Mathias Frese, coordenador do CICV para atividades de socorro e apoio à auto-suficiência
Como o senhor descreve a situação humanitária na Somália hoje?
A situação humanitária não mudou nas últimas semanas ou meses e continua muito frágil. É difícil imaginar as circunstâncias nas quais as pessoas da Somália têm que sobreviver: muitos vivem em situações terríveis. A situação da segurança alimentar é crítica e os meios de auto-suficiência estão em jogo. A população praticamente esgotou todos seus mecanismos para suportar isso. A única coisa que eles ainda podem fazer para sobreviver é recolher madeira e vendê-la ou virar mendigos. Muitas pessoas têm que pular refeições; eles não comem três vezes por dia simplesmente porque não têm a possibilidade.
Depois de muitas fases de deslocamento causadas pelo combate e pelos desastres naturais, há centenas de famílias que necessitam apoio externo agora. O CICV ajuda essas comunidades com distribuição de alimentos. No ano passado, a crise alimentar mundial também afetou a Somália. Nessa situação já difícil, o preço dos alimentos está aumentando e os somalis não têm condições de comprar comida. Em geral, as pessoas que foram deslocadas buscam refúgio na casa de parentes ou de seu clã. No tradicional sistema somali, a família que os recebe deve sustentá-los, mas você pode imaginar o fardo que é para a essa família.
O CICV realiza projetos de auto-suficiência, água e habitat, médico e de rastreamento na Somália todos os anos. Como o senhor consegue responder de maneira oportuna e eficiente às emergências, apesar da situação volátil de segurança na Somália?
O CICV implementa várias atividades de socorro emergenciais, que têm prioridade sobre as abordagens a longo prazo com auto-suficiência e produção. Analisamos o que é possível e factível de alcançar, com a mesma organização de recursos logísticos e humanos que em tempos menos estressantes, mas com a grande ajuda de nossos parceiros do Crescente Vermelho somali.
Temos entregado socorro alimentar para quase meio milhão de pessoas nos últimos cinco meses. Você pode imaginar os desafios logísticos consideráveis que isso implica em um ambiente volátil. Nossos pilares de força nessas operações são os nossos colegas somalis e o Crescente Vermelho somali, aqueles que estão no terreno, no lugar. Na situação de hoje, é difícil manter o apoio à produção agrícola ou as atividades veterinárias, que representam um papel importante. Mas se não temos a possibilidade de trabalhar com segurança no terreno na Somália, esses tipos de projetos de apoio à auto-suficiência serão reduzidos.
O senhor mencionou o Crescente Vermelho somali, qual é a sua colaboração com esta Sociedade Nacional?
Na maioria das regiões onde o CICV trabalha, no sul e no centro, mas também no nordeste da Somália, o Crescente Vermelho está presente como voluntário. A cooperação com a Sociedade Nacional em todos os níveis e em especial nas nossas grandes atividades de socorro é essencial. Os especialistas e os voluntários do Crescente Vermelho Somali nos ajudam na avaliação de necessidades iniciais, representam um papel-chave nas distribuições, eles chegam às comunidades e são a base de todo o trabalho do CICV na Somália.
O senhor trabalha no CICV há mais de dez anos e já morou em vários países diferentes antes de vir para a Somália. O que torna a Somália tão especial?
Na verdade, passei alguns anos da minha carreira humanitária na Somália. Aprendi a apreciar e a respeitar o povo somali e sua cultura. Os somalis podem parecer um pouco duros à primeira vista. Mas a verdade é que os somalis são abertos, amigáveis e francos com uma boa dose de humor. Os somalis têm uma grande cultura nômade e a habilidade de viver em ambientes muito duros mesmo em circunstâncias excepcionais. Infelizmente, todos esses anos de conflito armado e de violência fazem sombra à cultura rica que eles têm e destruiu muitos valores humanos e a ética. Espero que o povo somali encontre um pouco de paz e que volte às raízes de sua cultura.