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20-12-2007    
República Democrática do Congo: violência sexual generalizada ameaça famílias
Inúmeras mulheres no leste da República Democrática do Congo (RDC) foram vitimas de violência sexual cometida por grupos armados. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) dá apoio para grupos locais que ajudam na recuperação de mulheres traumatizadas. Bernard Barrett relata o drama de Kivu e se encontra com duas vítimas.

"O estupro pode ser usado como uma arma para minar toda a estrutura social", afirma Wihelmine, chefe do centro Vico, dedicado às vítimas de violência sexual em Bakuvu e Walungu. A violência sexual é freqüentemente utilizada para enfraquecer qualquer oposição da população.

O centro provê apoio social e psicológico e treinamento em literatura, costura e bordados além de oferecer assistência material às vitimas. A maioria das mulheres veio a Bukavu buscando tratamento, saindo de pequenas vilas próximas às florestas que servem de refugio para vários grupos armados.

"Antes, a violência sexual era isolada e escondida", comenta Ntakebuka, conhecida como Mama Vico entre suas protegidas. "Agora é feita na frente de todos: do marido da vítima, de seus filhos, de toda a comunidade. Ninguém pode fingir que não aconteceu".

Devido ao alto nível de desemprego na região, as mulheres, em muitos casos, são o suporte econômico da família, ela acrescenta. "Freqüentemente a mulher pensa que ela é marginalizada, sem utilidade. Ela perde a coragem de continuar sua vida cotidiana, seu trabalho e até de assumir seu papel com a família".

Marnie Lloydd, uma delegada do CICV no sul de Kivu, diz: "Após um estupro, existe o trauma inicial e a necessidade de cuidado médico. Mas existem, também, as questões médicas de longo prazo, tais como as infecções e o HIV. Alguns dos ataques são tão brutais, que deixam seqüelas sérias ou até permanentes".

Dano psicológico

"Existem também os traumas psicológicos de longo prazo. Além disso, a vítima pode ser rejeitada pela comunidade ou até pelo marido, e assim, ter que se separar dos filhos".

O CICV está ajudando as vítimas através de apoio dado ao Centro da Mama Vico em Walungu, para onde são levados os medicamentos fornecidos pela organização. O CICV também disponibiliza kits Pep para "post-rape" (pós-estupro) – com tratamentos que ajudam a diminuir os riscos de transmissão de doenças - para centros de saúde nas regiões afetadas (esses kits são destinados às vítimas que conseguem ser atendidas dentro de 72 horas depois do estupro). A organização também tem realizado cursos de treinamento para os trabalhadores da área de saúde para que eles possam também dar apoio psicológico e social, além de apoiar vários centros de aconselhamento e abrigo para as vítimas. O CICV também faz com que os domicílios administrados por mulheres sejam uma prioridade para os programas de assistência.

No pequeno vilarejo de Bunyakiri, quatro horas ao norte de Bukavu, representantes de 15 associações que dão suporte às vítimas de violência sexual, se encontram com representantes do CICV no hospital local. Um dos temas que eles discutem é a relutância de muitas vítimas em avançar devido ao medo da estigmatização.

Procurar ajuda rapidamente

Namungaaga Babika, vice-presidente de uma das associações, diz: "Nós falamos para as mulheres não esconderem os casos de estupros e para vir ao hospital o mais rápido possível. Também tentamos convencê-las de que elas continuam sendo importantes e que podem continuar a ajudar suas famílias economicamente. Nós ajudamos a elas e lhes mostramos como elas mesmas podem ajudar a si e a suas famílias".

André Munyali, presidente de outra associação, adiciona: "Cerca de 500 mulheres têm sido tratadas aqui no hospital. Mas um grande número de vítimas não vem para tratar-se porque se envergonham, e então elas escondem a si mesmas".

"O estupro na nossa sociedade é considerado sujo", ele diz. "A mulher às vezes é rejeitada pelos membros da família; ela se sente impotente e não pode ajudá-los, porque eles não querem ser assistidos por alguém que é 'sujo'. O estupro afeta a mulher e toda sua família".

Uma das mulheres presente na reunião completa: "Eles deliberadamente estupram na frente dos maridos e dos pais. O objetivo é destruir a mulher e destruir a família, quebrando os laços entre mãe, pai e filhos".

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