Diretor de operações do CICV, Pierre Krähenbühl
Krähenbühl começou seu discurso dizendo que não se lembrava de ter visto nos últimos anos uma situação tão dolorosa e extrema como a que afeta os civis em Vanni, onde o combate constante e intenso se agravou nos últimos meses.
"As hostilidades acontecem em uma faixa estreita de terra a leste da costa do Sri Lanka. E dentro dessa faixa estreita, que foi declarada pelo governo como 'zona sem conflito', dezenas de milhares de civis continuam presos. No momento estimamos que 50 mil", explica Krähenbühl, acrescentando que o CICV estava extremamente preocupado com o bem-estar deles.
Ele destacou que os civis nas zonas de combate enfrentam uma grande insegurança devido ao confronto militar final nesta área. "Eles estão evitando sair da área controlada pelos LTTE e se expor às consequências das hostilidades entre o governo e os LTTE".
E continuou: "Basta imaginar: milhares de crianças, mulheres e homens presos em meio a uma zona de combate. Todos os foguetes ou morteiros lançados mataram ou feriram civis".
O número de feridos tem sido muito alto desde meados de janeiro. O presidente do CICV confirmou que, desde fevereiro, a instituição já evacuou por mar dez mil civis de Vanni, sessenta por cento deles feridos. Muitos outros estão gravemente doentes ou vivem em condições deploráveis, acrescentou Krähenbühl.
"Diante da atual emergência intensificada pretendemos aumentar o número de viagens, mais uma vez para evacuar a maioria das pessoas que estão gravemente feridas, bem como para levar mais assistência". Nas últimas semanas, o CICV entregou alimentos e artigos médicos para os civis na zona de combate, embora em quantidade insuficiente.
Medo de sofrer ainda mais
"No momento, nenhuma das necessidades básicas dos civis são atendidas e o medo de epidemias, da desnutrição e do aumento de mortes causadas pela falta de tratamento cresce cada dia mais", alertou.
Os civis também fugiram da "zona sem conflito" para as áreas controladas pelo governo. Segundo Krähenbühl, o CICV pode confirmar que dez mil civis já chegaram a Omanthai desde sábado passado e mais de três mil a Jaffna. O exército cingalês fala de 25 mil – 30 mil pessoas que fugiram da zona de conflito, além das mais de 60 mil que já haviam saído de Vanni.
"As pessoas que partiram nos últimos dias e horas estão totalmente devastadas depois de meses de exposição ao combate e depois da perda de parentes próximos e de suas propriedades. Elas enfrentam a incerteza quanto ao futuro, à segurança pessoal e à situação de parentes deixados para trás na zona de combate, que podem também ter desaparecido", destacou Krähenbüh.
"Nesse contexto, o CICV considera que a atual situação é quase uma catástrofe", disse. Nos últimos dias, o combate matou ou feriu centenas de civis, os quais já têm acesso mínimo à assistência médica. "Acreditamos que há muito mais de mil feridos que necessitam de tratamento urgente ou evacuação da zona de combate", enfatizou Krähenbühl.
Relembrar ambas as partes de suas obrigações de acordo com o Direito Internacional Humanitário
"Nossa preocupação é que a ofensiva final das forças do governo contra os combatentes dos Tigres da Libertação da Pátria Tâmil (LTTE) na área possa levar a um aumento drástico do número de vítimas civis".
Nos últimos meses, o CICV lembrou inúmeras vezes ambas as partes de sua obrigação de cumprir com o Direito Internacional Humanitário sempre. A organização encaminhou observações e conclusões específicas tanto para governo do Sri Lanka quanto para os LTTE.
"No contexto atual, que é excepcional, visto que o combate ocorre em uma área densamente povoada, devem ser tomadas precauções extremas para evitar ou atenuar a existência de vítimas civis", reiterou Krähenbühl.
"Os LTTE devem manter seus combatentes e outros recursos militares bem afastados de lugares onde os civis estejam concentrados e permitir que os civis que queiram sair da área saiam com segurança", disse.
Quanto às força do governo, " elas têm a obrigação de assegurar que os métodos e meios de guerra que empregam possibilitem distinguir com clareza sempre os civis e objetos civis dos objetos militares." Krähenbühl acrescentou que está particularmente preocupado com o impacto que o uso de armas como artilharia tem sobre os civis.
Assistência direta à população abandonada é extremamente necessária
Krähenbühl explicou que a assistência direta com relação a alimentos, água, artigos de higiene e cuidados médicos para a população que está presa e abandonada é extremamente necessária, e lamenta que "até o momento eles não receberam o tratamento e a atenção exigidos".
Ao longo dos últimos meses, o CICV também relembrou as partes em conflito da proibição de atacar pessoas fora de combate (em outras palavras, que não mais participam das hostilidades) e da obrigação de tratar humanamente os combatentes capturados.
Ao mesmo tempo em que reitera que o destino e a segurança das pessoas presas na zona de combate foi a prioridade do CICV, Krähenbühl enfatiza que a situação das pessoas que conseguiram buscar refúgio nas zonas controladas pelo governos não pode ser esquecida. Explicou que o acesso aos campos de trânsito, bem como a hospitais e centros médicos, nos quais as pessoas deslocadas estão abrigadas, foi fundamental para prestar assistência direta e independente e proteção aos necessitados.
Krähenbühl concluiu enfatizando que o CICV continuou trabalhando em Vanni durante este período em condições muito precárias e perigosas. "Dois de nossos funcionários locais morreram em decorrência do intenso conflito que está acontecendo. Outros 80 no momento estão presentes e parcialmente ativos em Vanni a esta altura. Estamos muito preocupados com a segurança deles e de suas famílias".