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Novas necessidades pedem novos tipos de resposta

02-12-2010 Entrevista

Esta semana, o CICV apresenta seu orçamento para o terreno para 2011. O diretor de Operações da organização, Pierre Krähenbühl, explica por que o custo das atividades humanitárias aumentou.

 

   

 
   
 
         

  Sem ter ocorrido nenhum grande conflito armado novo, como o senhor explica o orçamento recorde para o terreno apresentado para o ano de 2011?  

O orçamento reflete o fato de termos melhorado o acesso às pessoas necessitadas e desenvolvido uma resposta mais abrangente aos problemas humanitários em situações de conflitos armados no mundo todo. Muitas das principais operações do CICV vivenciaram avanços importantes nos últimos anos, como o Afeganistão e o Iraque, por exemplo, onde o CICV ampliou sua presença física no terreno e continua sendo uma da poucas organizações humanitárias com condições de chegar às pessoas em várias partes do país.

Muitos dos conflitos de hoje têm duração muito longa. A maior parte das operações do CICV es tão sendo realizadas em países onde a organização está presente há duas, três ou mesmo quatro décadas. A República Democrática do Congo e a Somália são exemplos. Com frequência, os conflitos contemporâneos envolvem a luta pelo acesso aos recursos naturais-chaves, como minerais e terras. Eles flutuam entre fases de alta e baixa intensidade, sem uma verdadeira perspectiva de paz duradoura. Os confrontos demorados impõem uma pressão inimaginável sobre a vida das pessoas. Elas sofrem os efeitos cumulativos da falta de segurança, do abuso físico, da pressão psicológica, do deslocamento, etc.

Cada uma dessas situações exige uma análise que leva em consideração as circunstâncias específicas da pessoa ou da comunidade que o CICV tenta assistir e proteger. É preciso uma resposta sob medida para atender essas necessidades e para fortalecer os mecanismos das pessoas para lidarem com a situação. No entanto, ao mesmo tempo em que as pessoas diretamente afetadas pelo conflito – como as vítimas de guerra, os civis em perigo, as pessoas deslocadas que escapam das zonas de batalha e os detidos que correm risco de sofrerem maus-tratos ou de desaparecerem – recebem a maior parte da atenção, temos visto que é indispensável atender também os efeitos indiretos do conflito e de outras situações de violências armadas.

     

  Quais são alguns dos efeitos indiretos e como a organização lida com eles?  

Os exemplos incluem a falta de segurança alimentar, que pode ser consequência da longa restrição ao trânsito imposta por questão de segurança, a constante deterioração das condições de saúde e de saneamento para as pessoas nas zonas de conflito e nos arredores e a falta de acesso - ou acesso insuficiente – à água, às terras cultiváveis e aos serviços básicos.

Ao entendermos melhor tais necessi dades indiretas, podemos melhorar nossa resposta a elas. Tomar medidas para apoiar os meios de subsistência das pessoas e assegurar que elas tenham acesso à assistência médica e à água potável se tornou uma parte importante do nosso trabalho nos últimos anos. No Afeganistão, por exemplo, o CICV não só apoia dois grandes hospitais de referência (Mirwais e Shiberghan), mas também paga os taxistas para levar as pessoas doentes, em particular as mulheres e as crianças, para um hospital ou para um posto de primeiros socorros. Não é só organizar a distribuição de socorro em grande escala, mas também treinar os agricultores em saúde, reprodução e alimentação animal.

Os problemas psicológicos são outro efeito indireto da violência armada. As famílias das pessoas que desapareceram como resultado do conflito, por exemplo, quase sempre sofrem de depressão, ansiedade e sintomas psicossomáticos. Com frequência isso tem um impacto devastador sobre seu dia a dia, dificultando extremamente ou mesmo impossibilitando a realização de suas tarefas diárias. Historicamente, tanto a ampla comunidade humanitária como o CICV se concentraram em necessidades físicas e não atenderam de maneira suficiente as consequências mentais e psicológicas do conflito armado. Hoje, no entanto, respondemos melhor a grande diversidade de problemas, por exemplo, com apoio às famílias de pessoas desaparecidas em decorrência do conflito em seus esforços para encontrar os restos mortais de seus entes queridos, como fazemos no Peru, ou oferecendo aconselhamento às vítimas de violência sexual, como fazemos na República Democrática do Congo.

