Lembranças de Angola
28-04-2009 Galeria de fotos
Sete anos depois do fim de um terrível conflito que durou mais de um quarto de século, o CICV reduz suas atividades em Angola. Em julho de 2009, a organização fechará sua delegação em Luanda, mas continuará monitorando a situação no país a partir de sua delegação vizinha na África do Sul. A equipe do CICV que trabalhou na Angola devastada pela guerra desde 1975 compartilha suas lembranças.
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Sete anos depois do fim de um terrível conflito que durou mais de um quarto de século, o CICV reduz suas atividades em Angola. Em julho de 2009, a organização fechará sua delegação em Luanda, mas continuará monitorando a situação no país a partir de sua delegação vizinha na África do Sul. A equipe do CICV que trabalhou na Angola devastada pela guerra desde 1975 compartilha suas lembranças.
« O Planalto central foi destruído pela fome – a consequência direta do conflito. A maioria das minhas lembranças mais claras são inevitavelmente cenas de desespero e morte. Mas houve um dia durante o Carnaval, quando fomos acordados ao som de músicas e danças. Foram horas mágicas de celebração durante as quais esquecemos a tragédia que nos rodeava. »
Brigitte Meng Comninos, delegada 1980-81
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« Lembro-me do grande sorriso de uma menina quando experimentava suas novas próteses no centro de próteses de Bomba Alta. Era uma questão de honra para ela mostrar a sua mãe e ao técnico que ela podia usá-las, independente da dificuldade que era para ela caminhar. Ela tinha uns onze anos. Certamente, conhecia a guerra e tinha toda a vida pela frente. Tinha a vida, mas não as pernas. »
Catherine Gendre, delegada 1993, delegada-chefe 2001-02
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Além de rastrear e reunir famílias, o CICV também esteve envolvido em várias outras atividades em Angola, como assistência médica, reabilitação física, serviços de água e saneamento, bem-estar dos detidos, proteção da população civil e promoção do Direito Humanitário Internacional entre os portadores de armas.
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Por quase três décadas, o CICV apoiou três centros de reabilitação e de próteses em Angola. Desde a abertura do primeiro centro em Huambo em 1979, os centros já produziram 32 mil membros artificiais, o que permitiu que milhares de amputados pudessem voltar a andar e retomar suas atividades.
Em 2008, o CICV transferiu o programa de reabilitação física para vítimas de minas terrestres para o Ministério da Saúde e fechou a subdelegação em Huambo.
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« As consequências diretas do conflito interno, que terminou em 2002, diminuíram consideravelmente. Portanto, hoje, não é necessário o CICV manter uma presença constante em Angola. No entanto, vamos monitorar a situação de perto, de nossa delegação em Pretória. As necessidades da população serão supridas por outros, por exemplo, pelas autoridades angolanas, a quem o CICV entregou equipamentos importados para colocação de próteses para o uso nos três centros que a organização apoiava, e a Cruz Vermelha angolana, que agora administrará o programa de restabelecimento de laços familiares. Fizemos o possível para assegurar que essa transição fosse suave.»
Maryse Limoner, chefe de delegação 2007-09
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« Em 1999, foi a primeira vez que usamos o bunker da delegação durante um bombardeio da UNITA*, um de nossos colegas angolanos, Nimy, ficou conosco. Eu lhe disse para ficar com sua família, mas ele dizia que ficaria conosco para tentar nos proteger dos combatentes da UNITA, caso eles tentassem entrar na cidade. Nunca em minha vida tinha sentido tanto respeito por uma pessoa como naquele momento. Nos dias que se seguiram, outros colegas angolanos ficaram conosco. Ficamos todos muito emocionados.»
Carlos Batallas, chefe da subdelegação de Huambo 1998-99
* UNITA: União Nacional para a Independência Total de Angola
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O CICV primeiro começou a trabalhar em Huambo em 1975, quando levou socorro e material médico. Mas somente em 1979 a organização estabeleceu presença constante na cidade.
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Rosália recebe uma mensagem Cruz Vermelha de seu marido. Esse voluntário da Cruz Vermelha consegui encontrar Rosália depois de procurá-la durante uma hora, indo de porta em porta.«Nas maiores distribuições de socorro durante a guerra, explicávamos às pessoas que elas poderia mandar mensagens Cruz Vermelha para seus familiares com os quais haviam perdido o contato. Em poucos minutos havíamos recolhido milhares de mensagens.»
