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Mais necessidades, menos recursos: garantir cuidados médicos adequados para as mulheres durante o conflito armado

04-03-2009 Entrevista

Em áreas devastadas pelo conflito, com freqüência, as necessidades médicas específicas das mulheres são negligenciadas e ignoradas. Mas as mulheres estão, particularmente, em risco quando as bombas caem. Aproveitando o Dia Internacional da Mulher, Nadine Puechguirbal, conselheira do CICV para mulheres e a guerra, explica os desafios que as mulheres enfrentam na guerra e porque elas precisam ter mais acesso aos cuidados médicos.

 
       
8 de Março: Dia Internacional da Mulher  

       
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    O DIH determina que as necessidades específicas, com relação à proteção, à saúde e à assistência, de mulheres afetadas por conflitos armadas sejam respeitadas. 
    Em cumprimento a esta regra, o DIH tem como objetivo preservar a saúde e o bem-estar das mulheres em situação de conflito armado ao exigir:    
  • absoluto respeito à proibição de estupro e outras formas de violência sexual
  • cuidado especial para com as mulheres grávidas e as mães de crianças pequenas
  • assistência médica adequada para mulheres, inclusive para mulheres em detenção
  • proteção dos estabelecimentos, pessoal e material médico
  • acesso seguro para os profissionais de socorro humanitário, inclusive para as mulheres com necessidades
     
           
     
 
   
Nadine Puechguirbal, conselheira do CICV para mulheres e a guerra. 
         

  Quais são os problemas de saúde mais graves que as mulheres enfrentam durante um conflito armado?  

Para começar, é muito difícil para elas terem acesso seguro aos cuidados médicos. Os conflitos quase sempre destroem as infra-estruturas e os materiais médicos e, com freqüência, forçam o pessoal sanitário a fugir. As mulheres, portanto, enfrentam um problema duplo: justo quando elas podem vir a precisar mais dos cuidados médicos, elas, em geral, têm que viajar para lugares mais distantes e gastar mais dinheiro para receber cuidados de nível adequado.

Isso é problemático por várias razões. Primeiro, a mulher grávida e a lactante enfrentam emergências médicas de risco e necessitam assistência médica imediata onde estão. Segundo, as mulheres podem ter mais dificuldade de se deslocar durante o conflito. Isso pode ocorrer por conta da ameaça de violência, mas também pode ser um resultado de restrições culturais que proíbem as mulheres de viajarem sem um parente homem. Essa restrição se torna ainda mais onerosa quando os homens da família não estão disponíveis porque estão lutando, fugiram da área, morreram ou estão feridos. A perda do principal ganha-pão também implica que as mulheres, com freqüência, se encontrem com pouco o nada de dinheiro. Como resultado, a guerra pode pôr as mulheres, que sempre dependeram dos médicos locais, em uma situação na qual cuidar da saúde de maneira adequada é inacessível e que elas não poderiam pagar a consulta, mesmo que conseguissem chegar lá.

O conflito também aumenta o risco de a mulher ser vítima de violência sexual, especialmente, se estiver sozinha, se for muito jovem ou se for a chefe do seu lar e, portanto, é obrigada a assumir tarefas normalmente realizadas pelo homem da família. O estupro pode ter graves consequências na saúde física e psicológica da mulher e elas podem incluir doenças sexualmente transmissíveis ou problemas na saúde reprodutiva. Em casos assim, é extremamente importante que a vítima de abuso sexual receba atendimento médico o quanto antes para tratar suas lesões e para prevenir infecções sexualmente transmissíveis, incluindo o HIV. Uma vez que ela tenha recebido o tratamento para seus sintomas físicos, ela precisará de serviços psicológicos para ajudá-la a lidar com o trauma psicológico e para mediar entre ela, sua família e a comunidade de modo a evitar que ela seja estigmatizada ou rejeitada.

  Quanto à saúde reprodutiva, que necessidades específicas as mulheres têm durante o conflito?  

