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Chade: água e sobrevivência no fio da navalha

19-03-2007 Reportagem

A insegurança no leste do Chade já forçou mais de 120.000 pessoas a fugirem de suas casas, provocando pressão sobre os recursos hídricos numa das regiões mais áridas do planeta. O CICV vem trabalhando para prover água limpa para as pessoas deslocadas pelo conflito.

 

© CICV 

 


 

" A água é a vida do homem " , declara Mahmoud Mehamat Marouf, chefe do vilarejo Goz Bagar, no leste do Chade. " Se não há água, há problemas. Como pode haver vida sem água? " .

A água é um bem precioso em qualquer parte do mundo, mas especialmente nas províncias do leste do Chade, onde a árida paisagem é continuamente castigada por tempestades de areia e temperaturas de até 45°.

Como os moradores locais costumam contar, a tarefa de encontrar água já foi a maior preocupação cotidiana por aqui e, quando um grande influxo de deslocados chegou em dezembro de 2006, os recursos foram testados ao extremo.

" Quando os deslocados chegaram, nós demos as boas-vindas. Apesar de tudo, eles são como parte da nossa família " , explica Mahmoud. " Mas tem havido muitos problemas. Se eu te dissesse todos os problemas, levaria mais de um dia! " .

Mahmoud tem motivos para estar preocupado.

A região de Bardé, onde ele vive, é o lar de aproximadamente 7.500 moradores espalhados em vilarejos locais. A chegada de mais de 12.000 deslocados chadianos simplesmente triplicou a população em poucas semanas.

Os deslocados que fugiam da violência étnica aumentaram massivamente a demanda por recursos elementares como a água, que já era pouca, antes.

O CICV, então, começou a construir poços em Bardé e em outras regiões do leste do Chade que eram afetadas pelo influxo de deslocados. Mais de 20 poços foram construídos em 2006, e o CICV espera construir pelo menos outros 20 em 2007.

As pessoas que usam estes poços dizem que eles fazem toda a diferença.

" Você pode comparar estes poços com nossos poços tradicionais " , disse Ibrahim Mahamat Abdallah, tirando água de um novo poço construído pelo CICV no vilarejo de Arkoum. " Em casa, eu tinha que andar 90 minutos para conseguir água. Lá, eu podia gastar um dia inteiro para encher dois galões e, mesmo assim, a água saia marrom " .

" Mas aqui a água é muito boa. É cristali na e limpa; e há muita água " .

Até o início dos trabalhos do CICV, os moradores locais tinham que usar seus poços tradicionais para conseguir água. Eles cavavam buracos em riachos ou leitos de rios e depois cobriam os buracos com folhas e galhos.

Estas técnicas não só dão muito trabalho, como também representam riscos para a saúde. A água tirada destes poços é muitas vezes cheia de sedimentos, carregadas de areia e de fezes de animais.

" Esse é o modo tradicional de procurar água. As pessoas têm feito assim por centenas de anos " , disse Bernard Salzmann, coordenador de projetos hídricos do CICV.

" Poços como estes precisam de reparos constantes, mas o principal é que a água que sai daí é suja " , explica. " É comum ver pessoas com diarréia, cólera e outras doenças relacionadas com consumo dessa água " .

A falta de água tem um tremendo impacto na vida das pessoas, não só do ponto de vista prático e sanitário, mas também porque a possibilidade de um conflito nunca está afastada o bastante.

" Olhe para as minhas roupas " , pede Younous Issak, que mora numa área onde cinco vilarejos dependem de apenas um poço. " Eu não tenho nada limpo para vestir. Eu lavo minhas roupas uma vez por semana " .

" Por ter muito pouca água no poço, também há brigas. Algumas mulheres ficam tão assustadas com as brigas que deixam para recolher sua água de noite. Elas ficam apavoradas " .

Até agora, o CICV construiu três novos poços na região de Bardé e está reformando e limpando um quarto. Os poços, que custam em média US$ 3.000 cada um, levam de quatro a seis semanas para serem construídos.

Os especialistas usam uma combinação entre o conhecimento local e as técnicas científicas para decidir onde cavar um poço. O terreno pode p arecer seco como um osso para um olhar não acostumado, mas mesmo aqui no Chade o lençol freático surpreende muitas vezes com um grande brote do líquido.

O CICV sempre emprega trabalhadores locais na tarefa de fazer os poços, já que essa presença cria o sentimento de propriedade e responsabilidade pela nova instalação.

Um dos benefícios inesperados trazidos pelo projeto de construção de novos poços tem sido o pequeno boom na agricultura. Próximo ao mais novo poço feito pelo CICV, por exemplo, os moradores locais começaram a plantar cenouras, cebolas e alho.

Os moradores locais rapidamente perceberam quantas vantagens podiam sacar do novo sistema de água, tornando a vista mais verde no meio da aridez da região.

Este trabalho visa não somente aliviar o peso sobre as comunidades que recebem o grande fluxo de deslocados, como também impede que estes moradores locais desenvolvam qualquer sentimento de ressentimento para com os deslocados que chegam e recebem ajuda externa.

" Nós pensamos que a água é um tema crucial e este é um dos principais valores do CICV aqui " , explica Bob Ghosn, delegado do CICV para esta área. " Água é chave, é um instrumento crucial para a vida aqui e consegui-la é uma luta diária. Nossos projetos são, definitivamente, de ajuda aos grupos mais vulneráveis e às vítimas dos conflitos que têm dificuldades para acessar a água, que é exatamente o que eles precisam para ter seu sofrimento aliviado " .

Fornecer água limpa é apenas um dos trabalhos do CICV no leste do Chade.

Na região de Bardé, por exemplo, um novo centro médico construído pelo CICV está aberto desde abril e será operado por enfermeiras do Ministério da Saúde do Chade, com o organismo fazendo uma doação inicial de medicamentos e equipamentos para que o centro possa começar a funcionar.

Assim como acontece com os novos poços, a clínica servirá também a moradores locais e deslocados que chegam à zona, na esperança de reduzir a pressão sobre o já sobrecarregado sistema de saúde.

O CICV também distribuiu itens de ajuda humanitária não alimentares para chadianos deslocados, o que é uma ajuda fundamental, considerando que muitas pessoas fugiram de suas casas sem sequer poder levar consigo o mínimo necessário.

" Todos as nossas roupas, as nossas coisas foram roubadas durante as incursões na região de fronteira, mas o CICV nos trouxe cobertores, água e tendas " , disse Abdulai Mahamar Yacoub, que representa 12.000 deslocados que agora vivem em Bardé.

" Isso realmente ajudou nossas vidas. Muito obrigado, CICV " .