Pascal Cuttat, chefe da delegação do CICV no Paquistão
Como está a situação humanitária atual na Província da Fronteira Noroeste e o Território Federal de Áreas Tribais?
O conflito nas duas províncias fez com que mais de dois milhões de pessoas abandonassem suas casas nos últimos meses. A maioria já retornou, mas muitos ainda são deslocados e necessitados. A situação continua instável em partes de Buner, Swat e Dir. As pessoas dessas áreas ainda estão em casas de famílias que os acolheram fora das zonas afetadas pela violência.
A falta de segurança, abrigo e atendimento médico são as maiores preocupações das pessoas nas áreas onde o conflito ainda acontece. Essas pessoas não podem se manter como o fariam normalmente. Elas sobrevivem graças à solidariedade típica do paquistanês – mas somente por isso. Onde a violência ainda acontece, é impossível retomar a vida econômica.
E depois está o Waziristan. É difícil saber o que acontece lá, porque não há profissionais de socorro nesse terreno, mas estimamos que o número de deslocados em Waziristan seja de 80 mil. Com a falta de garantias de segurança para nosso pessoal, o acesso a essa região continua extremamente difícil. No entanto, o CICV abriu um escritório em Bakkhar, para apoiar as operações na Província da Fronteira do Noroeste e Território Federal de Áreas Tribais.
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Avô e neta fogem do conflito no vale de Swat. Agora esperam o ônibus que os levará de Karachi de volta a sua aldeia.
Quais são os problemas que as pessoas que retornam a suas casas estão enfrentando?
É muito difícil retomar a vida normal, sobretudo no sentido econômico. As condições simplesmente não existem em muitos casos. Os agricultores não podem retornar para seus campos. O conflito interrompeu serviços básicos como saúde, eletricidade, água e escolas. Esses serviços ainda estão cortados em certas áreas.
O combate está obrigando as pessoas a se mudarem?
Em alguns casos isolados, sim. A situação varia de uma região para outra e pode mudar muito rápido. Em Swat, por exemplo, as pessoas que fugiram há meses e depois retornaram para suas tiveram que abandonar suas casas de novo por causa do conflito. E em certas regiões do Território Federal de Áreas Tribais estão sofrendo com as hostilidades pela primeira vez. Há pouco tempo, milhares de pessoas tiveram que pegar a estrada para a Agência de Khyber, próximo a Peshawar.
O CICV pôde visitar os detidos relacionados com o conflito?
Não. Uma das prioridades do CICV no Paquistão é visitar as pessoas o quanto antes e de acordo com os critérios que sempre usa. Já estivemos conversando com as autoridades sobre começar as visitas o quanto antes. Muitas pessoas foram presas ou capturadas durante a ofensiva que o exército paquistanês tem conduzido nos últimos meses e é fundamental que o CICV possa visitar os lugares onde estão detidos para verificar as condições de detenção. O CICV quer fazer o que for necessário e agir rápido onde for preciso.
Distribuir alimentos e água para os civis, dar-lhes abrigos, distribuir sementes e ferramentas para os agricultores e ajudar a cuidar dos doentes e feridos é crucial também. O CICV está fazendo tudo isso hoje no Paquistão, em parceria com o Crescente Vermelho Paquistanês. Mas os detidos precisam da proteção do CICV. Continuaremos pressionando para conseguir acesso aos centros de detenção pertinentes e a todos os detidos.
Em um contexto como o Paquistão de hoje, é possível conduzir uma ação neutra e humanitária como a que o CICV realiza normalmente?
Em uma situação tão complexa e politizada é difícil – e mesmo perigoso. Portanto, reiteramos a necessidade de se respeitarem a vida e a dignidade humanas em todas as circunstâncias e respeitar estritamente a ação neutra, independente e humanitária, que ajuda a proteger todos afetados pela violência, a despeito de quem seja ou de onde venha. Isso já foi dito, mas merece ser repetido: não existem vítimas "boas" e "más".