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Peru: a superlotação multiplica o contágio de tuberculose nos presídios

30-03-2009 Reportagem

A tuberculose é uma doença que, por sua forma de contágio, de pessoa para pessoa, se propaga com facilidade dentro das penitenciárias que apresentam condições de superlotação. No Peru, o CICV participou do treinamento de promotores de saúde encarregados de detectar os possíveis casos de contágio para buscar tratamento imediato.

     

©CICV M.Mejía / pe-e-00374 
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Detentos esperam para receber medicamentos. 
         

O Natal se aproximava e Juan Carlos Mondragón, um interno da penitenciária de Lurigancho, suspeitava que tinha tuberculose. Em uma manhã de dezembro começou a tossir e cuspir sangue. Não queria que sua mãe soubesse que poderia ter tuberculose porque, nesse caso, não o visitaria durante as festas. Não disse nada, mas também não quis comprovar suas suspeita: tinha medo. A tosse ficou mais forte e não já conseguia comer, nem respirar direito e estava cada vez mais cansado. Quando já não podia mais esconder que estava doente, aceitou fazer um exame, que resultou positivo. Juan Carlos tem TB e agora sua mãe também padece a doença.

“O problema da tuberculose na penitenciária de Lurigancho é que a superlotação possibilita que sejam gerados focos da doença, que vai se disseminando e ultrapassa os muros, transformando-se em um problema de saúde pública. Lurigancho foi projetada para receber duas mil pessoas, no entanto, atualmente, tem mais de onze mil internos”, conta o Dr. Miguel Angel Melgarejo, coordenador médico da penitenciária. Em 2008, foram registradas aproximadamente 900 mil visitas a esse presídio, o que dá uma dimensão do risco de contágio.

O número de novos casos detectados cresceu vertiginosamente nos últimos anos. “Em quatro anos, os casos triplicaram”, indica o Dr. Melgarejo. Somente em 2008 foram registrados 730 novos casos e nos dois primeiros meses de 2009 mais 103.

Vários programas e alternativas estão em andamento na busca da erradicação dessa doença. Com o apoio do CICV e outras instituições, foram formados promotores de saúde. Estes internos estão atentos para identificar as pessoas que apresentam sintomas respiratórios e sejam possíveis portadores do bacilo para levá-los imediatamente à clínica da penitenciária.

A presença de promotores de saúde na penitenciária de Lurigancho - 30 em tempo integral - assim como o aumento do quadro médico, graças ao apoio do Fundo Mundial, contribuiu para uma maior detecção de casos de TB, o que permitiu estatísticas mais precisas.

     

 
   
   
Resistência ao tratamento
   
    Ernesto Cámaco já teve a doença duas vezes, não completou o tratamento e agora padece a variedade resistente a múltiplas drogas (MDR) dessa doença. Desta vez garante que não interromperá o processo. Depois de quatro anos como interno, sente que pode se curar, mas também que pode voltar a se contagiar, já que vive em um pavilhão que abriga mais de 40 detentos. Alguns deles dormem no chão e resistem a seguir um tratamento. "O problema é que o estomago dói, os remédios são fortes e temos que tomá-los durante meses", conta.    
     
         

" Quanto mais procuramos, mais encontramos " , explica o Dr. Melgarejo, que, no entanto, não deixa de esconder uma certa preocupação porque, até o momento, a curva de crescimento dessa doença não se estabilizou.

" O preocupante da TB no presídio de Lurigancho é que o aumento de casos é alarmante e os números não chegam a estabilizar, e isto se deve a muitos fatores. Além das condições de superlotação, devem ser considerados também os hábitos de alguns internos, que são mais propensos a contrair a doença ou ter uma recaída gerando casos de resistência ao tratamento " , explica o funcionário.

O pessoal sanitário faz palestras para os presos e suas famílias. Realiza campanhas de controle nos pavilhões de maior incidência e coleta amostras que permitem identificar quem contraiu a doença. O presídio de Lurigancho contou com o apoio do Fundo Mundial, que financiou, entre outros, um laboratório especializado para analisar amostras e uma autoclave, tecnologia que serve para destruir os microorganismos que estas possam conter.

     

    ©CICV/ M.Mejía /pe-e-00373      
   
    Promotor de saúde com paciente assintomático.      
         

A área de saúde da penitenciária se mantém em alerta e, junto com os promotores de saúde, seus representantes vão duas vezes por mês aos lugares onde se encontra a população de risco, nos pavilhões onde há maior superlotação. " Temos que ir às 7:00 da manhã, antes que os internos comecem a fazer suas coisas, dado que justamente a população mais afetada se mobiliza muito entre os pavilhões. Quando não fazemos campanhas, como no início do ano, por falta de pessoal, o número de pessoas que apresenta TB aumenta " , conta o Dr. Melgarejo.

O presídio conta com uma área de internação para os doentes de TB que é insuficiente. Atualmente, 140 doentes de TB se encontram hospitalizados e o resto recebe tratamento ambulatório.