As mulheres necessitam acesso ininterrupto a um sistema de saúde que funcione, principalmente devido ao risco de morte, doenças e deficiências relacionadas à gravidez e parto, em especial em um país pobre. O conflito armado desestrutura sistemas de saúde já frágeis e pode criar circunstâncias intoleráveis para as grávidas e lactantes. Elas necessitam acesso total e imediato aos cuidados antes e depois do nascimento do bebê, juntamente com assistência médica durante o parto. Além da maternidade segura, as necessidades da saúde reprodutiva da mulher incluem proteção contra a violência sexual e a prevenção e o tratamento de infecções sexualmente transmissíveis.

A cada ano, mais de meio milhão de mulheres morre de complicações na gravidez ou no parto, incluindo cerca de 70 mil meninas e jovens entre 15 e 19 anos. Por coincidência, dentre os dez países com os mais altos índices de risco de morte para as mães, a maioria está em guerra hoje ou em situação de pós-conflito, como Afeganistão, Serra Leoa, Chade, Angola, Libéria, Somália e República Democrática do Congo.

O conflito pode enfraquecer a saúde reprodutiva da mulher ao limitar a disponibilidade de alimentação adequada para as grávidas e lactantes e ao desestruturar as campanhas de imunização.

  Que efeitos o deslocamento pode ter sobre os problemas de saúde?  

O deslocamento pode dificultar ainda mais para as mulheres terem acesso a cuidados médicos de qualidade. Por exemplo, mesmo se as mulheres normalmente têm acesso a bons serviços de saúde, elas podem ser obrigadas a fugir, privando-as de acesso à contracepção e, como consequência, levando a um alto índice de gravidez e a uma maior necessidade de serviços de cuidados reprodutivos. O deslocamento também pode privar as mulheres de si stemas de assistência e dificultam que elas possam compartilhar conhecimentos sobre como cuidar das crianças e cuidados básicos da saúde e da higiene. Isso pode afetar a saúde de toda a família. A separação da rede social pode causar também grande estresse e ansiedade nas mulheres.

  Que problemas de saúde específicos as mulheres encontram quando em detenção?  

As mulheres em detenção têm necessidades médicas específicas, que diferem das dos homens. Elas são mais vulneráveis a problemas de saúde por causa de seus sistemas reprodutivos – a menstruação aumenta o risco de anemias e deficiência de minerais, por exemplo. As mulheres privadas de liberdade também necessitam check-ups médicos regulares, remédios e tratamentos, incluindo cuidados quanto à ginecologia, à obstetrícia e pré e pós-parto. Isso pode se tornar um problema se uma equipe – não composta por médicos – controla o acesso a tratamentos ou se a redução de recursos limita a disponibilidade da qualidade do atendimento médico. Tanto as mães quanto os bebês estão vulneráveis nos dias e nas semanas que seguem ao parto. É um período crítico, durante o qual as visitas pós-parto, a higiene adequada e o aconselhamento sobre os sinais perigosos da saúde materna e do bebê podem fazer a diferença entre a vida e a morte.

  O que o CICV faz quanto à saúde da mulher em conflito armado?  

O CICV treina enfermeiras, médicos e equipe hospitalar locais, mulheres profissionais da saúde da comunidade e tradicionais parteiras para poderem tratar as pacientes mulheres eficazmente, identificar vítimas de violência sexual e indicá-las aos serviços médicos adequados. Este é o caso da Libéria, por exemplo.

O CICV também treina voluntários da comunidade para aco nselhar vítimas de estupro. Por exemplo, o CICV apóia as Maisons d'Écoute na República Democrática do Congo. Esses centros oferecem um lugar seguro para as vítimas de estupro falarem sobre suas experiências e receberem o apoio de que necessitam para se reintegrarem a suas comunidades.

Onde as mulheres não têm serviços de saúde adequados por causa do conflito armado, o CICV aborda as autoridades com vistas a encontrar uma solução. O CICV também apóia a construção e reforma de instalações médicas, como hospitais, centros de saúde, centros de reabilitação física, levando em consideração as necessidades específicas das mulheres e das crianças. Além disso, o CICV apóia cuidados de cirurgias emergenciais, obstetrícia e pediatria, que pode incluir o fornecimento de equipamentos, material médico e treinamento.