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América Latina: os presídios são focos de tuberculose

24-03-2010 Entrevista

A tuberculose constitui um problema grave de saúde pública. Nos presídios, a incidência da doença é até 20 vezes maior do que na população em geral. O CICV apoia diferentes sistemas de saúde penitenciária na América Latina, segundo conta Alain Vuilleumier, médico do CICV para Bolívia, Equador e Peru.

     
 
   
Alain Vuilleumier 
               
©CICV/M. Mejía 
   
Presídio feminino "Santa Mónica", em Chorrillos, Lima, Peru. O presídio conta com uma sala de hospitalização e tratamento de TB. 
       

       
©CICV/M. Mejía 
   
Na América Latina, os presídios são focos de tuberculose, pois têm alta incidência de casos. 
       

       
©CICV/M. Mejía 
   
Presídio de Lurigancho, Lima, Peru. Um dos presídios com maior incidência de TB no país. O sistema penitenciário adquiriu equipamentos através dos quais, junto com uma estratégia sanitária, busca diagnosticar a doença com rapidez. 
       

       
©CICV/M. Mejía 
   
Presídio feminino "Santa Mónica", em Chorrillos, Lima, Peru. As promotoras de saúde estão sempre alertas aos sintomas da doença e conscientizam as internas para receberem tratamento. 
           

  Quais são os problemas de saúde mais frequentes nos presídios da América Latina?  

Infelizmente, na América Latina não existe um sistema de informação no âmbito da saúde penitenciária. Por isso, é difícil conhecer e medir os problemas reais de saúde da população privada de liberdade. Alguns relatórios nos dão indícios sobre a situação da tuberculose, uma das doenças que mais preocupam a saúde penitenciária e pública.

Em 2003 e em 2007, a Organização Panamericana da Saúde realizou duas pesquisas sobre a situação da tuberculose nos sistemas penitenciários em vários países da América Latina. Os dois estudos mostram que nos presídios da região existe uma incidência de tuberculose até 20 vezes mais elevada do que na população em geral. Os presídios do Peru e da Bolívia são os mais afetados por essa doença.

  Por que os presídios são considerados focos de tuberculose?  

     

As condições particulares dos presídios permitem o desenvolvimento, a transmissão e a complicação da doença, o que explica a alta porcentagem de casos de pacientes com tuberculose.

Para que esta enfermidade não se espalhe, é importante oferecer um espaço saudável com ventilação e luz natural, além de combater a aglomeração. A isto se soma a necessidade de oferecer uma boa alimentação para que os internos possam ter resistência à doença. Na América Latina, a problemática da TB nos presídios é abordada de maneira incompleta e, por isso, facilita o desenvolv imento da tuberculose e, o que é pior, de bacilos resistentes aos medicamentos.

  Como podemos controlar o avanço da doença no ambiente carcerário?  

     

Para conseguir um bom controle da doença, é fundamental oferecer a possibilidade de isolamento respiratório dos casos suspeitos ou confirmados no início do tratamento, que é a etapa mais contagiosa. Existem sistemas penitenciários que, sim, têm tal opção, mas na maioria desses sistemas na América Latina, não há espaço para tal isolamento. É um dos elementos que nos advertem que o controle da doença nos presídios não está sendo bem feito. Mas esse é apenas um dos indicadores, há muitos outros, sobretudo vinculados à dificuldade de diagnóstico e de tratamento.

Quando há um caso suspeito de tuberculose, este deve ser isolado, investigado e diagnosticado e, no caso de ser confirmado, o tratamento deve ser iniciado rapidamente. A medicação dura seis meses e todos os remédios devem ser tomados diariamente. É um processo pesado, que requer constância e cumprimento. Se interrompido, pode causar a resistência do bacilo aos fármacos, o que complica um novo tratamento.

  Qual é o papel dos promotores de saúde no interior dos presídios?  

Os promotores de saúde têm um papel fundamental, já que são eles que treinam os internos quanto aos sintomas da doença. São os próprios internos que têm de recorrer ao serviço de saúde quando apresentam tais sintomas e, por isso, devem conhecer a sintomatologia. Os promotores de saúde treinam e educam a população e facilitam a transferência do detento.

     

  É possível controlar a disseminação dessa doença entre a população carcerária e a população que os visita?  

     

Os presídios constituem verdadeiros focos de tuberculose porque concentram uma porcentagem muito elevada de casos. À tuberculose se soma outra grave doença, a Aids, sobretudo para quem sofre de um déficit imunológico que favorece o desenvolvimento da tuberculose.

Os presídios não são sistemas herméticos, há internos que saem, pessoas que visitam, familiares, equipe médica, todos podem ser vetores da doença entre o meio penitenciário e o extrapenitenciário. Em termos de saúde pública, é possível controlar a doença, mas é fundamental atuar sobre a grave situação da tuberculose nos presídios. Isso é relevante para controlar a doença a nível nacional ou continental.

  Todos podemos nos contagiar com a doença?  

     

Claro, muitas pessoas se contaminam, se infectam, mas não desenvolvem a doença porque seu sistema imunológico pode controlar o bacilo. Muitas dessas pessoas contagiadas convivem com o bacilo no organismo, mas de forma controlada. Se, no futuro, apresentarem um déficit imunológico, a doença pode surgir. Todos estamos em risco.

  O Peru é um dos países da América Latina que tem uma das maiores taxas de incidência de tuberculose nos presídios. Que apoio o CICV proporciona para combater a doença?  

Desde 2000, o CICV tem trabalhado no Peru com a Subdireção de Saúde Penitenciária do Instituto Nacional Penitenciário. Atualmente, o CICV está reduzindo aos poucos suas atividades para dar lugar à Subdireção de Saúde Penitenciária, que dará continuidade tanto aos prog ramas como à reforma de seu próprio sistema de saúde. Há avanços no controle da tuberculose, do HIV e também nas formas de garantir aos internos um seguro obrigatório. Outras organizações estão apoiando a Subdireção de Saúde Penitenciária para financiar um estudo de prevalência da Aids na população privada de liberdade.

No Peru, a situação da tuberculose nos presídios nunca esteve tão controlada como agora. Foram feitos muitos esforços e grandes projetos de fortalecimento de controle de tuberculose e da Aids financiados pelo Fundo Mundial. As possibilidades de controle melhoraram muito e temos estatísticas cada vez mais confiáveis, estamos nos aproximando mais e mais do problema no Peru, mas não podemos baixar a guarda. Temos de estar sempre apoiando o pessoal de saúde, é necessário estabelecer um planejamento de atividades que sejam o mais adequadas possível ao problema. É o pessoal de saúde que deve começar as estratégias de controle permanentemente. É, principalmente, nesses últimos aspectos de supervisão e planejamento que o CICV continua oferecendo seu apoio à saúde penitenciária no Peru.