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English title: Democratic Republic of the Congo: a photographer’s view
congo-kinshasa-interview-060309
10-03-2009  Entrevista  
República Democrática do Congo: a visão de um fotógrafo
Durante um mês em 2008, Carl de Keyzer, membro da Magnum Photos, se uniu à equipe do CICV na República Democrática do Congo. No leste do país, de onde dezenas de milhares de pessoas fugiram devido ao conflito, esse famoso fotógrafo observou a vida diária dos deslocados e das comunidades locais. Aqui ele comenta suas experiências.

©ICRC/O. Miltcheva
Veja também a galeria de fotos: o CICV está ao lado da população de Kivu (em inglês)



O que mais o surpreendeu durante sua missão com o CICV?

Fiquei surpreso de ver que as pessoas continuam tentando manter uma incrível alegria de viver. Quando uma pessoa visita esses lugares, é como se nada houvesse acontecido. As pessoas concordam em serem fotografadas, talvez com muita facilidade. Admito que me senti um pouco culpado por invadir a privacidade delas dessa maneira.

Essas pessoas viajam dezenas de quilômetros para escapar do combate. Testemunharam tragédias. Chega um fotógrafo no meio dessas aldeias e campos e estranhamente não sente como se o conflito esteja acontecendo nessa região.

As crianças o rodeiam. Riem o tempo todo. A pobreza não é a primeira coisa que se vê nos rostos dessas pessoas. Estão contentes de receberem visitantes. Isso é o que mais surpreende. Portanto, é difícil captar a real extensão dos problemas porque a vida continua apesar de tudo.

Às vezes, é difícil explicar o que realmente significa uma emergência humanitária para as pessoas que moram longe e com certo nível de conforto. O que uma fotografia pode revelar e o que não consegue mostrar?

Carl de Keyzer é um fotógrafo belga mundialmente reconhecido. Desde 1994 é parte de um pequeno grupo de membros da cooperativa Magnum Photos, uma agência fotográfica que é referência internacional. Nove livros, inúmeras exposições e alguns prestigiosos prêmios pontuam a biografia de Carl de Keyzer. Seus trabalhos, muito diferentes do jornalismo sensacionalista, enfatizam as dimensões históricas e dramáticas por trás das cenas mais cotidianas da vida. Em 2004, "Zona", um conjunto de fotos que mostravam os campos de prisão na Sibéria, foi exposto no Museu Internacional da Cruz Vermelha, em Genebra.
www.carldekeyzer.com


É difícil fazer isso com uma única foto. Além disso, existe um certo estilo de fotos "humanitárias" que em geral pretendem acompanhar atividades para arrecadar fundos.

Trabalho de maneira diferente e tendo a me engajar em projetos longos. Prefiro ir a um país por um período mais longo para captar melhor o que está acontecendo ali. Prefiro imagens complexas porque refletem a complexidade da vida em si.

Há um conflito entre o aspecto utilitário de certas imagens tiradas para um propósito específico e fotografias que expressam um ponto de vista mais pessoal. Estou sempre entre um e outro. Uma pessoa pode realmente captar uma situação através de uma foto? Talvez sim. Tenta-se, mesmo que a pessoa fique como um estranho olhando de fora. As fotografias que mostram situações que têm repercussão nas vidas das pessoas é que estão sendo enfocadas. Por isso sou fotógrafo.

O senhor enfatiza muito o fato de que não é jornalista. Na sua opinião, qual é a diferença?

Minha abordagem diverge substancialmente daquela dos fotógrafos jornalísticos – muitos dos quais respeito. Os fotógrafos jornalísticos em geral passam muito menos tempo no local, uma ou duas semanas, por exemplo. A viagem deles é cara e estão sempre sob pressão da mídia para entregar as fotos que "verão". O que fazem, então? Visitam campos de refugiados e querem fotografar combatentes. Buscam imagens com um impacto visual imediato que chocará o público.

Uso outra tática, mesmo quando visito os mesmos lugares. Sempre passo dois a três anos em um projeto pessoal que evidentemente inclui o aspecto jornalístico, já que está vinculado a acontecimentos reais. Mas também existem "mentiras" no meu trabalho, porque ao justapor várias fotos, pode-se recriar uma realidade segundo sua própria escolha.

Também há um estilo ou uma técnica, que faz com que seja possível dramatizar a situação. Às vezes, intensifico minhas fotos. Agrego elementos. Misturo imagens que podem levantar questões em vez de dar respostas.

©ICRC/O. Miltcheva

Gosto de fazer perguntas aos visitantes ao saírem de minhas exposições. As fotos jornalísticas são rapidamente esquecidas. Essa é a grande diferença. Meus projetos são mais como ensaios, novelas ou filmes. Não sou ilustrador.

Por outro lado, para o CICV, tirei fotos mais objetivas do que as que faço em meu trabalho artístico. Fiquei confinado ao estilo documentário porque se começasse a "brincar", poderia ser mal-interpretado.

Qual é a maior dificuldade que um fotógrafo enfrenta em uma área afetada por um conflito?

O principal é não ser vítima do conflito. Os conflitos acontecem constantemente no leste da RDC, onde muitas pessoas andam armadas. Mas um fotógrafo deve ignorar essas preocupações ou não pode trabalhar. Não se pode pensar o tempo todo durante uma viagem de Goma a Masis que poderá ser atacado por grupos armados.

O segundo obstáculo está relacionado com as pessoas que conhecemos, que em geral estão em estado de choque por causa do conflito. E, mais uma vez, alguém invade a privacidade deles, talvez não com uma arma, mas com uma câmera.

Não gosto de clichês, nem de oportunismos. As fotos que tiro nessas circunstâncias devem ser consistentes com a realidade. É necessário capturar o contraste entre a natureza séria do problema e o fato de que vida continua. E esse é o momento mais difícil para as pessoas que estão sendo fotografadas, porque o fotógrafo está interferindo ainda mais nas suas vidas. Eles ficam ressentidos com isso.

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10-03-2009