O que o senhor leva de sua experiência em Gaza?
Sinceramente, nunca estive em uma situação como essa. Aprendi muito sobre como lidar com circunstâncias difíceis. Às vezes, não conseguia conter as lágrimas.
A imagem de uma pessoa ficou gravada na minha mente. Ela se chamava Bissan e tinha oito anos. Ela foi levada a mim na unidade de tratamento intensivo (UTI). Ela tinha perdido o irmão e talvez outros membros da família. Tinha muitos ferimentos internos e externos e tivemos que operá-la. A situação dela era delicada e tínhamos poucas esperanças. Fiquei desesperado.
Três dias depois a trouxe de volta. Quando ela abriu os olhos, me deu um grande sorriso e um sinal de vitória. Ela tinha ganhado sua batalha.
Sua coragem em meio a toda a carnificina e a desolação simplesmente desconcertou.
Quando o senhor chegou a Gaza e o que fez lá?
Samir Kazkaz e eu chegamos a Gaza no dia 13 de Janeiro, depois de uma reunião informativa na sede do CICV em Genebra. Trabalhamos no Hospital Shifa até o dia 20 de janeiro e deixamos Gaza no mesmo dia.
Meu trabalho era principalmente a unidade de tratamento intensivo. Era somente eu, o diretor da unidade e um médico palestino residente. Meu trabalho era supervisionar e ajudar o diretor e o doutor na UTI e liberar os leitos para a entrada de novos pacientes.
Eventualmente, também ia ao departamento de vítimas, onde havia muitos médicos.
Como o CICV apoiou as autoridades e as equipes médicas durante a crise? Quais eram suas necessidades?
Agradecemos ao CICV, eles ajudaram muito. Ajudaram nos serviços médicos enviando profissionais especializados, como nós. Sou especialista em UTI, Samir Kazkaz é neurocirurgião, e havia outros cirurgiões do CICV trabalhando no Hospital Shifa. Também havia um enfermeiro para sala de cirurgias que chegou antes de nós.
Também oferecemos muito apoio moral aos médicos palestinos, bem como apoio físico. Demos a eles a chance de descansarem um pouco e respirarem um pouco fora dos rigores do trabalho que tinham em mãos. Quando cheguei, o diretor da UTI estava trabalhando sem parar. Levei um pouco de alívio e ele pôde tirar dois dias para ver sua família. Ele estava muito feliz por isso.
Nossa presença também ofereceu uma medida de proteção aos nossos colegas palestinos.
Quais são as prioridades do CICV?
As prioridades eram ajudar a equipe médica palestina no térreo a salvar vidas, garantir o transporte seguro e em tempo de feridos e outros que necessitavam assistência médica ao hospital. O CICV coordenava com as Forças de Defesa de Israel e os combatentes palestinos para facilitar o transporte e também para manter a equipe médica fora de perigo.
Todos os pacientes que entravam recebiam tratamento?
Na UTI, onde eu trabalhava, não havia paciente que não fosse atendido. Atendíamos a todos que buscavam nossa assistência.
Mas tenho certeza de que no departamento de vítimas havia muitos pacientes que não podíamos salvar e então deixávamos a natureza seguir seu curso. Houve muitos poucos casos assim e eles chegavam em um estado muito grave – com ferimentos múltiplos e perdendo muito sangue – e simplesmente não havia nada que pudéssemos fazer para salvá-los.
Quais são as atuais necessidades e prioridades médicas?
Na guerra, precisamos de toda a ajuda possível dos médicos. Há fases diferentes. A fase um é a fase emergencial que agora acabou. A fase dois é mais importante. Chamamos esta fase de "cuidado pós-operatório". Precisamos agora de neurocirurgiões, cirurgiões plásticos, especialistas em queimaduras, pediatras. Precisamos de vários urologistas e especialistas em reconstrução – definitivamente, precisamos de médicos especializados em reabilitação.
As instalações médicas no local são adequadas para atender a essas necessidades?
Sinceramente, não. É bom que você tenha mencionado isso. Quando chegamos a Gaza, a primeira coisa que ouvimos dos médicos de lá foi: "não temos determinados remédios e nossos equipamentos são antigos". Quando vi a UTI deles, fiquei chocado com o estado dos equipamentos que tinham. Estavam enferrujados e velhos. As máquinas respiratórias eram obsoletas. De fato, outros médicos podem confirmar isso.
Estou satisfeito de dizer que quando pedimos geradores e outros equipamentos o CICV nos forneceu imediatamente. Nossos colegas palestinos estão muito felizes de ver que lhes fornecemos esse material.
O fechamento imposto à Gaza há 18 meses foi definitivamente responsável pela falta de equipamentos, especialização e atualização médica. Trabalhei com médicos que nunca saíram de Gaza para participar de um seminário, por exemplo, em cuidados clínicos. Eu me lembro do diretor da UTI contando que não saía de Gaza desde 1997. Seu conhecimento está ultrapassado e ele tentou várias vezes nos últimos 18 meses viajar para fora de Gaza para participar de seminários e não pôde por causa do fechamento.
Muitos médicos em Gaza são clínicos gerais experientes. Mas para poder prestar um bom atendimento, eles precisam atualizar suas habilidades e seu conhecimento e manter-se a par dos últimos progressos na medicina.
Veja também Harald Veen Fresed sofre como médico no Hospital Shifa em Gaza. (em inglês)