Crise alimentar: o crescente custo humano
27-05-2008 Entrevista
No momento em que o Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho se prepara para entrar em ação para fazer frente à crise alimentar sem precedentes, a chefe da Unidade de Segurança Econômica do CICV, Bárbara Boyle Saidi, examina as causas por trás do problema e as estratégias necessárias para enfrentá-lo.
A grande crise alimentar que começou nos últimos meses está atingindo milhões de pessoas em todo o mundo e representa uma ameaça para muitas mais. Os preços da produção agrícola em ascensão, ao lado de um aumento sem precedentes dos preços do petróleo, estão trazendo sérias dificuldades, especialmente para os mais vulneráveis. Ninguém sabe até quanto os preços dos grãos podem chegar. A crise levou revoltas alimentares em mais de 30 países até agora – na África, Oriente Médio, Ásia e Caribe. O ciclone Nargis, que destruiu Mianmar, contribuiu para a situação trágica. Preocupado com esses acontecimentos, o Movimento do Crescente Vermelho e da Cruz Vermelha Internacional está se preparando para enfrentar esta situação.
A crise está piorando a cada dia. Quais são os principais fatores que contribuem para isso?
Estamos observando que está em curso uma crise estrutural mais ampla, da qual a crise alimentar é apenas um de vários sintomas. Vários fatores relacionados entre si estão em jogo. A seca e a mudança climática levaram a uma redução do crescimento da produção agrícola: na Austrália, a produção de trigo caiu para 52% entre 2004 e 2006, e a produção de grãos caiu em 13% nos Estados Unidos e em 14% na União Européia, no mesmo período. O uso de biocombustíveis produzidos principalmente com base no milho também está contribuindo de forma significativa para a carência atual de alimentos. Por último, as mudanças nos hábitos alimentares no Ocidente e nos chamados mercados emergentes basicamente na Ásia, ao lado da urbanização rápida, aumentaram a demanda por alimentos, pressionando ainda mais a cadeia de produção e fornecimento. A especulação em torno das commodities alimentares também é um grande fator desestabilizador.
Quais são as principais conseqüências dessa crise em médio e longo prazo?
Como um aspecto da atual crise econômica, a crise alimentar exige uma reforma estrutural básica para estabilizar a situação em longo prazo. No entanto, em curto prazo estamos em meio a um círculo vicioso no qual os consumidores são prejudicados de diversas maneiras.. Os protestos contra os aumentos nos preços estão acontecendo diariamente, gerando todo tipo de tensão. Deve-se ter em mente que nos países desenvolvidos, o consumidor médio gasta cerca de 15% de sua renda em comida. Nos países emergentes, esta proporção chega a cerca de 30%, e nos países atingidos por conflitos armados, secas ou outras tragédias, mais da metade – até três quartos – da renda de uma família vai para a comida. Os aumentos do tipo que estamos observando inevitavelmente prejudicam as despesas com outras necessidades básicas, como saúde e escola. Em muitos países onde o CICV atua tem havido um declínio gradual das condições de moradia e os principias indícios disso são: a venda de jóias; a redução do dinheiro aplicado nas cadernetas de poupança; a venda de terras ou outros bens produtivos; e por último, a redução no consumo de comida, o que poderia levar à fome. No entanto, sem ajustes estruturais, o pequeno produtor agrícola não será capaz de se beneficiar dos atuais preços altos, por falta da garantia de acesso aos principias mercados.
As pessoas que estão lutando para fazer frente às conseqüências de conflitos armados ou outras situações de violência estão enfrentando mais um problema, como vemos no Chade, na Somalia, Iêmen, Afeganistão e Haiti, para mencionar alguns países. Os detidos devem ser atingidos se a alta nos preços dos alimentos não for compensada nos orçamentos das prisões, e se suas famílias não puderem apoiá-los. A dependência das populações deslocadas e dos feridos e enfermos com relação à a ajuda dispensada também deve crescer.
Como o CICV vai ajudar as pessoas mais vulneráveis atingidas pelos conflitos armados e pela crise nos preços dos alimentos?
