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English title: Haiti: midwives bring solace to women in Haiti’s slums
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4-03-2009  Reportagem  
Haiti: parteiras levam consolo para as mulheres nas favelas no Haiti
As parteiras Marie Joseph e Françoise entendem o sofrimento das mulheres em Cité Soleil. A filha de Marie Joseph e a sobrinha de Françoise foram vítimas de violência sexual na favela, que se estende ao longo da costa do Haiti. Treinadas pela Cruz Vermelha, as duas parteiras ajudam a evacuar grávidas e mulheres vítimas de abuso sexual para o hospital.

Uma mulher robusta de voz grave, Marie Joseph não poupa palavras enquanto faz suas visitas diárias por Cité Soleil. A imensa favela é o lar de 300 mil pessoas, que em sua maioria vive com menos de um dólar por dia.

“Essas mulheres não têm nada", diz, apontando para jovens mães e meninas grávidas que a rodeiam. Ela continua por caminhos estreitos e sujos que separam as filas de barracos construídas com pedaços de cartão e metal. “Somos todos vítimas aqui, mas essas mulheres sofrem mais do que os outros”.

Marie Joseph e sua colega Françoise conhecem o sofrimento. Passaram a maior parte de seus 55 anos em favelas e, somadas, juntas criaram 18 filhos e enterraram 5 outros. Seus rostos são duros por conta do estresse da vida diária, mas seus corações são abertos e generosos.

“Vi uma mulher dar à luz na rua, debaixo de chuva", conta Marie Joseph, quando lhe perguntei porque se tornou parteira. “Pedi ao dono de uma casa ali perto se poderia cortar o cordão umbilical em sua varanda, mas ele se recusou. Implorei para um motorista de táxi me levar para o hospital, mas ele não quis. No final, eu mesma cortei o cordão".

Ambas são parteiras desde 2001 e ampliaram seus conhecimentos em cursos de atualização financiados pelo CICV. Desde então, elas ajudaram a inúmeras mulheres a terem seus bebês, tanto em casa como no hospital.

No Haiti, a maioria das mulheres dá à luz em casa por não poder pagar um táxi para levá-las ao hospital, nem a conta do hospital e mesmo as roupas e os sapatos para fazer essa viagem. Portanto, quando as complicações surgem, como a hipertensão induzida pela gravidez ou a pré-eclampsia, elas com frequência pedem o bebê e arriscam as próprias vidas. E a incidência de pré-eclampsia é particularmente alta entre haitianas. Aqui, mais mulheres morrem antes, durante e depois do parto do que em qualquer outro lugar nas Américas.

Os cursos da Cruz Vermelha enfatizam a importância dos cuidados médicos, reforçando que as grávidas devem ser encorajadas a irem ao hospital, em vez de terem os bebês em casa. Às vezes, as parteiras chamam um “tap tap" - uma caminhonete brilhosa decorada que trabalha como táxi e leva a mulher para o Hospital Choscal, o único hospital público na favela. Em outros casos, ligam para o posto da Cruz Vermelha haitiana em Cité Soleil. A Cruz Vermelha leva a mulher em um "tap tap" equipado como ambulância e temporariamente protegido pelo emblema da Cruz Vermelha.

“Muitas mulheres ainda relutam em ir ao hospital", diz Françoise, “porque o tratamento custa 40 gourdes (pouco mais de US $1). Mas mesmo se fizemos o parto em casa, temos que assegurar que elas vão ao hospital para os exames pós-parto e as vacinas".

A maior parte do tempo das parteiras é usado para aconselhar mulheres sobre gravidezes não-desejadas. Darline Leon, 23 anos, já criava sozinha sua filha Judeline, de dois anos e meio, quando descobriu que estava grávida de novo. “Vendi tudo que tinha para pagar um aborto", diz, "mas depois fiquei anêmica e o médico me disse que eu poderia morrer se abortasse e decidi ficar com o bebê".

Muitas mulheres tomam veneno para se livrarem do bebê, incapazes de enfrentar a perspectiva de terem outra boca para alimentar. Mas Françoise e Marie Joseph as encorajam a continuar a gravidez. Se a vida se tornar muito difícil, elas sugerem a mãe que dê o bebê para adoção em um dos muitos orfanatos espalhados pela capital.

Algumas crianças nascem como consequência de estupros ou prostituição. Ambos são freqüentes na favela onde os homens têm pouco o que fazer e as mulheres, desesperadas por alimentar e vestir a si mesmas e a suas famílias, se vendem por quantias irrisórias como 100 gourdes (US $ 2,50).

O estupro é algo comum em Cité Soleil. Marie Joseph e Françoise se certificam de que as mulheres estupradas recebam tratamento e aconselhamento sobre HIV/AIDS. Mas elas têm suas próprias experiências de violência sexual; a filha de Marie Joseph, de treze anos, foi estuprada por um homem de 68 anos, que agora está preso, ao passo que a sobrinha de Françoise, de 19 anos foi violentada por um bando de homens encapuzados. Ambas as jovens agora vivem fora de Cité Soleil, tanto para sua própria segurança, quanto pelo estigma que o estupro traz em um país tão religioso como esse.

As duas parteiras dizem que agora é muito mais fácil para a mulher denunciar o estupro e o abuso sexual à polícia ou às autoridades haitianas e que eles levam as mulheres mais a serio do que antes.

O maior desafio que as mulheres enfrentam nas favelas é o controle de natalidade. O Haiti tem o maior índice de natalidade das Américas, onde não é difícil de encontrar famílias de 10 ou 12 filhos. Mas os anticoncepcionais são muito caros. Um preservativo custa 3 gourdes, dinheiro com o qual se pode comprar água potável para cinco horas ou um "bolo" de lama com manteiga e sal que os moradores da favela às vezes comem para enganar os estômagos vazios.

"É um círculo vicioso", diz Marie Joseph, enquanto vê as mulheres que bloqueiam seu caminho nas favelas de Cité Soleil. "Elas precisam usar anticoncepcionais e ter menos filhos, mas não o fazem porque não podem pagar por isso".

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