     

  Cada vez mais o CICV age nas chamadas "outras situações de violência", como as que envolvem a repressão estatal, confrontos entre comunidades e violência em contextos urbanos. Isso significa que a organização está abandonando seu foco tradicional nos conflitos armados?  

Mais de 80% de nosso orçamento é usado para ajudar as vítimas de conflitos armados. Mas, como você mencionou, estamos também atendendo as necessidades causadas por outras formas de violência armada organizada. Apesar de esses exemplos de violência não estarem contemplados no Direito Internacional Humanitário (DIH) – ou no direito do conflito armado, como também é conhecido –, com frequência, eles têm consequências humanitárias consideráveis.

Algumas das características dos conflitos armados contemporâneos, como a proliferação de vários grupos armados que vivem às custas da população, também estão presentes nessas situações de violência. A agressão e a brutalidade são, às vezes, tão duras quanto em um conflito armado tradicional e podem ser um sinal do que está por vir: regiões inteiras – urbanas ou rurais – que são efetivamente sem lei e que estão além do controle do Estado. Como nas zonas de conflito, as pessoas são mortas ou feridas, deslocadas ou privadas de acesso à terra que precisam cultivar. Por fim, isso pode levar à destruição de seus próprios meios de subsistência.

Tomemos como exemplo o Quirguistão, onde os violentos confrontos causaram o deslocamento de dezenas de milhares de pessoas na cidade de Osh, ao sul do país, em junho deste ano. O CICV agiu assim que a violência começou, levando assistência aos doentes e feridos, água e alimentos para mais de 300 mil pessoas e tentando ter acesso às pessoas capturadas em conexão com os acontecimentos.

Como exemplo de violência em contexto urbano, temos o Rio de Janeiro, onde o CICV, em parceria com a Cruz Vermelha Brasileira e outras instituições locais estatais e não estatais, realiza campanhas de promoção da saúde, presta apoio psicológico às pessoas traumatizadas pela violência e assiste as mães adolescentes e seus filhos nas comunidades carentes. Ao mesmo tempo, o CICV está tentando aum entar o respeito pela dignidade das pessoas por meio do diálogo com todos os envolvidos na violência.

     

  Em algumas áreas no mundo, tornou-se extremamente difícil para as organizações humanitárias trabalharem. Os profissionais de socorro são sequestrados ou são alvos deliberados. Ainda assim o senhor diz que o acesso do CICV às pessoas que precisam de ajuda melhorou. Como a organização consegue garantir que seus funcionários possam fazer seu trabalho?  

Nossa habilidade de trabalhar em áreas de conflito se baseia na construção da aceitação por parte de todos os envolvidos, em especial, dos portadores de armas. O CICV está determinado a dialogar com todas as partes. Também queremos demonstrar que nossas operações fazem uma verdadeira diferença para as pessoas. E temos de ser muito estritos e rigorosos para não tomar partido de ninguém. A neutralidade e a independência do CICV sempre foram sua marca registrada. Acreditamos que essa abordagem permitiu que tivéssemos acesso a muitas pessoas, o que, em outra situação, não aconteceria ao trabalhar em zonas de conflito muitas vezes polarizadas.

As parcerias com as Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho ou com as entidades locais são com frequência cruciais para nossas ações para chegar às pessoas que precisam de nossa ajuda, sobretudo em ambientes com segurança delicada. Na Somália ou no Iêmen, por exemplo, a cooperação com as respectivas Sociedades Nacionais do Crescente Vermelho nos permitiu proporcionar assistência médica e apoio aos meios de subsistência.

Conseguir progresso em um ambiente sensível, em última análise, depende de entender o contexto, mostrar curiosidade e criatividades na busca de soluções, evitar qualquer inclinação a julgar e dialogar de forma aberta – e crucial, quando necess ário – com as partes em conflito.