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Crise alimentar: não é suficiente só distribuir comida

16-10-2008 Entrevista

À medida que a crise mundial de alimentos se agrava, Alian Mourey, do CICV, sublinha a necessidade de analisar as causas, que podem variar dependendo da região. O autor do manual de nutrição do CICV explica porque não é suficiente simplesmente atender os necessitados com suprimentos de alimentos.

     

© ICRC / P. Yazdi / V-P-SD-E-00376 
   
Dunay, Somália. Famílias nômades recebem comida do CICV. 
               
© ICRC / C. De Keyzer / V-P-SD-E-00764 
   
Provincia de Kivi Sul, República Democrática do Congo. Mulheres trabalham nos campos, no âmbito de um projeto de segurança econômica apoiado pelo CICV. 
               
© ICRC / B. Heger /V-P-SD-E-01658 
   
Região de Kutum, Sudão. Pessoal do CICV vacina caprinos para ajudar a preservar rebanhos. 
           

  O seu manual de nutrição propõe uma solução para a atual crise alimentar?  

     

A crise alimentar é provocada pela escalada dos preços dos produtos agrícolas básicos, do aumento sem precedentes nos preços do petróleo, e de muitos outros fatores. O conflito armado e a seca apenas fazem crescer o problema. Por isso, a crise alimentar não atinge somente os mais pobres entre os pobres, mas simplesmente todos os pobres. Para solucioná-la, é preciso fazer mudanças estruturais na economia mundial, como a introdução de limites na especulação.

O CICV não tem uma solução pronta para propor uma política mundial neste setor. No entanto, nosso manual de nutrição explica como analisar e entender as causas da desnutrição em uma determinada comunidade. Nossas descobertas foram testadas durante mais de duas décadas de ajuda às vítimas de conflitos armados e outras formas de violência. Quando todos os moradores de um vilarejo abandonam suas casas, em geral perdem seu meio de sobrevivência de um dia para o outro, e precisam depender de ajuda para sobreviver. É da maior importância que os funcionários humanitários sejam capazes de entender as necessidades particulares das pessoas que estão tentando ajudar, e de tomar medidas que possam ir além de garantir a sua mera sobrevivência.

  Como o manual pode ajudar os responsáveis pela política de alimentos e os que trabalham nesta área a combater a desnutrição?  

       

É um livro em que os que atuam na área podem encontrar uma ampla análise das muitas causas da desnutrição, dependendo do contexto. Naturalmente, tendo em vista que é um manual de nutrição, é limitado a este campo, mas não insiste no fato de que a desnutrição precisa ser vista como um sintoma. É tão importante enfrentar as causas como tratar os sintomas.

As maneiras clássicas de lidar com a nutrição não são suficientes. É até mais importante restabelecer os meios de sobrevivência, oferecer acesso à saúde e à água, e garantir que as pessoas tenham uma moradia decente. Esses objetivos não podem ser tratados em um manual de nutrição, mas deve-se reconhecer que os diferentes tipos de trabalho humanitário desempenham papéis complementares. O desejo de adotar uma abordagem multidisciplinar também explica porque a nutrição foi inserida na unidade de segurança econômica do CICV.

  Então quais são as suas descobertas mais importantes no que se refere à ajuda necessária?  

     

A descoberta mais óbvia é que raramente é suficiente apenas distribuir a comida, embora às vezes você possa precisar fazer isso como medida especial. Nas regiões do centro e do sul da Somália, os últimos meses foram particularmente difíceis para a população. Os repetidos confrontos armados só pioram as dificuldades provocadas pela grave seca, a inflação alta e a subida mundial dos preços das commodities.

Em junho, o CICV resolveu aumentar significativamente o trabalho de socorro que desenvolve naquela região. Não apenas distribuímos rações de comida desidratada por quatro meses, para quase 500 mil pessoas, mas também levamos de caminhão mais de dois milhões de litros de água potável, todos os dias. Além disso, distribuímos material de abrigo e gêneros domésticos de primeira necessida de para mais de 200 mil deslocados, e aumentamos o nosso apoio para as clínicas de saúde dirigidas pela Sociedade do Crescente Vermelho Somali. No entanto, em longo prazo, é necessário encontrar formas de as comunidades atingidas poderem voltar a ter auto-suficiência.

  O que o CICV está fazendo para ajudar as comunidades a restabelecerem seus meios de sobrevivência?  

     

A gama de atividades é tão diversificada quanto as necessidades – tudo depende das circunstâncias. Na República do Congo, as atividades agrícolas no departamento de Pool estagnaram por causa dos conflitos que se seguiram à primeira guerra civil em 1997. Depois que a calma voltou, muitas vezes os ex-refugiados descobriram que suas casas haviam sido saqueadas e as plantações tinham sido devastadas. Para piorar as coisas, a maioria das plantações estava atingida por uma doença.

Nossa resposta foi fornecer aos agricultores instrumentos agrícolas e sementes mais resistentes a doenças. As distribuições foram sempre combinadas com treinamento e aconselhamento quanto a melhor forma de plantar. Em outros lugares, nossos funcionários ajudaram comunidades de pescadores fornecendo varas de pescar, e organizaram vacinações em massa de camelos e cabras, a fim de ajudar os pastores a manter seus rebanhos. Às vezes também oferecemos empréstimos ou doações.

  Como a assistência protege as pessoas atingidas por conflito armado?  

     

Nosso mandato é para proteger as pessoas atingidas por conflitos armados ou distúrbios internos. Nossos programas de segurança econômica são, portanto, ligados não apenas aos programas de saúde ou a programas que visam oferecer acesso à água e a saneamento adequado, mas também, tanto quanto possível, aos esforços de proteção. Quando distribuímos gás de cozinha para famílias deslocadas que se encontram nos campos de refugiados, por exemplo, ajudamos a diminuir a necessidade de as mulheres saírem em busca de lenha e colocarem sua segurança física em risco.