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Juan-Pedro Schaerer, chefe da delegação do CICV no Iraque
Quais são os desafios que o povo iraquiano está enfrentando hoje e como o senhor descreveria a situação humanitária-?
A situação no Iraque começou a mudar em 1980 com a guerra com o Irã. O processo continuou durante e depois da guerra de 1991 e, naturalmente, a invasão de 2003 trouxe mais mudanças repentinas e drásticas. A grande mudança foi que o Iraque ficou um lugar mais perigoso para os cidadãos comuns. O derramamento de sangue no Iraque tem várias formas: seqüestros, roubos, ameaças de morte, ataques sectários, confrontos armados e bombardeios. A violência é um fator da vida iraquiana há quase 30 anos, mas sua natureza e intensidade variaram.
A segurança melhorou em algumas áreas, principalmente nas grandes cidades. Os iraquianos estão aprendendo aonde ir e aonde não ir. De fato, isto está se tornando um instinto de sobrevivência essencial. Em algumas áreas agora você pode permanecer até relativamente tarde à noite. Em outros, deve-se ser mais cuidadoso.
A única coisa que permanece constante na equação é a necessidade crescente de serviços essenciais. A segurança é uma coisa, mas a fim de sobreviver – ou até de querer sobreviver – as pessoas precisam de comida, água, cuidados com a saúde e abrigo. Se um indivíduo pode ou não conseguir esses serviços essenciais vai depender de se eles estão disponíveis e se ele ou ela pode pagar para obtê-los. Não é fácil conseguir um trabalho, especialmente algum que pague o suficiente para cobrir os gastos com comida, eletricidade, água, saúde, escolas e transporte.
O salário mínimo é de 70 dólares por mês, enquanto as despesas domésticas mínimas estão em torno de 200 a 250 dólares por mês. Em muitos lares, as mulheres são as únicas que levam o sustento porque os homens morreram, estão desaparecidos ou morreram.
A água é um dos problemas principais. Faz calor no Iraque durante a maior parte do ano e os iraquianos consomem grandes quantidades de gelo. Mas a falta crônica de eletricidade atinge as bombas de água e as estações de filtragem, de forma que as pessoas precisam comprar gelo produzido com água não tratada. Isto leva a doenças como o recente surto de cólera.
Cuidados de saúde decentes são caros. O tratamento para as doenças crônicas fica além dos recursos de que dispõem muitos iraquianos, tal como as cirurgias avançadas. Alguns podem pagar para fazer tratamento no exterior, mas a maioria não pode. O custo do tratamento não é o único problema; os serviços de saúde são mais acessíveis nas grandes cidades, mas nas zonas rurais as pessoas precisam viajar.
Quais são os principais obstáculos que o CICV enfrenta no Iraque e como lida com eles?
Em qualquer zona de conflito, você precisa de duas coisas para conduzir operações humanitárias: o contato direto com as pessoas, de forma a poder entender suas necessidades, e um nível mínimo de segurança, de forma a poder atender a elas. Isto não quer dizer que só possamos trabalhar onde existe paz. O CICV 'nasceu no campo de batalha' e opera em zonas de conflito em todo o mundo. Correr riscos para ajudar as pessoas é parte do nosso trabalho. No entanto, em uma fase as coisas ficaram tão perigosas para os funcionários humanitários no Iraque que o nosso trabalho ficou prejudicado.
O CICV começou a trabalhar no Iraque em 1980, e nunca deixou o país desde então, apesar das sucessivas guerras. Precisamos reduzir nossas atividades, particularmente depois dos ataques aos nossos funcionários, e depois do ataque à bomba contra o nosso escritório de Bagdá, em 27 de outubro de 2003. No entanto, resolvemos ficar no Iraque, sabendo que os iraquianos estavam contando conosco. E conseguimos ajudar. Foi uma gota no oceano, mas ajudou a amenizar a sede de milhares de pessoas. Valeu a pena.
Hoje a segurança é melhor que em 2003. Podemos chegar aos que precisam com mais rapidez. Mas apesar dos avanços, a situação da segurança no Iraque ainda impõe muitos limites ao trabalho do CICV.
Essas limitações são um problema, porque as necessidades estão crescendo e deveríamos fazer mais para poder satisfazê-las. A fim de trabalhar de maneira adequada, precisamos avaliar antes de atuar e avaliar o impacto das nossas ações. Em algumas áreas podemos fazer isso, mas em outras não. Existem necessidades em todo o Iraque, mas algumas áreas são simplesmente perigosas demais para que possamos trabalhar.
A única maneira de o CICV poder chegar até as pessoas que precisam da nossa ajuda é manter contato com todos os envolvidos no conflito. A complexidade do conflito e o número de grupos envolvidos tornam difícil manter esses contatos. Por um lado, precisamos conversar com todos, mas por outro é essencial que todas as partes respeitem a nossa neutralidade e independência.
Quais são as prioridades do CICV para 2009?
Hoje as necessidades são grandes e a ação humanitária só pode cobrir um percentual das mais urgentes.
O CICV vai concentrar nas necessidades mais prementes que podemos atender dentro do nosso mandato, nos campos da água, comida, saúde, meios de sobrevivência, detenção e desaparecidos.