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Líbia: desafios humanitários seis meses depois

12-08-2011 Entrevista

As hostilidades estão causando vítimas entre os civis, detidos e feridos. À medida que o conflito continua, as sanções internacionais também têm um impacto humanitário sobre a população líbia. O chefe de operações do CICV no Norte e no Oeste da África, Boris Michel, explica a situação.

  Quais são os principais problemas humanitários que o senhor vê no terreno?  

O conflito ainda acontece em muitas áreas, sobretudo nas Montanhas Ocidentais e nos arredores de Misrata e Brega. Dezenas de milhares de pessoas dessas áreas estão deslocadas dentro da Líbia ou se refugiaram na Tunísia e no Egito. Algumas estão retornando para suas casas, sempre que as condições de segurança permitem, enquanto outras fogem. Muitas famílias estão separadas. Milhares de pessoas foram detidas ou desapareceram em conexão com o conflito.

Os serviços médicos estão lutando para atender as necessidades dos feridos de guerra e de outros pacientes. A prestação de assistência à saúde é muitas vezes impedida pela situação de segurança ou pela partida dos profissionais de assistência à saúde. Além disso, quando há uma trégua no combate, ou o combate em uma determinada área termina, as pessoas enfrentam graves perigos causados pelo material bélico não detonado que está espalhado em muitas áreas.

  Cada vez mais se ouve falar do grande impacto das sanções internacionais sobre a população líbia. O que o CICV tem a dizer sobre isso?  

O Conselho de Segurança da ONU impôs sanções financeiras e de outros tipos sobre a Líbia há mais de cinco meses. Muitos Estados e organizações internacionais também aplicaram sanções sobre o país. As sanções são compatíveis com o Direito Internacional Humanitário, pois proporcionam mecanismos de isenção à assistência humanitária e a certos artigos essenciais, como suprimentos médicos. No entanto, essas isençõ es precisam ser aplicadas melhor na prática.

Apesar das isenções, há certa escassez na área de assistência à saúde e outros serviços vitais.

Há uma escassez importante de vacinas, remédios e outros artigos médicos nos hospitais e nos centros de saúde. A Líbia depende muito da importação de suprimentos médicos, 95 por cento do qual era importando ao país antes da crise. Devido aos efeitos das sanções financeiras (como a partida de empresas estrangeiras e de seus funcionários), a importação desses suprimentos foi gravemente reduzida. Tememos que, em poucas semanas, a maior parte dos remédios e de outros artigos médicos escasseiem mais nas próximas semanas.

Isso poderia acelerar a disseminação de doenças como sarampo, em particular, no sudeste do país, onde uma começou uma epidemia nas últimas semanas, e poderia levar a altos índices de mortes entre os líbios. Isso se aplica, em especial, aos pacientes que sofrem de doenças crônicas, como câncer ou diabetes ou falência renal, cujos tratamentos dependem da disponibilidade de medicamentos.

  Além do impacto no sistema de saúde, onde mais as sanções têm impacto humanitário?  

As bombas, os motores, os geradores e as peças de reposição precisam de manutenção, reparo e a rede de abastecimento de água é escassa. Os produtos químicos necessários para tratar a água também têm dificuldade de ingressar.

Se esses suprimentos não forem disponibilizados logo, a população líbia poderia enfrentar uma brusca piora na higiene e um aumento nas doenças devido à falta de água. Em grande parte do país, incluindo a capital, já ouve interrupções temporárias no fornecimento de água e de energia nas últimas semanas.

  O que o CICV está fazendo para reduzir o impacto humanitário das sanções?  

Nossa prioridade é responder o mais rápido possível aos problemas humanitários mais críticos que vemos. Por exemplo, depois de obter as autorizações necessárias, levamos por via área 40 mil doses de vacina contra sarampo para Sabha, no sudoeste do país. A vacina será usada no programa de vacinação em curso na área. Também, o CICV doará suprimentos necessários para exames de sangue para o banco de sangue em Trípoli.

Dito isso, a assistência sozinha não é suficiente. Por isso, estamos compartilhando nossas preocupações com aqueles que podem fazer algo para melhorar a situação, pedindo-lhes que ponham em prática, monitorem e revejam as isenções humanitárias das sanções. Em particular, os alertamos sobre a necessidade de facilitar as restrições às importações de suprimentos médicos.

Do nosso lado, continuamos monitorando a situação humanitária e, se necessário, compartilhamos nossas observações – incluindo na área de segurança alimentar, que também é uma preocupação.

  Quais são os principais desafios que a organização enfrenta no terreno na Líbia?  

Há muitos desafios. Obter acesso às vítimas do conflito continua difícil em inúmeras áreas devido ao conflito corrente e à falta de segurança. Como consequência, é quase sempre difícil avaliar completamente a situação humanitária e proporcionar uma resposta adequada no lugar certo e na hora certa. Obter acesso a todas as pessoas detidas em conexão com o conflito ainda é uma prioridade.

A segurança do pessoal humanitário é outro motivo de preocupação. Como consequência direta do conflito, cinco voluntários do Crescente Vermelho Líbio – nosso principal parceiro no país – foram mortos desde março e vários outros foram feridos. Tais incidentes são perturbadores, em especial porque refletem a falta de consideração para com o emblema do crescente vermelho e – de maneira mais generalizada – obstruem a prestação de assistência por parte dos profissionais de assistência à saúde e de outros profissionais humanitários.

Embora o CICV seja bem-aceito, ainda não é conhecido o suficiente na Líbia. Isso pode causar atrasos na obtenção de autorizações e, à medida que o conflito continua e se torna cada vez mais polarizado, pode levar a expectativas que não são compatíveis com o status neutro e independente das atividades humanitárias do CICV.

Estamos fazendo o melhor para atender esses desafios por meio da ampliação de nossa presença, nos esforçamos para agir de maneira rápida e adequada para atender as necessidades e explicamos nosso papel e as limitações a uma rede de pessoas cada mais extensa no terreno. Temos presença permanente em Trípoli, Benghazi e Misrata e planejamos abrir um escritório nas Montanhas Ocidentais. Agora contamos com 156 funcionários, incluindo 46 internacionais, trabalhando na Líbia.

  Mais informações:  

  Dibeh Fakhr, CICV Benghazi, tel: +870 772 390 124  

  Robin Waudo, CICV Trípoli, tel: +881 622 435 156 ou +218 913 066 198  

  Steven Anderson, CICV Genebra, tel: +41 79 536 92 50 ou +41 22 730 20 11