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Síria: muito mais deve ser feito

14-11-2012 Entrevista

Dezenove meses de combates implacáveis causaram destruição maciça, milhares de vítimas e refugiados e uma quantidade cada vez maior de civis sendo privados de necessidades básicas como comida, água e assistência médica. O chefe de operações do CICV para o Oriente Próximo e Médio, Robert Mardini, explica a situação.

Quais são as suas principais preocupações na Síria?

A situação na Síria deteriora-se continuamente e as necessidades humanitárias não param de aumentar. A maioria dos centros urbanos e grandes parcelas das áreas rurais são diretamente afetadas pelo intenso conflito. À medida que a violência se intensifica, em particular no meio urbano, ficamos cada vez mais preocupados com a capacidade de todas as partes do conflito de respeitarem os princípios básicos do Direito Internacional Humanitário, como a distinção entre civis e bens civis, por um lado, e os objetivos militares, por outro; bem como de tomarem as precauções com relação aos meios e métodos de guerra.
 

A violência armada prolongada na Síria faz com que uma crescente quantidade de pessoas abandonem suas casas para fugir para outras regiões do país ou para países vizinhos, o que dá uma dimensão regional ao conflito.
 

Em uma situação como esta, nosso maior desafio é chegar até as áreas onde as necessidades são mais agudas, onde ocorrem os combates mais intensos.  
 

Poderia nos dar uma ideia das necessidades humanitárias atuais?

É muito difícil obter dados confiáveis sobre a amplitude das necessidades na Síria ou mesmo sobre o número de deslocados, por exemplo. Entretanto, é evidente que grandes quantidades de vítimas estão recebendo pouca ajuda porque a situação de segurança deteriorada faz com que seja muito árduo chegar até eles. Após já haver ajudado mais de um milhão de pessoas neste ano, a expectativa é de que até o final do ano esta cifra chegue a 1,5 milhão.
 

Junto com o Crescente Vermelho Árabe Sírio, fazemos todo o possível para ter acesso aos mais necessitados. Em 3 de novembro, por exemplo, as duas organizações entraram na área sitiada da Cidade Antiga de Homs, distribuindo a tão necessária ajuda a centenas de civis encurralados ali nos últimos quatro meses. Esta missão foi o resultado dos contínuos esforços do CICV de dialogar com todas as partes envolvidas no conflito, mais a insistência sobre a natureza neutra, imparcial e independente de nossas atividades. Chegar até a Cidade Antiga de Homs foi uma operação complexa, estivemos negociando nas linhas de frente até o último minuto.
 

Quais são agora as prioridades do CICV na Síria?

Continuamos o diálogo com todos os que participam dos combates para tentar assegurar o apoio às nossas atividades humanitárias neutras, imparciais e independentes. É da maior importância a segurança das nossas equipes e sua capacidade de chegarem até as áreas mais duramente afetadas pela violência. Os confrontos armados tiveram um efeito particularmente severo nas populações de Homs, Aleppo, Idlib, Hama, Deir Ez-Zor, Damasco e região rural de Damasco. Concentramo-nos em aumentar nossas presença no terreno junto com o Crescente Vermelho Árabe Sírio.
 

As recentes missões à província de Homs possibilitou que alcançássemos centenas de civis, além de hospitais e outros centros de saúde. Embora este seja um avanço positivo, ainda há muito mais a ser feito. Temos que regressar à Cidade Antiga de Homs para fornecer apoio contínuo aos civis que se encontram ali. Por toda a Síria e em especial no norte, há muitos locais onde os civis vivem em condições precárias, sem acesso à ajuda médica, comida ou outras necessidades básicas.
 

Estão tomando medidas adicionais para proteger as equipes do CICV nesta situação de segurança volátil?

Avaliamos com muito cuidado a segurança das nossas equipes e o impacto das nossas operações. O diálogo com todas as partes é essencial para assegurar que as equipes tenham segurança e capacidade para realizarem suas atividades humanitárias neutras, imparciais e independentes. Nesse momento em que as necessidades são cada vez mais prementes, continuamos a apelar a todas as partes que respeitem o pessoal das organizações humanitárias e os emblemas da cruz vermelha e do crescente vermelho.
 

A coragem dos voluntários do Crescente Vermelho Árabe Sírio e seu trabalho incalculável no terreno, sob condições extremamente difíceis, é impressionante. Nossa parceira com eles possibilitou que pudéssemos ajudar muitas pessoas necessitadas, mas correndo riscos muitas vezes. Seis membros do Crescente Vermelho Árabe Sírio morreram no cumprimento do seu dever humanitário. Dada a complexa situação atual na Síria e as condições de segurança deterioradas, é um desafio permanente conseguir um equilíbrio entre a necessidade de garantir a segurança dos trabalhadores humanitários e a de levar ajuda sem discriminação a todas as pessoas que dela precisam.


Foto

Robert Mardini e o presidente do CICV, Peter Maurer, reunidos com deslocados durante a visita do presidente em setembro de 2012. 

Damasco Rural, Síria.
Robert Mardini e o presidente do CICV, Peter Maurer, reunidos com deslocados durante a visita do presidente em setembro de 2012.
© CICV / Ibrahim Malla / sy-00163

Um garoto carrega seu irmão ferido em um hospital improvisado. 

Perto de Homs.
Um garoto carrega seu irmão ferido em um hospital improvisado.
© Reuters

As pessoas fogem das suas casas após um bombardeio. 

Houla.
As pessoas fogem das suas casas após um bombardeio.
© Reuters

Uma garota carrega uma sacola próximo a lojas danificadas. 

Juret al-Shayah, Homs.
Uma garota carrega uma sacola próximo a lojas danificadas.
© Reuters