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República Centro-Africana: uma aguçada sensação de vulnerabilidade

11-11-2010 Entrevista

O CICV acaba de iniciar a distribuição de alimentos para 55 mil pessoas no leste da República Centro-Africana. A coordenadora de Segurança Econômica do CICV para o país, Christa Utiger, explica o que há por trás dessa operação.

     
 
   
 

         

  Por que o cicv decidiu lançar esta operação?  

A decisão de prestar socorro em forma de alimentos em Mboki, Obo, Rafai e Zemio – quatro das maiores cidades na região – reflete nossa preocupação com a contínua erosão da segurança alimentar no leste da República Centro-Africana.

A terra nunca foi um problema: o distrito de Haut Mbomou é fértil e é uma das regiões mais escassamente povoada no país. No entanto, a violência e a aguçada sensação de vulnerabilidade desestruturaram os meios de subsistência tradicionais. Nos últimos meses, mais de 20 mil pessoas de aldeias periféricas saturaram essas cidades em busca de segurança, o que basicamente d uplicou a população. A este grupo se somam seis mil refugiados congoleses.

Como resultado, a demanda de alimentos aumentou, ao mesmo tempo em que a produção agrícola – em decorrência dos deslocamentos, as pessoas são obrigadas a abandonar seus campos – diminuiu. Os campos próximos às cidades são usados em excesso e se tornam menos produtivos, provocando um aumento nos preços dos alimentos. E não somente os pequenos agricultores foram afetados de maneira adversa; os pastores reagiram ao buscar lugares para pastagem e se mudaram para mais perto das cidades. Isso reduz a disponibilidade de áreas cultiváveis e aumenta a possibilidade de confrontos entre pastores e agricultores.

O aumento da insegurança também reduziu de modo significante o volume de comércio na região. Mboki sempre foi uma convergência comercial e um grande mercado, mas os comerciantes agora pensam duas vezes antes de vir aqui vender seu gado. Isso tem um grande impacto sobre os rendimentos da comunidade.

Todos esses fatores combinados criaram o problema de segurança alimentar, que se tornou mais agudo como tempo e nos levou a agir.

    

  O que o cicv visa a alcançar?  

O objetivo do socorro alimentar é complementar os estoques de alimentos esgotados e ajudar as comunidades a sobreviverem durante este período de violência. Decidimos prestar assistência a toda a população dessas cidades porque todos foram afetados. Todas as famílias receberão este socorro, composto de arroz, feijão ou amendoim, óleo e sal: alimentos básicos e boas fontes de proteína e energia.

O CICV também planeja distribuir sementes para as mesmas comunidades – antes da temporada de semeadura, no início de 2011 – para assegurar boas colheitas para o fim do ano e alimentos suficientes a preç os razoáveis. Desta forma, esperamos dar às comunidades os meios para se recuperarem.

     

  Que desafios logísticos o cicv enfrenta?  

Esta região é vasta e fértil, mas é pobre e carece de infraestrutura básica, como estradas de asfalto e pontes. Na estação chuvosa, as estradas de terra se deterioram muito rápido e os rios transbordam. Os caminhões podem levar até três semanas para ir de Bangui a Obo, uma distância de 1.300 quilômetros. A jornada envolve quatro travessias de balsa: os caminhões devem ser completamente descarregados para fazer a travessia e depois carregados de novo do outro lado. Como se pode imaginar, isso leva tempo. Outro desafio é a insegurança ao longo da estrada e em toda a região.

Esta operação exige muito tempo de planejamento para assegurar que os alimentos cheguem às cidades na hora certa. E paciência, também, é uma necessidade!