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Gaza: as dificuldades e o desespero ainda não têm previsão para terminar

20-05-2011 Entrevista

A chefe-adjunta da subdelegação do CICV em Gaza, Mathilde De Riedmatten, fala sobre a situação no enclave costeiro e sobre como os cidadãos comuns de Gaza fazem para seguir com suas vidas.

 
©CICV / C. Goin / il-e-01978 
   
Hospital Al-Shifa, Gaza. Berçário. 
               
©Reuters / M. Salem 
   
Junho de 2010. Norte da Faixa de Gaza. Crianças palestinas dormem em uma barraca. A barraca foi montada depois que sua casa foi destruída durante a operação militar israelense, em 2008/2009. 
               
©Reuters / I. A. Mustafa 
   
Gaza. Mulher palestina com uma foto de um parente detido em um presídio israelense. 
               
©Reuters / I. A. Mustafa 
   
Pescadores de Gaza foram duramente atingidos pelas restrições às áreas onde podem pescar. 
           

  Como a senhora descreveria a situação humanitária na Faixa de Gaza hoje?  

O CICV está preocupado com o fato de 1,5 milhão de pessoas na Faixa não poderem viver uma vida normal e digna. Quase ninguém pode deixar a Faixa de Gaza, nem para ir à Cisjordânia, onde muitos cidadãos de Gaza têm família ou tinham trabalho antes.

Os estabelecimentos de assistência médica sofrem com as restrições que Israel impõe sobre a transferência de equipamentos médicos, materiais de construção e muitos outros artigos básicos necessários para a manutenção. Os estabelecimentos de água e saneamento estão no limite há muitas décadas. O fato de eles continuarem funcionando, ainda que precariamente, se deve aos esforços de certas organizações humanitárias. Alguns prédios carecem de consertos há muitos anos e muitos outros, que foram destruídos durante a operação militar israelense em Gaza, em 2008-2009, não podem ser consertados ou reconstruídos enquanto os materiais de construção, como concreto, não tiverem a permissão para entrar na Faixa de Gaza em quantidades importantes.

A violência faz muitas vítimas civis na Faixa com regularidade. Nos últimos meses, muitas pessoas foram mortas ou feridas na escalada da violência e às vezes mesmo em hostilidades abertas. Os incidentes de segurança na área entre Gaza e Israel com frequência resultam na perda de vidas ou na destruição de propriedades ou de meios de subsistência. Lamentamos que haja vítimas civis e continuamos lembrando a todas as partes envolvidas que os civis devem ser poupados dos efeitos das hostilidades. Todas as precauções possíveis devem ser tomadas para evitar as vítimas civis.

A equipe do CICV monitora constantemente a situação dos civis, como agricultores e catadores de escombros, que não têm alternativa, senão morar e trabalhar nas áreas próximas a Israel. A área ao longo da cerca que se estende 300 metros para dentro de Gaza foi declarada uma zona de acesso restrito pelas Forças de Defesa de Israel. Uma área muito maior, que se estende por quase um quilômetro para dentro da Faixa de Gaza, é considerada perigosa em virtude das incursões militares israelenses e do uso de munições verdadeiras. Sempre que os civis sofrem os efeitos diretos em tais incidentes, registramos os casos e levamos nossas preocupações de maneira bilateral e confidencial às partes envolvidas.

     

  A senhora pode contar mais sobre a situação econômica?  

Gaza está mais dependente do que nunca da assistência externa. Para os jovens – 50 por cento dos 1,5 milhões de moradores de Gaza têm idade inferior a 18 anos – há uma esmagadora falta de perspectiva e eles lutam constantemente para manter as esperanças de um futuro melhor.

Os limites estritos sobre as importações e a proibição praticamente absoluto das exportações impostos por Israel tornam a recuperação econômica impossível. O índice de desemprego atualmente chega a 40 por cento. E continuará alto enquanto a economia não puder se recuperar. Essa difícil situação piora as consideráveis dificuldades já causadas pelo colapso de áreas da economia antes prósperas.

Ao longo dos anos, o acesso à terra adequada para o cultivo foi sendo reduzido pelas restrições impostas nas áreas próximas a Israel, pelo nivelamento de terra e pela destruição de áreas por parte das Forças de Defesa de Israel. Para piorar, o alto preço ou mesmo a total falta de produtos agrícolas, como fertilizantes, pesticidas, e a falta de oportunidades de exportação tiveram um forte impacto sobre o setor privado. Além disso, muitos pescadores perderam seus meios de subsistência em decorrência da redução imposta por Israel sobre a área no mar dentro da qual têm a permissão de pescar para três milhas náuticas a partir da costa de Gaza.

Devido ao controle efetivo que Israel mantém sobre a Faixa de Gaza, em particular, ao manter a autoridade sobre o trânsito de pessoas e mercadorias, o país deve também cumprir com suas obrigações segundo o Direito de Ocupação e permitir que a população civil leve uma vida normal dentro do possível.

     

  Israel facilitou o fechamento em junho de 2010. Isso teve algum efeito positivo sobre as vidas das pessoas comuns em Gaza?  

A restrição do trânsito das pessoas em Gaza ainda não foi modificada. O atual sistema israelense de permissão, combinado com controles rigorosos, implicam que apenas as pessoas que precisam de assistência médica atenderiam aos critérios de segurança estritos que lhes permitem sair por Rafah, no Egito, ou por Erez, em Israel. Pouquíssimas pessoas têm autorização para sair de Gaza.

A entrada de mercadoria em Gaza ainda é também altamente restrita, não somente em termos de quantidade, mas também em termos de que tipo de produto pode entrar. Os atrasos são constantes. Algumas mercadorias que podem entrar no país são tão caras que sua disponibilidade pouco importa para a grande maioria da população, que não têm condições de adquiri-las. Embora tenha havido uma cobertura da mídia sobre a exportação de certas colheitas, como cravos e morangos, o nível real de exportação da Faixa de Gaza continua próximo a zero. A importação de material de construção e de matéria prima ainda é, em sua maioria, proibida, mesmo sendo vitais para a infraestrutura d o território e de sua recuperação econômica.

A menos que haja uma mudança política que resulte na liberdade de trânsito para os cidadãos de Gaza, o aumento da importação de várias mercadorias e exportações importantes, não haverá melhorias.

     

  Como o CICV pode ajudar a diminuir os efeitos do fechamento?  

Para ajudar as famílias a terem alguma renda para chegarem ao fim do mês, desenvolvemos programas de “dinheiro por trabalho” e lançamos projetos que proporcionam aos agricultores ferramentas e mudas para melhorar suas colheitas.

Estamos fazendo o possível para assegurar que as pessoas feridas e doentes recebam assistência médica ao apoiar os serviços de emergência do Ministério da Saúde e o Crescente Vermelho da Palestina. Essa Sociedade Nacional oferece assistência emergencial pré-hospitalar e serviços de assessoria, além de muitas outras tarefas humanitárias que realiza dentro da Faixa de Gaza. O CICV também apoia o Centro de Membros Artificiais e Pólio, o único estabelecimento desse tipo na Faixa de Gaza, que atendeu a mais de mil pacientes em 2010.

Nossos engenheiros hídricos concentram seus esforços no tratamento de águas residuais. Em uma estação que foi recentemente concluída em Rafah, parte dos resíduos tratados pode ser direcionada e encher o aquífero, que continua sendo a única fonte de água limpa na Faixa de Gaza. Graças a essas últimas melhorias na estação de tratamento, os resíduos tratados poderão, em breve, ser usados para fins agrícolas, como a irrigação de árvores.