Jacques de Maio, chefe de operações do CICV para o Sul da Ásia.
Quais são as necessidades mais urgentes dos deslocados nos campos?
Os mais de 250 mil deslocados internos têm muitas necessidades. Nas diversas ondas de deslocamento durante os últimos meses, a maioria das pessoas perdeu quase todos seus pertences. Dezenas de milhares deles que estão encurralados em uma estreita faixa costeira na parte nordeste do país são os mais vulneráveis. Eles passaram por uma experiência angustiante de vários deslocamentos forçosos e de vida em uma zona de combate. Um quarto de milhão de pessoas agora precisa de alimentos e água potável, saneamento e abrigo adequados, acesso à assistência médica e itens básicos, como utensílios domésticos. Atender os necessitados é uma tarefa enorme que está sendo realizada pelo governo, diversas agências das Nações Unidas, CICV e em parceria com organizações do Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho e outras organizações de socorro locais e internacionais. Existe ainda uma enorme lacuna a ser preenchida entre o que está sendo fornecido e as necessidades que devem ser supridas – por exemplo, milhares de pessoas ainda carecem de assistência médica adequada. No entanto, acima de todas as necessidades materiais, muitos deslocados estão ansiosos por receber notícias de seus entes queridos, com os quais perderam contato durante o deslocamento e o combate dos últimos meses.
O que exatamente o CICV pôde fazer nos últimos dias?
O CICV cadastrou mais de duas mil pessoas que se entregaram em três "centros de reabilitação" em Vavuniya e arredores e em outros centros de detenção desde 26 de maio. Este processo de cadastro continua. O objetivo é assegurar que o CICV possa acompanhar cada pessoa em perigo potencial que no momento vive nos centros estabelecidos pelo governo cingalês.
Nos últimos dois dias, o CICV obteve acesso a áreas antes restritas de Manik Farm, um grande campo de deslocados internos em Vavuniya. Continuamos distribuindo alimentos, utensílios domésticos, roupas e kits de higiene para as famílias deslocadas em Manik Farm. Até o momento, o CICV já distribuiu este tipo de material para mais de 2.400 famílias que vivem nas zonas 3 e 4 do campo.
Em princípio, o CICV tem acesso a todos os campos de deslocados internos. No entanto, ainda há uma grande lacuna entre as necessidades humanitárias dos deslocados internos e o que as organizações humanitárias podem fazer no momento. O CICV encoraja as autoridades cingalesas a fazer todo o possível para ajudar os deslocados internos e para permitir que as agências humanitárias atuem onde quer que seja necessário.
O que a Cruz Vermelha faz para restabelecer os laços familiares?
©Reuters / D. Gray
Uma mulher tâmil com os filhos no campo de refugiados de Manik Farm, próximo a Vavuniya, no norte do Sri Lanka.
A cada ano, a Rede Mundial de Laços Familiares organizada pelo CICV e pelos serviços de rastreamento das Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho ajuda centenas de milhares de pessoas a restabelecer contato com seus entes queridos ou a identificar o paradeiro deles. Há décadas, o CICV e a Cruz Vermelha cingalesa têm ajudado os deslocados e detidos a restabelecerem e manterem contato com familiares no Sri Lanka. Com mais de 250 mil deslocados vivendo em campos, no momento há uma grande necessidade de estabelecer uma maneira de essas pessoas receberem notícias de seus familiares. O CICV e a Cruz Vermelha cingalesa estão oferecendo sua experiência e põem sua rede à disposição das autoridades encarregadas dos campos.
O senhor pode explicar qual é o objetivo das visitas do CICV aos detidos?
Desde 1989, o CICV tem a permissão das autoridades para visitar as pessoas mantidas em prisões e delegacias de polícia. Os delegados do CICV monitoram as condições de detenção e de tratamento das pessoas presas relacionadas com o conflito armado e compartilham relatórios confidenciais com as autoridades pertinentes. Em 2008, O CICV forneceu itens de recreação, como jogos e livros, para quase 25 mil detidos em cerca de 150 centros de detenção. Visitamos regularmente seis militares do exército cingalês em poder dos LTTE durante todo o processo em que estiveram em cativeiro e eles estão felizes por terem reencontrado suas famílias. Também realizamos visitas a detidos de segurança no Campo de Detenção de Boosa e a ex-combatentes dos LTTE em poder de forças de segurança; em maio, falamos com mais de 2.500 deles.