Nos países atingidos por conflitos armados e outras situações de violência, o CICV está pronto para acelerar a desposta humanitária às necesidades crescentes provocadas ou exacerbadas pelo aumento dos preços de comida. O CICV acaba de pedir, por ejemplo, recursos adicionais para ampliar suas operações no Iêmen e na Somália.
O CICV exorta as autoridades, particularmente as responsáveis pelo cumprimento das leis, a proteger as populações de qualquer possível explosão de violência ligada aos altos preços dos alimentos, e a tomar todas as medidas necessárias para evitar o uso excessivo da força quando confrontadas com protestos e distúrbios de massa. As pessoas feridas por ocasião desses protestos devem receber atenção médica especial, e o CICV está pronto para apoiar as Sociedades Nacionais do Crescente Vermelho e da Cruz Vermelha no que tange à administração de primeiros socorros àqueles que podem precisar.
Em termos gerais, quais são as implicações para o Movimento?
Nos países atingidos pela crise, os funcionários locais do CICV e da Federação Internacional e da Sociedade Nacional sofrerão conseqüências, na qualidade de consumidores. Os mais vulneráveis são, muitas vezes, voluntários da Sociedade Nacional.
Em termos de resposta, as agências humanitárias devem demandar mais das Sociedades Nacionais para que estas respondam às necesidades imediatas provocadas pela crise de alimentos.
O CICV e a Federação Internacional estão empreendendo um diálogo que, em breve, deve levar a uma estratégia de todo o Movimento.
Como está a coordenação dentro do Movimento e com os parceiros externos como as agências especializadas da ONU?
Mantemos um diálogo permanente com o Programa Mundial da Fome (WFP), principal fonte de ajuda alimentar em nível internacional. O diálogo se concentra em conseguir a cobertura total das necessidades de forma que o CICV e o WFP não acabem por competir um com o outro. De fato, a ajuda alimentar é apenas uma parte dos programas de assistência do CICV. Da mesma forma, estamos em contato regular com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação. Também mantemos consultas junto ao Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas e a Organização Mundial do Trabalho, principalmente com relação à evolução do mercado de trabalho (e seus efeitos na urbanização) nos contextos em que o CICV opera. Essas discussões possibilitam que o CICV aperfeiçoe seus programas micro-econômicos de apoio às vítimas de conflito que perderam seus meios de sobrevivência, a fim de que elas comecem a trabalhar em uma nova profissão ou abram seu próprio negócio. Por tanto, faz mais sentido oferecer treinamento em eletro-mecânica, se há falta de mão de obra especializada nesta área, que em fabricação de sapatos, se este mercado estiver em declínio ou estiver saturado. Dentro do Movimento, o CICV trabalha em parceria com a Federação Internacional e com várias Sociedades Nacionais que fizeram deste tema uma prioridade operacional.
O CICV vai precisar adaptar sua política de segurança econômica tendo em vista a crise alimentar e, neste caso, de que maneira?
Não inicialmente. A principal preocupação do CICV é, por um lado, apontar exatamente onde, na cadeia alimentar, existe um problema e parar a espiral para baixo, e por outro, reativar a economia doméstica. Se, por ejemplo, há comida disponible, mas está muito cara, o que seria o contrário de não ter comida nenhuma, deve ser preferible fornecer assistência em dinheiro ou vouchers de comida que ajuda alimentar direta. Esta informação também nos permite decidir em que ponto agir no nível do pequeno produtor (fornecimento) ou do consumidor (demanda). Com relação a isso, a resposta humanitária só pode ser modesta, tendo em vista a amplitude da crise: só os ajustes estruturais fornecerão uma resposta viável de longo prazo. A mudanza, portanto, deve se concentrar no volume da assistência fornecida e não na política como tal.
O ciclone Nargis, que atingiu Mianmar em maio, piorou as coisas…
É uma tragédia para o fornecimento de comida: a área de Mianmar devastada pelo ciclone produz mais de três quartos do arroz do país, a metade do frango e pouco menos da metade da carne suína. Não apenas a atual colheita de arroz está quase certamente perdida, mas o setor de pesca também foi duramente atingido. Ainda é cedo demais para saber o impacto total do ciclone, mas os danos são extensos e já podemos prever problemas de longo prazo, notadamente com relação à produção de arroz.

