da situação para poder lidar com o inesperado.
O envolvimento do Brasil deu à missão uma dimensão internacional. O fato de um terceiro país estar disposto a dar apoio logístico a uma operação humanitária é muito louvável. Todos concordam que a equipe brasileira do helicóptero é muito profissional e estão fazendo um ótimo trabalho apesar da sua falta de familiaridade com a área por onde tiveram que voar.
Devido ao uso ilegítimo do emblema da Cruz Vermelha pelas forças armadas colombianas em julho passado, no resgate de Ingrid Betancourt e de outras 14 pessoas capturadas pelas FARC, entrar em um território controlado pelas FARC com um helicóptero com o emblema da Cruz Vermelha ainda era, claro, um problema para eles. Foi necessário reconstruir toda a confiança com eles. Obviamente, se quisermos continuar servindo como um intermediário neutro, precisamos da confiança de todas as partes envolvidas no conflito. Enquanto a entregas eram realizadas, tomamos conhecimento de alguns pontos mencionados por alguns comandantes das FARC e lhes mostramos nossos pontos de vista. Esperamos que essas discussões ajudem a reconstruir confiança para o futuro.
É possível que haja mais liberações no futuro próximo?
Estamos otimistas e temos esperanças de que Sigifredo López, ex-legislador de Cali, seja liberado hoje como planejado, se as condições meteorológicas permitirem. O governo colombiano prometeu interromper por 24 horas todas as atividades militares na área onde o resgate acontecerá e estamos fazendo de tudo para que as FARC saibam que nossa logística está a postos e estamos prontos para a entrega.
A alegria que sentimos ao ver as famílias reunidas depois de tantos anos de separação não nos deixará esquecer aqueles que ainda estão esperando o reencontro com seus entes queridos. Alguns soldados e policiais têm sido mantidos pelas FARC há mais de dez anos em condições muito difíceis. Dias atrás fui abordada por uma senhora que me perguntou: "E o meu marido? Não sei nem se ele ainda está sendo mantido por algum grupo armado ou se ainda está vivo ou não!" Na Colômbia, há milhares de pessoas cujos paradeiros continuam desconhecidos. O CICV continuará trabalhando na Colômbia não somente para ajudar na liberação de reféns e para encontrar as pessoas desaparecidas, mas também para assistir as dezenas de milhares de deslocados pelo conflito armado, as vítimas de minas terrestres antipessoal e para visitar milhares de pessoas presas relacionadas com o conflito armado nas penitenciárias do governo.