Marc Suchet, chefe do programa do CICV de água e saneamento em Kivu do Norte.
Que problemas os habitantes de Goma enfrentam com relação ao acesso à água?
A atual situação é alarmante: mais da metade dos habitantes de Goma não tem acesso à água potável. Eles sobrevivem com o que conseguem tirar diretamente do lago ou comprando de vendedores de água, que cobram dez vezes mais do que Regideso, o serviço público responsável pelo fornecimento de água nas áreas urbanas do país. Há também as organizações humanitárias que distribuem água em caminhões-pipa, mas nunca é suficiente.
A água tirada diretamente do lago ou de outros pontos de água contaminados pode fazer com que as pessoas adoeçam e pode levar a surtos de epidemias.
Como e por que o CICV está envolvido no fornecimento de água em uma área urbana como Goma?
©ICRC / P. Yazdi
A água tirada diretamente do lago ou de outros pontos de água contaminados pode fazer com que as pessoas adoeçam e pode levar a surtos de epidemias.
Os problemas de acesso à água estão entre as questões humanitárias que surgem a partir de um conflito em andamento. Desde 1994, milhares de pessoas buscaram refúgio e trabalharam na capital da província. A população da cidade aumentou muito, mas a infraestrutura não acompanhou o ritmo. Além disso, a rede de fornecimento de água sofre com a contínua falta de conserto, já que a manutenção adequada está impossibilitada pela desordem resultante da falta de segurança e de estabilidade econômica.
O CICV tem trabalhado com Regideso em projetos para fornecimento de água em Goma desde 1997. Investimos mais de 850 mil francos suíços para melhorar a situação. A construção de uma estação de bombeamento em Kesheyro e dois tanques em N'dosho, em 2007 e 2008, significa que mais de 250 mil habitantes agora têm acesso regular à água potável.
Como outras organizações, também nos envolvemos em um grande número de projetos emergenciais. Mas em uma cidade como Goma, cuja população excede os 600 mil habitantes, é necessária uma solução a longo prazo para romper com o padrão de respostas improvisadas para emergências.
Como parte de uma abordagem a longo prazo, o CICV iniciou um projeto de fornecimento de água para toda a cidade. Como o senhor o descreveria?
Começamos estudando a situação da rede existente. Nossos engenheiros reuniram informações sobre as estações de bombeamento e mais de 75 quilômetros de aquedutos para criar uma simulação computadorizada da rede.
Depois estudamos várias maneiras de projetar novos reservatórios, estações de bombeamento e aquedutos, levando em consideração as necessidades e a taxa de crescimento estimada da população.
Nosso trabalho terminou com uma simulação virtual do sistema para fornecimento de água potável para todos os habitantes de Goma em 2015, partindo do pressuposto de que a população terá um crescimento anual de 3%.
Como o projeto pode ser posto em prática agora?
O projeto será útil para Regideso, mas também para todas as organizações humanitárias, como o CICV, que queiram desenvolver projetos de água em Goma. Se essas organizações realizarem projetos que não se encaixem em uma solução para toda a cidade, como fornecer água para um único bairro, o resultado será uma série de iniciativas casuais. Os projetos funcionarão por alguns anos, mas depois, à medida que a população for crescendo, a cidade se expandirá e outros bairros precisarão ser abastecidos de água e o trabalho terá que ser feito todo de novo. Isso leva a mais gastos.
Em resumo, um grande número de projetos mal-planejados terminará saindo mais caro. Seria melhor investir agora no fornecimento para toda a cidade, mesmo que o custo inicial pareça alto.
O que será necessário para realizar este projeto?
Regideso terá que conseguir os fundos necessários para este projeto, cujo custo está estimando em mais de 13 milhões de dólares. Pode parecer alto, mas na verdade custa menos de 20 dólares por habitante. Dada a importância disso para a população de Goma, estamos muito otimistas com relação ao futuro deste projeto.