Oriente Médio e Norte da África: o desafio de lidar com as emergências médicas
04-04-2011 Entrevista
À medida que os distúrbios e violência continuam se espalhando em todo o Oriente Médio e no Norte da África, o diretor-adjunto de operações do CICV, Dominik Stillhart, descreve os desafios que os profissionais de saúde locais e os hospitais enfrentam na região e o apoio que o CICV lhes presta.
Quais são os principais desafios médicos e as prioridades desde o início da última deflagração de distúrbios?
Em geral, a violência resultou em muitas mortes e em um grande número de feridos. O conflito armado na Líbia já vem devastando há semanas e o número de vítimas continua crescendo, ao mesmo tempo em que o acesso da assistência humanitária a algumas partes do país permanece restrito.
Em outros lugares, os distúrbios civis tiveram como pano de fundo um conflito armado existente, como no Iêmen, onde um conflito armado prolongado – embora, em grande medida, desapercebido – está em curso no norte do país. No Iraque, também, as últimas manifestações resultaram em vítimas, enquanto centenas de pessoas continuam sendo mortas ou feridas todos os meses pela violência relacionada com o conflito em curso. Quando se somam os distúrbios civis a uma situação humanitária precária em um país enfraquecido pelos anos de conflito armado, o resultado pode ser desastroso em termos de custo humano.
Por isso, uma de nossas prioridades é apoiar as equipe de saúde locais para salvar vidas e assegurar que as pessoas que precisem de assistência médica – em particular, os feridos durantes os atos de violência – recebam a ajuda à qual têm direito. Não posso deixar de enfatizar a importância de facilitar o acesso imediato aos profissionais de saúde aos feridos e doentes e permitir que eles façam seu trabalho com segurança. É literalmente uma questão de vida ou morte.
O que o CICV está fazendo para abordar esses desafios?
Cuidar dos feridos e dos doentes, aliviar o sofrimento das vítimas e salvar vidas é, de fato, o que nós, e nossos parceiros do Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, fazemos todos os dias.
No início dos recentes distúrbios civis e da violência no Norte da África e no Oriente Médio, estamos fazendo o possível para apoiar os profissionais de saúde. Isso significa trabalhar lado a lado com as sociedades nacionais da Cruz Vermelha ou do Crescente Vermelho nos países afetados e com os ministérios da saúde, outras autoridades governamentais e organizações locais.
No Egito, o Ministério da Saúde está responsável pelos primeiros socorros e pela assistência emergencial. O Crescente Vermelho Egípcio ajuda a identificar as necessidades, enquanto várias outras organizações também representam um papel importante, assim como os indivíduos que oferecem seus serviços de maneira espontânea e voluntária quando a violência é deflagrada, como o fizeram na praça Tahrir, no Cairo. O CICV mantém uma boa rede de contatos com todos os envolvidos, o que nos permite avaliar as necessidades e responder a elas com eficácia.
As organizações humanitárias devem ter acesso seguro a todos aqueles que necessitam assistência e todos devem respeitar e proteger os profissionais da área de saúde, os estabelecimentos médicos e os veículos que transportam os feridos.
Quais são os principais riscos para os profissionais de saúde?
Seja porque dirigem em estradas cheias de barricadas ou porque lidam com o fluxo repentino de pacientes, os profissionais de saúde locais enfrentam riscos e desafios consideráveis. Alguns deles pagaram um preço alto. Na Líbia, dois voluntár ios foram feridos no dia 3 de março, quando as ambulâncias do Crescente Vermelho em que estavam foram alvo de tiros em Misrata, oeste de Benghazi.
É totalmente inaceitável atacar as pessoas que prestam assistência médica e obstruir a passagem segura de ambulâncias. Todos os envolvidos nos atos de violência devem proteger os profissionais e os estabelecimentos médicos e qualquer veículo usado como ambulância. A equipe de saúde e a do Crescente Vermelho e da Cruz Vermelha devem ser respeitadas sempre e devem ter permissão de realizar seu trabalho, que salva vidas, em segurança.
Os socorristas estão particularmente expostos a graves perigos e obstruções à realização de seu trabalho porque quase sempre são os primeiros a chegarem à cena. É vital que tenham a permissão de realizar seus trabalhos de forma rápida e segura.
