Matteo Benatti, Chefe da subdelegação do CICV em Hebron.
Quais são as questões humanitárias em Hebron?
Os assentamentos dificultaram muitos aspectos da vida dos palestinos. Na cidade velha de Hebron, cerca de 600 pessoas vivem em colônias muito próximas a 30 mil palestinos. As autoridades israelenses impuseram medidas de segurança estritas e montaram várias barreiras nessa área da cidade, que inclui a Gruta dos Patriarcas, um importante local venerado por judeus e muçulmanos. Muitas estradas estão fechadas aos palestinos e eles não têm permissão para entrar com seus carros nas áreas onde vivem.
As restrições ao trânsito, junto com a recorrente violência dos colonos, afetam a vida cotidiana dos palestinos.
Como isso os afeta?
Centenas de famílias palestinas têm que passar pelas barreiras para comprar comida, por exemplo. Em geral, eles são intimidados pelos colonos nas barreiras. As mulheres são particularmente vulneráveis a esse tipo de abuso, sobretudo porque os palestinos não têm permissão para dirigir na maioria das ruas, o que obriga as mulheres a atravessarem as barreiras a pé. Com o fechamento das estradas, os idosos são obrigados a carregar bolsas de compras por longas distâncias.
As ambulâncias que levam os palestinos para hospitais em emergências podem enfrentar demoras nas barreiras. As famílias são obrigadas a levar seus parentes doentes em macas ou usar burros para transportá-los até um ponto onde a ambulância os espera.
A vida econômica na cidade velha praticamente morreu devido às restrições de trânsito e à violência dos colonos. Alguns comerciantes receberam ordens do exército para fechar seus negócios. Outros perderam seus clientes, porque os palestinos têm medo de se aproximar dos assentamentos judeus. A pobreza não para de crescer. De acordo com um estudo feito pelo CICV sobre as casas nas áreas restritas da cidade velha no último verão, 86 por cento das famílias vivem em relativa pobreza, já que têm apenas $ 97 por pessoa por mês para alimentação, roupas e outras despesas para viver.
A maioria dos palestinos da cidade velha teve que pôr cercas de arame nas suas janelas e têm que mantê-las fechadas, para que não urinem ou joguem verduras podres ou pedras em suas janelas. Para as crianças, até a caminhada diária para ir à escola pode ser assustadora, já que os colonos podem ameaçá-las ou atirar pedras nelas. Viver com esse constante clima de tensão é extremamente exaustivo para as famílias.
O que o CICV pode fazer em uma situação como esta?
Em geral, no meio da noite, recebemos ligações de famílias palestinas que foram atacadas por colonos ou que esperam desesperadamente uma ambulância presa em uma barreira. Quando as pessoas estão em situações difíceis, mediamos com a administração civil local e as forças armadas israelenses. Por sorte, na maioria das vezes, isso ajuda e, em geral, acho que temos uma boa relação de trabalho com as autoridades israelenses locais.
Também podemos ajudar as famílias de maneira prática. Por exemplo, todos os meses fornecemos alimentos para quase sete mil pessoas. Além disso, muitas famílias receberam colmeias de abelhas e produzem um excelente mel para consumo próprio e para venda. Ajudamos a montar telhados para as hortas, assim podem cultivar verduras frescas. Obviamente, esta não é a verdadeira solução para os problemas deles, mas ajuda a aliviar a difícil situação econômica.
De acordo com o Direito Internacional Humanitário, as autoridades israelenses, como potência ocupante, devem garantir que a população sob ocupação tenha acesso a alimentos e assistência médica, bem como ordem e segurança públicas. Para nós do CICV, é frustrante não podermos ajudar como queríamos e vemos que não há melhorias. Dito isso, ainda temos esperança de que as restrições ao trânsito relaxem.
Como está a situação na área sul da Cisjordânia?
A área mais ao sul da Cisjordânia, Masafer Yatta, também é um foco de violência de colonos. Esta área é o lar de milhares de pastores e beduínos, que costumavam transitar livremente nos pastos com suas ovelhas e suas cabras. As pessoas que cuidam dos animais, incluindo mulheres e crianças, foram atacadas. Algumas aldeias estão localizadas no que agora se tornou a área de treinamento militar israelense e é muito perigoso transitar.
Para piorar a situação, o clima é extremamente severo. A terra é árida e as terras e colinas só ficam um pouco verdes durante os meses da primavera. Muitas famílias tiveram que reduzir seus rebanhos porque não conseguem encontrar alimento e água suficientes.
Como as famílias conseguem viver sob condições tão severas?
Lidar com tudo isso está se tornando cada vez mais difícil. Parece que teremos outra seca este ano, o que agrava a falta de água crônica que muitas famílias no sul das Colinas de Hebron enfrentam. As autoridades israelenses não permitem que os palestinos construam novas cisternas para captar a água da chuva, então o CICV fornece tanques de água móveis para as famílias com problemas mais graves.
Isso reduz o tempo que passam buscando água, já que os tanques normalmente contêm água potável para uma semana. As famílias antes pagavam uma pessoa com um tanque para trazer água para eles – e isso era muito caro. Agora, eles podem economizar esse dinheiro para outras coisas essenciais.