10-03-2009 Entrevista República Democrática do Congo: a visão de um fotógrafo Durante um mês em 2008, Carl de Keyzer, membro da Magnum Photos, se uniu à equipe do CICV na República Democrática do Congo. No leste do país, de onde dezenas de milhares de pessoas fugiram devido ao conflito, esse famoso fotógrafo observou a vida diária dos deslocados e das comunidades locais. Aqui ele comenta suas experiências.
©ICRC/O. Miltcheva
Carl de Keyzer é um fotógrafo belga mundialmente reconhecido. Desde 1994 é parte de um pequeno grupo de membros da cooperativa Magnum Photos, uma agência fotográfica que é referência internacional. Nove livros, inúmeras exposições e alguns prestigiosos prêmios pontuam a biografia de Carl de Keyzer. Seus trabalhos, muito diferentes do jornalismo sensacionalista, enfatizam as dimensões históricas e dramáticas por trás das cenas mais cotidianas da vida. Em 2004, "Zona", um conjunto de fotos que mostravam os campos de prisão na Sibéria, foi exposto no Museu Internacional da Cruz Vermelha, em Genebra.
www.carldekeyzer.com É difícil fazer isso com uma única foto. Além disso, existe um certo estilo de fotos "humanitárias" que em geral pretendem acompanhar atividades para arrecadar fundos. Trabalho de maneira diferente e tendo a me engajar em projetos longos. Prefiro ir a um país por um período mais longo para captar melhor o que está acontecendo ali. Prefiro imagens complexas porque refletem a complexidade da vida em si. Há um conflito entre o aspecto utilitário de certas imagens tiradas para um propósito específico e fotografias que expressam um ponto de vista mais pessoal. Estou sempre entre um e outro. Uma pessoa pode realmente captar uma situação através de uma foto? Talvez sim. Tenta-se, mesmo que a pessoa fique como um estranho olhando de fora. As fotografias que mostram situações que têm repercussão nas vidas das pessoas é que estão sendo enfocadas. Por isso sou fotógrafo. O senhor enfatiza muito o fato de que não é jornalista. Na sua opinião, qual é a diferença? Minha abordagem diverge substancialmente daquela dos fotógrafos jornalísticos – muitos dos quais respeito. Os fotógrafos jornalísticos em geral passam muito menos tempo no local, uma ou duas semanas, por exemplo. A viagem deles é cara e estão sempre sob pressão da mídia para entregar as fotos que "verão". O que fazem, então? Visitam campos de refugiados e querem fotografar combatentes. Buscam imagens com um impacto visual imediato que chocará o público. Uso outra tática, mesmo quando visito os mesmos lugares. Sempre passo dois a três anos em um projeto pessoal que evidentemente inclui o aspecto jornalístico, já que está vinculado a acontecimentos reais. Mas também existem "mentiras" no meu trabalho, porque ao justapor várias fotos, pode-se recriar uma realidade segundo sua própria escolha. Também há um estilo ou uma técnica, que faz com que seja possível dramatizar a situação. Às vezes, intensifico minhas fotos. Agrego elementos. Misturo imagens que podem levantar questões em vez de dar respostas.
©ICRC/O. Miltcheva
Gosto de fazer perguntas aos visitantes ao saírem de minhas exposições. As fotos jornalísticas são rapidamente esquecidas. Essa é a grande diferença. Meus projetos são mais como ensaios, novelas ou filmes. Não sou ilustrador. |