Ao mesmo tempo em que ferimentos leves quase sempre podem ser tratados no local, as pessoas gravemente feridas devem ser levadas para o hospital. Os serviços médicos de emergência estabilizam os pacientes e fazem uma triagem para garantir que os pacientes com quadros mais graves sejam atendidos primeiro. O CICV apoia os serviços médicos locais em seus esforços para cuidar dos feridos e assegurar que todas as pessoas feridas ou doentes recebam assistência, independente de sua filiação. Nossa prioridade é assegurar que eles recebam a assistência necessária.
Como o CICV promove o cumprimento das regras que protegem os doentes, os feridos e as pessoas que os tratam?
Ao aumentar a conscientização de que o objetivo dos profissionais de saúde é de ajudar as pessoas e que todos devem respeitar e proteger os pacientes e os profissionais de saúde. Uma forma de fazer isso é por meio do diálogo com todas as partes envolvidas na vio lência – as forças policiais e de segurança, mas também os manifestantes – e com as partes envolvidas em um conflito armado. Basicamente, uma das nossas funções é lembrar a todos de sua obrigação tantas vezes quantas forem necessárias e durante o tempo que for necessário.
No meu modo de ver, há uma forte necessidade humanitária para que as forças policiais e de segurança e qualquer outra parte que participe da violência respeitem e protejam os profissionais e os estabelecimentos médicos e as ambulâncias. É simples assim. Não fazê-lo é totalmente inaceitável.
O senhor poderia nos dar um exemplo de como o CICV tem apoiado as equipes médicas em países afetados pela violência?
Esse tipo de atividade é a essência de nosso mandato e há mais de 150 anos protegemos os feridos e doentes. Portanto, mesmo antes da deflagração de um distúrbio civil, já estamos apoiando as atividades de saúde em vários países onde a violência ocorreu recentemente.
Na Tunísia e no Egito, o CICV há muito tempo coopera com as Sociedades Nacionais do Crescente Vermelho desses países. Durante os últimos acontecimentos no Egito, abastecemos vários hospitais com material médico suficiente para atender até mil pessoas gravemente feridas. Além disso, demos ao Crescente Vermelho Egípcio bandagem e material para curativos suficientes para atender cinco mil pacientes. Também nos certificamos de que os kits para curativos de emergência adicionais estivessem disponíveis para atender até cinco mil pessoas com ferimentos leves.
Em países como o Iêmen e o Iraque, o CICV vem apoiando os estabelecimentos médicos há anos. No Iêmen, o Crescente Vermelho atualmente está trabalhando sem parar para prestar primeiros socorros nas áreas onde acontecem as manifestações, enquanto o CICV e ntrega material médico e cirúrgico e oferece treinamento em primeiros socorros aos voluntários. No Iraque, a equipe médica recebe regularmente treinamento do CICV para ajudar a lidar com o enorme fluxo de vítimas causadas pelo conflito em curso. Estamos preparados para prestar qualquer outro tipo de assistência, caso seja necessário.
No Bahrein, que é coberto por nossa delegação regional no Kuaite, realizamos uma avaliação da missão no terreno em cooperação com o Crescente Vermelho Barenita durante os estágios iniciais dos distúrbios. Pré-posicionamos nossos estoques de material de primeiros socorros com o Crescente Vermelho Barenita, junto com material cirúrgico suficiente para tratar até 250 vítimas.
Durante os estágios iniciais do conflito na Líbia, enviamos duas equipes médicas, incluindo cirurgiões e enfermeiros, para ajudar aos médicos locais a lidarem com o grande número de vítimas que chegam aos hospitais em Benghazi e Ajdabiya. Junto com o Crescente Vermelho Líbio, também completamos os estoques emergenciais desses estabelecimentos.
Além disso, em coordenação com o Comitê de Saúde de Benghazi e o Crescente Vermelho Líbio, as equipes médicas do CICV realizaram um seminário sobre cirurgia para mais de 70 médicos e enfermeiros líbios no hospital Al Jalaa. As últimas notícias da Líbia e que uma equipe de delegados do CICV chegou a Trípoli no dia 30 de março para discutir questões humanitárias referentes com as autoridades governamentais líbias.

