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Gaza: cortes de energia põem vidas em perigo

07-09-2010 Reportagem

A grave escassez de energia elétrica na Faixa de Gaza atrapalha a vida da população. Dentre os mais prejudicados estão pacientes nos hospitais que dependem dos aparelhos para sobreviver, como as centenas de pessoas que precisam de diálise com regularidade.

 
©CICV / C. Goin 
   
Departamento de diálise do Hospital Shifa, Gaza. Khader Abu Saar (63) no aparelho de diálise. Ele vai ao hospital três vezes por semana para sessões de diálise de três horas de duração. 
       
©CICV / C. Goin 
   
Departamento de diálise do Hospital Shifa, Gaza. Mohammed Shatat, chefe do departamento de diálise. 
       
©CICV / C. Goin 
   
Hospital Shifa, Gaza. Um dos geradores do Hospital Shifa. Todos os dias, as linhas de alimentação de energia são interrompidas em médio por sete horas. E as reservas de combustível dos geradores do hospital em Gaza vão se exaurindo a cada dia. 
       
©CICV / C. Goin 
   
Hospital Shifa, Gaza. Prédio principal. 
       

Khader Saqr está deitado em um sofá, como os olhos entreabertos, pensando nas coisas que ele não pode mais fazer por causa de sua saúde. Sobretudo, ele sente falta de brincar com seus netos.

No ano passado, a falência renal virou a vida desse senhor de 63 anos de cabeça para baixo. E os cortes de energia diários no departamento de hemodiálise do Hospital Shifa, em Gaza, põem em risco sua saúde.

" A energia é cortada e volta durante o tratamento " , explica Khader. " Todos os aparelhos param até o gerador começar a funcionar. Sem energia, nosso sangue para de circular. Portanto, cada vez que tem um corte de energia, tenho um problema " .

Há dez anos, Mohammed Shatat é o chefe do departamento de diálise. Ele diz que a situação piorou nos últimos tempos. " Há cinco anos convivemos com uma crise de energia, mas os cortes se tornaram mais frequentes nos últimos meses. Quando cortam a energia, o sangue dos pacientes se coagula e eles podem ficar anêmicos. Em princípio, podemos tratar isso com remédios para aumentar o nível de hemoglobina deles, mas simplesmente, não temos os remédios necessários " .

  Cortes de energia afetam os equipamentos médicos  

Em média, a Faixa de Gaza é privada de eletricidade durante 7 horas por dia. Algumas vezes, a energia pode ser cortada duarante 12 horas. Quando o abastecimento de energia é interrompido, os geradores de reserva passam a funcionar nos hospitais. Alguns começam a operar automaticamente, mas outros têm interruptores manuais e levam uns minutos até poderem fornecer energia. Quando o aparelho de diálise para durante o tratamento, um enfermeiro tem de bombear o sangue manualmente para evitar a coagulação.

" As sessões de diálise devem durar quatro horas " , explica Shatat. " Mas, devido aos cortes de energia, a duração das sessões varia e, portanto, as pessoas não estão recebendo o tratamento adequado. Sempre que cortam a eletricidade, os enfermeiros têm de operar as máquinas de diálise manualmente, mas não há enfermeiros suficientes para atender todos os pacientes ao mesmo tempo " .

A flutuação no fornecimento de eletricidade tem um grande impacto nos aparelhos propriamente ditos, que enguiçam com frequência. Conseguir peças de reposição é muitas vezes um processo demorado. " É difícil conseguir peças de reposição para os aparelhos médicos em Gaza e consegui-las fora pode levar meses " , destaca Shatat. " Enquanto isso, temos menos aparelhos, o que significa, menos pacientes " .

Palina Asgeirsdottir é administradora do programa de saúde do CICV em Gaza. " Muitos fatores levaram a essa situação " , explica. " Os anos de conflito armado e ocupação dificultaram a manutenção e os consertos nos geradores e na rede elétrica, assim como investir no aumento da capacidade de atender as crescentes necessidades " .

A única usina elétrica na Faixa de Gaza foi parcialmente destruída pelo bombardeio israelense em 2006, como também as linhas de energia. Devido ao fechamento e à proibição de entrada de material de construção na Faixa, em geral, é impossível realizar consertos e manutenção na rede elétrica. A usina precisa de combustível e geradores. A falta de acordo entre a Autoridade Palestina em Ramallah e as autoridades do Hamas em Gaza quanto ao pagamento das faturas de combustível só aumentam o problema: quando a entrega de combustível está atrasada, a usina tem de reduzir o fornecimento ou fechar completamente.

  A falta de medicamentos afeta a saúde dos pacientes  

Como se os problemas com os aparelhos de diálise não fossem suficientes, os pacientes renais enfrentam a falta dos medicamentos especiais dos quais precisam, que não estão disponíveis em Gaza. E eles não são os únicos, como explica Asgeirsdottir: " Os pacientes com estados clínicos crônicos precisam de certos remédios. Por exemplo, os remédios para pacientes que receberam transplantes de rins, Fator VIII e IX para pacientes com hemofilia e alimentação especial para bebês e crianças com intolerância alimentar e problemas digestivos. O tratamento dos pacientes com câncer é interrompido. Sem esses medicamentos, os pacientes sofrem e podem até mesmo morrer " .

Durante algum tempo, Khader Saqr observa o aparelho de diálise, esperando que ele continue bombeando e limpando seu sangue. Depois de alguns minutos, ele fecha os olhos e tenta relaxar: ele se imagina caminhando na praia com todos os seus netos correndo e rindo com ele, de volta aos velhos tempos, quando ele tinha os dois rins funcionando.

     

 
   
Os cortes de energia em Gaza – contexto

    Os cortes de energia têm um impacto devastador sobre os pacientes de todo o sistema de saúde de Gaza, quase sempre pondo em risco as vidas dos pacientes que dependem dos aparelhos para seu tratamento nos hospitais. Os que pagam o preço são os palestinos comuns, incluindo as crianças, os idosos e os que sofrem de doenças graves. Não há opção, senão depender de um sistema que rapidamente começa a descarrilar.

Quando as linhas de alimentação de energia são interrompidas, os aparelhos eletrônicos usados nas cirurgias deixam de funcionar de repente e as luzes se apagam nas salas de cirurgia. Outros aparelhos podem sofrer danos permanentes devido aos cortes de energia, como os de diálise, os monitores cardíacos, os tomógrafos, os analisadores de laboratório e os equipamentos de imagem para máquinas de ressonância magnética. As máquinas de lavar e as autoclaves usadas para esterilizar os equipamentos não funcionam sem eletricidade.

Em 2010, o CICV importou peças de reposição necessárias para consertar 20 aparelhos de diálise.

    O CICV também fornece chave automática de transferência para os hospitais, o que permite passar aos geradores instantaneamente.