Henri Maindiaux
Quais são as consequências dessa seca para a Somália?
As áreas mais atingidas são as regiões centrais e uma ampla faixa ao longo da fronteira com a Etiópia, que se estende até o Quênia. Há mais de dois anos a população tem sofrido com um índice pluviométrico muito baixo. Como consequência, as colheitas são escassas e o gado está em más condições, o que gera um impacto direto sobre a segurança alimentar da população.
A última longa época de chuvas – de abril ao final de junho – foi muito fraca. O índice pluviométrico foi muito baixo, até mesmo inexistente, nas regiões centrais e ao longo da fronteira com a Etiópia. Também foi abaixo da média no resto do país, sobretudo nas regiões ao sul, próximas à costa. Mas, no entanto, choveu um pouco e, portanto, as pessoas podem esperar uma colheita insatisfatória.
Além disso, devido à piora nas condições de segurança, as pessoas foram deslocadas. Algumas deixaram grandes cidades em busca de refúgio em seus respectivos clãs em regiões rurais, desta forma, aumentado o número de habitantes em lugares que já sofrem com a produção agrícola reduzida.
Os níveis de desnutrição são altos com relação aos padrões internacionais e são um problema principalmente entre as crianças. O CICV, uma das poucas organizações internacionais que trabalha na Somália, acaba de inaugurar um programa de alimentação na região de Galgadud, no centro do país. O programa é realizado em cooperação com o Crescente Vermelho somali.
Toda uma parte da população somali – os que não recebem ajuda financeira de familiares que vivem no exterior – agora depende do socorro humanitário.
Qual foi a resposta do CICV em termos de projetos agrícolas?
Primeiro, distribuímos sementes para produzir alimentos - sorgo, milho, niébé (um pequeno feijão) e gergelim. Durante a última longa temporada de chuvas, 23 mil famílias receberam 15 kg de sementes cada uma. Também lhes demos alimentos, assim não teriam que comer as sementes. Em outubro, para a curta temporada de chuva, que dura até meados de dezembro, outras 20 mil famílias receberão socorro semelhante.
Onde foi possível, também distribuímos sementes de seis variedades de hortaliças adequadas para a região, em parceria com o Crescente Vermelho somali. Identificamos os beneficiados por meio de uma consulta com as comunidades locais e seus representantes (os anciãos, tradicionais líderes). O objetivo é retomar a produção agrícola.
O objetivo a longo prazo é ajudar a construir uma infraestrutura agrícola, como tanques de sedimentação, canais de irrigação e perímetros irrigados. Construímos pequenos diques onde começam os canais para melhorar seu funcionamento. Construímos pontes sobre os canais para as carroças atravessarem sem danos. Também distribuímos bombas de água e ajudamos a construir coberturas para elas. Cerca de oito mil pessoas já se beneficiaram com esses programas de irrigação este ano, principalmente no sul do país.
Quais são os benefícios de ter um especialista em agricultura por perto?
Esses programas não podem funcionar sem ter os conhecimentos agrícolas adequados. Precisamos poder responder de maneira apropriada às necessidades da população e ao mesmo tempo levar em consideração a grande variedade climática do país – o norte é muito seco, com um oásis para a agricultura; o sul, com seus cursos de água, e mesmo em Bay e Bakool e nas regiões centrais, há muitas possibilidades para se desenvolver agricultura com sistema de irrigação. Há vinte anos, havia arrozais e plantações de bananas e cana de açúcar. Depois estão as regiões centrais al lado dos rios, que nao necessitam irrigação e onde é possível cultivar e alimentar o gado durante as duas temporadas de chuva, se o nível pluviométrico for bom.
Quais foram os principais desafios enfrentados durante esses projetos? Como foram superados?
O principal obstáculo são as más condições de segurança que limitam nosso acesso a certas regiões. Se nossos colegas somalis puderem entrar em áreas onde nós, empregados internacionais, não podemos, intercambiamos relatórios de avaliações e fotografias pela Internet e decidimos que ações devem ser tomadas à distância. Felizmente, a Internet e o telefone funcionam bem.
Quais são as lembranças mais surpreendentes que o senhor tem de seus dois anos de missão na Somália?
Lembro-me de um lugar surpreendente, ao sul de Belet Weyn, ao longo do rio Shabelle. Havia um pequeno pomar com bananas, uvas, limões, goiabas e toranjas. As hortaliças cresciam entres as árvores. Um oásis de paz no coração de um país devastado por vinte anos de guerra. Sim, a Somália tem um grande potencial.