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Dez anos depois

15-12-2006 Reportagem

No dia 17 de dezembro de 1996, o delegado do CICV Michel Minnig estava na residência do embaixador japonês em Lima, Peru, quando um grupo revolucionário tomou o prédio e fez centenas de pessoas reféns. Ele lembra o trabalho do CICV nos meses que se seguiram, para ajudar os reféns.

 
Delegados do CICV (à direita, Michel Minning) se esforçam para garantir a segurança e sobrevivência dos reféns.  
           
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"Dez anos depois, o que me lembro é dessa longa caminhada - na verdade, dez metros que separam a porta de entrada da residência da cerca externa..." 
           
   
   
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"... para acompanhar à liberdade centenas de reféns, esposas de funcionários e dignatários, pessoas idosas, doentes ou feridas. 
           
   
   
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    "... o que me lembro é do sublime e do trivial que, necessariamente, acompanhava a continuação da vida; assim, essa ponte alimentar era assegurada dia a dia pelos membros do CICV e da Cruz Vermelha Japonesa..." 
           
 
   
Veja Também
    A crise dos reféns em Lima:alguns comentários sobre o trabalho do CICV como intermediário neutro,, Revista internacional da Cruz Vermelha N°. 323, junho de 1998.      
           

Dez anos depois, o que me lembro da tomada de reféns na residência do embaixador japonês em Lima, é o medo; medo que tinha se apoderado dos quase 600 convidados, entre os quais eu mesmo, além de diversos representantes do Estado peruano, do corpo diplomático, da indústria japonesa, da alta sociedade, quando, de repente, membros de um comando fortemente armado irromperam no jardim onde eram servidas comidas e bebidas e deram ordens de que todos deitassem no chão.

Dez anos depois, o que me lembro é do cheiro de pólvora e gás lacrimogêneo, da explosão ensurdecedora das armas de fogo e das granadas que nos secavam a garganta e nos perfuraram os tímpanos, enquanto membros do MRTA (Movimento Revolucionário Túpac Amaru) se enfrentavam no interior da residência com as forças de segurança peruanas que tinham cercado o local enquanto nós, amontoados no salão de gala, tentávamos, em vão, proteger-nos detrás dos móveis e das cortinas.

Subitamente, tínhamos deixado de ser convidados da celebração do aniversário do Imperador do Japão para nos convertermos em reféns de um movimento guerrilheiro.

Dez anos depois, o que me lembro é dessa longa caminhada – na verdade, dez metros que separam a porta de entrada da residência da cerca externa – caminhada que o MRTA finalmente decidiu aceitar por iniciativa minha para que eu pudesse me comunicar, como intermediário, com as forças de segurança e negociar um cessar fogo; essa caminhada deveria se repetir várias vezes ao longo da noite para me permitir, em cooperação com as autoridades e com o MRTA -, para acompanhar à liberdade centenas de reféns, esposas de funcionários e dignatários, pessoas idosas, doentes ou feridas, essa caminhada que soav a como o prelúdio de um tipo de maratona humanitária e diplomática, muito mais complexa, que mobilizaria durante mais de quatro meses o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) e a Cruz Vermelha Japonesa numa operação destinada a assegurar a sobrevivência e a segurança dos reféns.

Dez anos depois, o que me lembro é deste tempo suspenso, como a espada de Dâmocles, sobre a cabeça de 72 reféns, o núcleo duro, que depois das ondas de libertações dos primeiros dias, tinha se convertido em mercadoria de troca: peruanos, membros do governo, as forças armadas, da polícia, da magistratura; diplomatas e industriais japoneses; entre estes reféns, um homem digno de destacar-se: um sacerdote peruano que, voluntariamente, tinha decidido acompanhar seus irmãos nesta prova; esse tempo que, quando ameaçava voltar a se pôr em movimento sob efeito da ação militar do MRTA o de manifestações de força das tropas de segurança peruanas, fazia tremer a todos os que tinham ficado na residência.

Dez anos depois, o que me lembro é do sublime e do trivial que, necessariamente, acompanhava a continuação da vida; assim, essa ponte alimentar assegurada dia a dia pelos membros do CICV e da Cruz Vermelha Japonesa, junto com o serviço de lavanderia e de banheiros químicos, o abastecimento de livros, coisas para recreação ou, inclusive, o serviço de Mensagens Cruz Vermelha, único contato existente entre os cativos e seus familiares, profusão de ternura e amor, mas também de angústia e incerteza. Mas o mais surpreendente, desta perspectiva de continuação da vida, era a capacidade de reorganização " biológica " dos reféns que, nos quartos do primeiro andar da residência, onde tinham sido acomodados de acordo com suas nacionalidades ou funções, se ocupavam de suas atividades cotidianas: limpeza pessoal, tarefas domésticas, conversas animadas e calorosas, estudos, leituras, ciclos de conferências, sem falar em breves festejos, partidas assíduas de jogos de cartas, exercícios de gin ástica ou recitais de violão, tudo numa convivência, às vezes difícil, com os membros do MRTA, que tinham se instalado no andar térreo.

Dez anos depois, me lembro dos esforços incansáveis dos mediadores, a Igreja e o Canadá, que, ao lado do " observador " japonês, tentavam encontrar uma saída pacífica para a crise presidindo com paciência e perseverança mais de dez reuniões entre o governo peruano e o MRTA.

Dez anos depois, me lembro da determinação do CICV em termos de " bons ofícios " , um CICV cujo mandato não lhe permite realizar mediação política, mas que fez tudo o que foi possível nestas circunstâncias para alentar e facilitar as negociações; em particular, pôs à disposição a moldura e os procedimentos, defendendo, sempre que foi necessário, o interesse humanitário dos reféns.

Dez anos depois, me lembro da juventude de vários dos 14 membros, homens e mulheres, do MRTA. Os equipamentos militares pesados que carregavam não eram suficientes para ocultar seu desconhecimento do mundo, da sociedade em que viviam; acreditavam que se falava quéchua nas montanhas suíças ou que a vida tinha um final feliz, como nas telenovelas.
 
 
"... esta história (...) foi uma prova do que é nossa razão de ser: defender, com nossos meios humanitários, a vida e a dignidade sempre que sejam ameaçadas pelas hostilidades ou a violência."
 
 

Dez anos depois, me lembro do espírito que unia o pessoal humanitário, delegados do CICV e membros da Cruz Vermelha Japonesa; unidos em Lima desde que a crise começou para que pudéssemos responder melhor às necessidades dos reféns japoneses e, ao mesmo tempo, nos iniciavam nos usos e costumes de seu país: as degustações de pratinhos de sushi, niguiri e outras yakitori, que restavam de nossa distribuição aos nacionais do sol nascente, não era pouco ao fim de uma jornada extenuante.

Mas, dez anos depois, o que mais me lembro é da grandeza e da tragédia de cada ser humano; nós, CICV e Cruz Vermelha Japonesa, fomos testemunhas, durante 125 dias, do olhar angustiado dos familiares, dos públicos japonês e peruano; cada ser humano pelo qual lutamos sem descanso; cada ser humano pela segurança do qual trememos de medo, quando, impotentes frente ao televisor, vimos como as forças de segurança peruanas iniciavam o ataque contra a residência.

É verdade, esta história, que eu jamais esquecerei, não foi um êxito do que diz respeito a resolução pacífica de um conflito, mas esteve longe de ser um fracasso; mais ainda, foi uma prova do que é nossa razão de ser: defender, com nossos meios humanitários, a vida e a dignidade sempre que sejam ameaçadas pelas hostilidades ou a violência.