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Senegal: um olhar distinto sobre si mesmos

01-07-2010 Reportagem

Entre as pessoas deslocadas pela violência armada em Casamança, os feridos por minas são quase sempre os mais necessitados. O CICV lhes provê os meios de melhorarem seu padrão de vida. Mas o impacto é mais extenso do que isso. Ao melhorar sua dignidade, elas deixam de se ver como vítimas.

 
©CICV 
   
Mouskéba Diemé em sua banca de comida em Ziguinchor. Ela diz que o sorvete dá um pouco de dinheiro e que agora tem eletricidade em um cômodo, o que facilita para as crianças estudarem. 
           
©CICV 
   
Boubacar Ba conserta bicicletas. Ele acha que as pessoas o veem de maneira diferente, talvez com mais respeito. 
           
©CICV 
   
Em fevereiro de 2010, o CICV arcou com as despesas de uma pequena oficina de bicicletas que seria construída junto à estrada que leva à Universidade de Ziguinchor. 
           

“Vende-se gelo, 75 francos”, diz um pedaço de papel-cartão roto. Por trás desse modesto cartaz escrito à mão jaz a esperança de uma família inteira. A família de Mouskéba Diemé é formada por seu marido e seus filhos, e nos últimos 15 anos eles moram em Néma 2, um bairro em Ziguinchor.

“Antes” moravam em Kaguitte, uma aldeia a cerca de 40 quilômetros de Ziguinchor. Marido e mulher trabalhavam no campo; cultivavam arroz e viviam da terra. Em fevereiro de 1994, Mouskéba Diemé pisou em uma mina perto da aldeia e perdeu uma perna. A família teve que abandonar a aldeia, porque ela não podia mais ajudar o marido e eles tinham medo das minas. Eles se mudaram para a cidade, a única opção viável para quem busca um trabalho e um novo começo.

O padrão de vida da família piorou consideravelmente desde que eles deixaram a aldeia. Mouskéba Diemé instalou uma pequena banca de comida ao lado de sua casa, onde serve vinho de palma, peixe grelhado e vinho tinto que compra em Guiné Bissau. Seu marido só consegue encontrar trabalho de tempos em tempos. A agricultura era sua principal fonte de renda e, obrigados a abandonar a terra, eles ficaram sem nada.

Essa é a história de milhares de vítimas que, deslocadas pela violência que dura mais de duas décadas, fizeram crescer a população de Ziguinchor e arredores. Estima-se que 10 mil pessoas que foram deslocadas, incluindo as recentes, vivam na maior cidade em Casamança.

  Microprojetos  

Com o objetivo de cumprir sua missão de proteger e assistir as vítimas de conflitos armados e outras situações de violência, o CICV lançou u m programa para ajudar os deslocados mais necessitados por meio de microprojetos.

" A princípio, estamos trabalhando com os deslocados que foram vítimas de minas terrestres, cuja situação é particularmente calamitosa. Nós os ajudamos a desenvolver um programa que visa a melhorar seu padrão de vida " , diz o coordenador de programas de segurança econômica do CICV da subdelegação de Ziguinchor, Christophe Driesse. Em 2009, a Associação Senegalesa de Vítimas de Minas tem 330 membros em Casamança, dos quais 50 viviam em Ziguinchor.

Mouskéba Diemé passou muito tempo desenvolvendo seu projeto com a ajuda do CICV. Ela pensou em consertar sua banca de comida antes de se decidir por uma atividade relacionada: vender gelo, sucos de fruta e sorvetes. O CICV lhe comprou um freezer e se encarregou de fazer a instalação elétrica em sua casa e de cuidar da parte burocrática. " O sorvete dá um pouco de dinheiro e agora temos eletricidade em um cômodo, o que facilita para as crianças estudarem " , diz, orgulhosa de ter luz em casa por fim.

Além de ajudar as pessoas a desenvolverem um projeto que corresponda a suas habilidades e ambições, o CICV as ajuda a gerenciar seus próprios negócios.

  Sob uma óptica distinta  

Boubacar Ba conserta bicicletas. Ele perdeu uma perna em 2004, quando saltou em uma mina perto de sua casa em Oumpack, não muito longe da fronteira com Guiné Bissau.

Em fevereiro de 2010, o CICV arcou com as despesas de uma pequena oficina de bicicletas que seria construída junto à estrada que leva à Universidade de Ziguinchor. A organização também lhe forneceu ferramentas e o material necessário para fazer um cartaz.

Desde abril, Boubacar Ba se ocupa de seu negócio, abrigado do sol e equipado com as ferramentas adequadas. " Desde qu e abri minha nova oficina, meu negócio tem crescido cada dia mais. Conserto mais bicicletas agora e ganho mais dinheiro, que uso para pagar a escola de meus filhos. E tenho a impressão de que as pessoas me veem de maneira diferente, talvez com mais respeito " , diz.

Um pouco mais distante, no bairro de Tilène, há uma pequena oficina de costura com tecidos coloridos e carretéis. Duas pessoas estão trabalhando com as máquinas de costura. Stéphanie Malack usa sua perna saudável para trabalhar com o pedal – em vez da outra, na qual usa uma prótese. Antes do acidentes em 1998, ela vendia limões e sucos de fruta. " Depois, tive de conseguir um emprego que me permitisse trabalhar sentada. Foi quando comecei o curso de costura " , diz.

Com a ajuda do CICV, que lhe dará uma máquina de costura nos próximos meses, ela acaba de começar a compartilhar uma oficina administrada por um alfaiate, que lhe ensina os truques do ofício. " Queria aprender a cortar os tecidos para criar meus próprios modelos e ter minha própria clientela, como uma verdadeira modista " .

Esses microprojetos são adequados para cada perfil e interesse individual e melhoram o padrão de vida dos beneficiários. Mas também os ajudam a terem um olhar distinto sobre si mesmos, diferente de se verem como vítimas.