Joachim Chinguto Saundi, membro da equipe do CICV em Huambo
Desde 2002, quase 230 mil mensagens Cruz Vermelha foram entregues e mais de 203 mil foram recolhidas no país, o que possibilitou que milhares de pessoas encontrassem seus entes queridos.
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«O compromisso de meus amigos e colegas angolanos era inestimável. Era maior do que a fome que corroia suas próprias crianças a dia após dia. Apesar da desnutrição que afetava suas próprias famílias, eles vigiavam o correto uso dos alimentos para socorro do CICV com muita atenção, ofendendo-se profundamente quando faltava algum artigo durante o perigoso caminho para chegar às pessoas que necessitavam mais do que eles.»
Brigitte Meng Comninos, delegada 1980-81
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«Hoje em dia, as Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha ou do Crescente Vermelho normalmente assumem a liderança em situações que requerem ação humanitária dentro dos limites do país. A Cruz Vermelha angolana tem uma ampla gama de voluntários e equipe que continuam interessados em ajudar os necessitados.»
Maryse Limoner, chefe de delegação 2007-09
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Uma das últimas ações antes de reduzir as atividades em Angola foi quando o CICV reuniu um menino com sua mãe em Mussende, cerca de 400 km a sudeste capital Luanda.
Serafim e sua mãe perderam contato em 1998. Ele pediu ajuda ao CICV em 2007 e, um ano depois, a Cruz Vermelha angolana e o CICV localizaram sua mãe, que esperava ansiosamente por seu retorno. "Pensei que nunca mais fosse ver minha mãe de novo. Foi um milagre", disse Serafim.
Serafim é uma das milhares de crianças separadas de suas famílias entre 1975 e 2002. Desde o fim da guerra, o CICV e a Cruz Vermelha angolana conseguiram resolver os casos de mais de duas mil pessoas desaparecidas, reuniram mais de 750 pessoas com suas famílias e entregaram 433 mil mensagens Cruz Vermelha.
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No fim dos anos 80, Angola era o cenário da maior operação do CICV na África.
Quando dois elefantes lutam, quem sofre é a grama.
«Uma enorme quantidade de mulheres e crianças nos esperavam. Estavam de pé ou sentados na grama sob o sol forte. Uns poucos baobás e arbustos davam sombra. Fora a suave brisa, havia um silêncio absoluto. De repente, ouvi um som sobrenatural, uma música cada vez mais alta, impactante. Há milhares de milhas de distância de qualquer coral no mundo, a música que as vítimas da guerra civil angolana cantavam – palavras que eu não entendia – me levantaram. Esse conjunto de vozes me fez chorar.»
Reto Meister, chefe de delegação 1986-88
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«Gerações de delegados aprenderam sobre o trabalho de socorro em Angola. Ele envolvia uma enorme operação logística com constantes voos de um lado para outro com o Hercules e o DC-10. Lembro-me como era frustrante ter que espera e esperar de manhã cedo enquanto os aviões de carga que levavam outros itens, que não os de socorro humanitário, recebiam permissão para decolar primeiro.»
Catherine Gendre, delegada em 1993, delegada-chefe 2001-02
No dia 14 de outubro de 1987, um voo do CICV terminou tragicamente. O Hercules da organização, que transportava 20 toneladas de sementes para as pessoas na província de Bie, caiu perto de Kuito. As seis pessoas que estavam a bordo morreram (Catherine Chappuis, secretária de delegação, Nuno Ferreira, funcionário angolano, e quatro tripulantes: Dorian Shone, Kevin Tocknell, Nicolas Duff e Gary Heap), bem como uma mulher e seu bebê, que estavam em solo.
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«Voávamos em um Twin Otters de Huambo para chegar aos pontos de distribuição de socorro. Pousávamos depois de receber autorização de um grupo de controladores com detectores de minas que balançavam bandeiras. Se você puder imaginar – alguns poucos homens andando descalços sobre uma pista de pouso e verificando se era seguro para um avião pousar. Hoje me pergunto como eles sobreviviam à fome e às minas.»
Reto Meister, chefe de delegação 1986-88.
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« Ainda hoje me emociono quando penso no compromisso demonstrado pelos funcionários contratados localmente pelo CICV. Havia limitações impostas aos estrangeiros – por questões de segurança não podíamos ir a vários lugares. Os funcionários locais tiveram que manter os centros de alimentação funcionando e fazer as entregas de artigos de socorro, que chegavam "pingados" quando um trem milagrosamente conseguia passar sem explodir em uma mina.»
Brigitte Meng Comninos, delegada 1980-81

