©ICRC/VII/Ron Haviv
Dr. Tharcysse Synga cuidando de pacientes
É uma linda manhã de janeiro. A belíssima vista do Lago Kivu e as colinas azuladas ao redor poderiam realçar qualquer propaganda de clínica de alto nível na Europa. Mas as alas lotadas do hospital e a longa fila de pacientes externos que esperam o único médico mostram uma história diferente, como os campos para deslocados superlotados nos fundos. Esta história se passa no Hospital Minova – localizado no que há uma semana era uma zona de guerra. Dr. Tharcysse Synga, 35, não teve um dia de folga em meses.
Era um dia relativamente tranqüilo. A única cirurgia que o doutor teve que realizar foi uma cesárea, que ajudou a trazer ao mundo uma menina saudável. Isso não é nada comparado com as 16 operações que realizava por dia nos últimos meses. "Teve um dia que fiz 17", lembra o Dr. Synga. "Mas isso era demais para o material disponível no hospital. A lavanderia teve que trabalhar muito rápido este dia para reciclar algumas coisas para podermos operar novos pacientes".
Escolher entre a vida e a morte foi uma experiência terrível e dolorosa. "Muitos feridos de guerra eram trazidos ao mesmo tempo e a gravidade de suas feridas variava. Tínhamos que priorizar os que tinham mais esperanças de sobreviver – casos graves, mas com esperança – e cuidar dos casos menos graves depois. Em muitos casos graves, no entanto, havia pouco o que fazer. Somente estar ao lado deles até o final".
Sem tempo para descansar
Em outubro e novembro de 2008, o fluxo de deslocados e feridos de guerra em Minova coincidiu com uma greve do pessoal do hospital. Dr. Synga ficou com apenas quatro estagiários para cuidar de tudo: consultas, ultrassonografias, etc. Descanso "não era a ordem do dia" e, além disso, havia as noites passadas no hospital "porque era muito arriscado sair no escuro no caso de uma emergência médica", conta o Dr. Synga. "Não era bem isso que eu imaginava quando aceitei este trabalho, no ano anterior", acrescenta, com um sorriso.
Para este jovem doutor treinado em Kisangani e Kinshasa, trabalhar em um pequeno hospital, em uma província remota, parecia uma escolha lógica: "Quando comecei meus estudos de Medicina, queria contribuir para aliviar o sofrimento de meus irmãos e irmãs. Pensei que esse sofrimento seria mais tangível em pequenas cidades, especialmente as que estão em áreas de guerra". As Kivus, na fronteira ocidental da República Democrática do Congo, com seu longo histórico de conflitos sangrentos, pareciam o destino certo. Quanto ao Hospital em Minova, que atendia a uma população de cerca de 160 mil habitantes, precisava urgente de profissionais de saúde qualificados e motivados.
O Dr. Synga lembra que os últimos meses de 2008 foram "muito dramáticos". Como no dia que o combate se aproximou demais. "Como se pode ver, devido a sua localização, o hospital está muito visível. Os pacientes começaram a entrar em pânico por medo de serem alvos. Então, nós e os ajudantes tivemos que carregá-los nas costas de volta para suas casas, onde se sentiam mais seguros". Todas as agências humanitárias tinham deixado Minova nesse momento. No entanto, "os kits cirúrgicos doados pelo CICV ao hospital fizeram uma grande diferença", reconhece o doutor.
Violência sexual: um 'termômetro' do conflito
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Dr. Synga realizando uma de suas 16 cirurgias diárias
Outra contribuição do CICV muito apreciada foram os kits pós-estupro, que, se administrados menos de 72 horas após o estupro, diminui o risco de contração de doenças sexualmente transmitidas.
De sua experiência de 18 meses no Hospital em Minova, o Dr. Synga aprendeu até que ponto a violência sexual pode causar traumas terríveis. "Eu me lembro de uma senhora de 69 anos que havia sido violentada por oito homens armados. Imagine os danos causados a seu corpo".
"Além disso, o estupro é um termômetro do conflito", explica. "Via o número de mulheres vítimas de violência sexual subir e descer com o combate". Por essa razão, o doutor tem dúvidas quanto ao último cessar-fogo declarado pelos principais beligerantes nas Kivus.
Ele conta que tratou 30 mulheres vítimas de violência sexual em dezembro e trinta mais em janeiro, e o mês ainda não havia terminado. "Só ontem, tivemos sete casos novos", diz Dr. Synga com tristeza.