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9-09-2008  Entrevista  
Paquistão: civis continuam a pagar o preço do conflito
À medida que aumentam os confrontos entre os militares paquistaneses e a oposição armada ao longo da fronteira afegã, os civis continuam a pagar os custos da violência. O chefe da delegação do CICV em Islamabad, Pascal Cuttat, conta como a organização os está ajudando.

Pascal Cuttat, chefe da delegação do CICV no Paquistão

O senhor está preocupado com a situação humanitária em Bajaur Agency, na fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão?

A recente escalada dos combates obrigou mais de 200 mil pessoas a abandonarem suas casas em Bajaur Agency, com pouco mais que a roupa do corpo. Desde 31 de agosto, o governo suspendeu as operações militares na região fronteiriça, por causa do período do Ramadã. Alguns setores da oposição armada fizeram o mesmo. Isso levou dezenas de milhares de deslocados a voltarem para seus vilarejos em Bajaur.

No entanto, a situação humanitária ainda é extremamente volátil, e não há garantia de que a atual trégua nas hostilidades vá se prolongar. Continuamos, portanto, muito preocupados em relação aos deslocados internos - a maioria deles é formada por mulheres e crianças. Cerca de 50 mil pessoas estão sendo hospedadas por famílias ou encontram-se em campos montados em lugares como escolas. Para dar uma idéia de quão desesperada é a situação, cerca de 14 mil pessoas foram para o Afeganistão porque pensaram que estariam mais seguras lá.

As pessoas deslocadas precisam urgentemente de água limpa e saneamento, além de abrigo, comida e acesso a cuidados médicos.

Que tipo de assistência o CICV está levando para as pessoas que ficaram em meio aos combates?

Este é um conflito muito complexo, e a situação está mudando constantemente. Enquanto os combates parecem estar se acalmando em certas regiões, em outras estão aumentando. Há uma grande quantidade de pessoas se locomovendo de um lugar para outro, algumas estão voltando para casa, outras estão fugindo.

Estamos determinados a fazer uma verdadeira diferença e a reduzir o sofrimento dos atingidos. Em parceria com a Sociedade do Crescente Vermelho Paquistanesa, temos respondido às necessidades dos deslocados mais vulneráveis.

Considerando as condições difíceis em que os deslocados estão vivendo, e o risco de doenças, nossa preocupação básica é garantir que eles tenham acesso à água limpa e aos banheiros. Nenhuma quantidade de comida, medicamentos ou abrigo será útil se as pessoas contraírem doenças transmitidas pela água. O CICV levou equipamento para o Distrito de Baixo Lir, na Província da Fronteira Noroeste, que absorveu cerca de 50 mil pessoas deslocadas, a fim de ajudar a instalaçao dos sistemas de abastecimento de água e saneamento. Sete engenheiros estão no local e estão instalando os sistemas, incluindo tanques de água e canos de distribuição, que agora estão funcionando. A água limpa está sendo levada para os sistemas.

Alguns dos feridos nos combates foram evacuados nas ambulâncias organizadas pelo Crescente Vermelho Paquistanês e tratados com remédios e material médico fornecidos pelo CICV. Estamos oferecendo cuidados médicos para os feridos e organizando os mesmos serviços para os deslocados. Queremos manter isto.

Todos os dias, estamos distribuindo cobertores, utensílios de cozinha, encerados e outros itens domésticos de emergência para centenas de famílias. Em parceria com o Crescente Vermelho Paquistanês, temos fornecido refeições quentes para as famílias que chegam a Peshawar. Também estamos distribuindo comida.

Vocês têm acesso a todos os que precisam de assistência?

Este conflito acontece em um contexto muito volátil e tem implicações para a nossa própria segurança operacional. Portanto, o acesso aos civis em necessidade é um desafio. No entanto, temos confiança de que vamos continuar a ter acesso a eles. As equipes do CICV e do Crescente Vermelho Paquistanês estão presentes em áreas com concentrações de pessoas deslocadas. Juntas, as duas organizações identificam as mais vulneráveis entre os deslocados e as assistem.

Ao mesmo tempo, a delegação do CICV no Afeganistão está assistindo amis de 14 mil pessoas que deixaram Bajaur Agency e foram para o outro lado da fronteira.

Estamos convencidos de que, ao lado da Sociedade do Crescente Vermelho Paquistanês, enviamos nossos esforços humanitários de uma maneira vista por todos os atores no terreno como neutra e independente.

O CICV já tem experiência operacional nas áreas que o senhor mencionou?

O CICV está presente no Paquistão desde 1981. Isto inclui trabalho nas áreas tribais e na Província da Fronteira Noroeste. Naturalmente, a situação mudou ao longo dos anos; o atual conflito é complexo e seu resultado é imprevisível. Mesmo assim estamos confiantes de que o governo do paquistão, suas forças armadas e de segurança, a oposição armada e a população civil nos conhecem bem, e reconhecem a nossa neutralidade e independência. Isto nos dará a credibilidade com a qual contamos para podermos seguir adiante e trabalhar em meio ao conflito.

O senhor espera que os que voltaram para casa vão ficar, ou devem fugir de novo?

Para a segurança das vítimas, devemos ter esperança de que elas poderão ficar em seus vilarejos, reconquistar sua dignidade e retomar suas vidas. Não é ideal uma situação em que as mulheres, crianças e os idosos moram nos campos e com famílias que os abrigam, separados de seus maridos, pais e filhos, que ficaram na região atingida pelos combates, a fim de proteger suas propriedades.

Dito isto, precisamos estar prontos para todas as eventualidades. Antes da última escalada, o conflito nas Áreas Tribais do Paquistão Administradas Federalmente já estava acontecendo há algum tempo. Estamos, portanto, monitorando de perto os desdobramentos no terreno e estamos prontos para intervir e quando for necessário.

© ICRC / PK-E-00639
Província da Fronteira Noroeste, Mardan, Norte de Peshawar. Crianças deslocadas em uma tenda de mosquitos.
© ICRC / PK-E-00635
Província da Fronteira Noroeste, Mardan, Norte de Peshawar. Acampamento para pessoas deslocadas provenientes de Bajaur Agency.
© ICRC / PK-E-00632
Província da Fronteira Noroeste, Mardan, Norte de Peshawar. CICV distribui comida e material de socorro às pessoas deslocadas.

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