1-01-1997 Guerreiros desarmados Este livro não foi escrito por um funcionário do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), nem expressa necessariamente as opiniões da instituição. Ele reproduz uma reportagem do jornalista norte-americano Michael Ignatieff, publicada em 1997 no New Yorker. Trata-se de um trabalho dinâmico e envolvente, que fala tanto da história, quanto da filosofia e da ação do CICV, sem esquecer dos dilemas e desafios que enfrentou e ainda enfrenta. A Delegação Regional de Brasília decidiu traduzir a reportagem ao português e publicá-la em forma de livro, acompanhada de algumas fotos, como uma maneira de oferecer uma visão das atividades e ideais do CICV ao público brasileiro e dos demais países de língua portuguesa.
A Delegação Regional de Brasília decidiu traduzir a reportagem ao português e publicá-la em forma de livro, acompanhada de algumas fotos, como uma maneira de oferecer uma visão das atividades e ideais do CICV ao público brasileiro e dos demais países de língua portuguesa. Jean-François Olivier Chefe da Delegação Regional de Brasília Comitê Internacional da Cruz Vermelha
2. Ruptura das normas 3. Uma boa guerra 4. Quem precisa da cruz vermelha?
Ao chegar a Castiglione, Dunant viu como morriam milhares de soldados feridos, de ambos os impérios, jazendo uns ao lado dos outros, sobre a palha estendida por todo o povoado. Dunant mandou conseguir vendas e outros materiais médicos essenciais e, recrutando mulheres do lugarejo como assistentes, dedicou-se a atender os feridos, ajudado por dois cavalheiros ingleses que passavam por lá como turistas. Repartiu charutos achando que o aroma de um bom havana eliminaria o fedor dos ferimentos putrefactos. Apenas contava com água para limpar os ferimentos e alguns pedaços de pano para utilizar como vendas de campanha. Dez horas de combate haviam cobrado seis mil vidas; nos meses seguintes, milhares de soldados mais morreriam devido aos ferimentos. Dunant não tinha nenhuma formação médica, e não há certeza de que tenha podido salvar uma vida sequer. No entanto, quando em 1862 foi publicado seu livro "Lembrança de Solferino", no qual descrevia como as enfermeiras de Castiglioni diziam a seus pacientes moribundos: "Tutti fratelli" (são todos irmãos), o homem da roupa de linho manchada de sangue se converteu numa celebridade no campo da ética. Aproveitando sua fama, viajou por todas as capitais da Europa a fim de conseguir apoio para um novo projeto: uma convenção internacional que permitisse às sociedades de primeiros socorros ocupar-se dos feridos em tempos de guerra. Apesar das críticas que recebeu o ideal de Dunant - um corpo imparcial de voluntários civis, independente dos exércitos de qualquer país - ele conseguiu prevalecer. A britânica Florence Nightingale, por exemplo, achava que o exército de cada país devia continuar sendo responsável por seus próprios feridos. Em fevereiro de 1863, formou-se um comitê de cinco notáveis de Genebra - o núcleo do que chegaria a ser o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, CICV - a fim de propagar as idéias de Dunant. Em agosto de 1864, o governo suíço acolheu, em Genebra, uma reunião de representantes de 16 países, entre eles os Estados Unidos, para decidir melhoras nos serviços médicos no campo de batalha. Na reunião, um dos representantes sugeriu que os trabalhadores sanitários utilizassem um bracelete branco; outro propôs que fosse acrescentada uma cruz vermelha, como homenagem à bandeira suíça, que tinha uma cruz branca sobre fundo vermelho. Três semanas mais tarde, doze dos representantes assinaram uma convenção que tornou-se conhecida como a Convenção de Genebra. Na convenção, a primeira do seu tipo, foi decidido "neutralizar" os hospitais, ambulâncias e pessoal sanitário, e era estabelecido o princípio de que os soldados inimigos mereciam o mesmo tratamento que os soldados do próprio lado. Nele não eram estipuladas punições para o não cumprimento do que fora decidido, nem eram previstos mecanismos para fazê-lo cumprir, mas eram estabelecidos parâmetros que os combatentes deviam satisfazer se queriam ser considerados "civilizados", o que, para Dunant, já era suficiente. Inclusive na época de Dunant, a idéia de "civilizar" a guerra parecia uma noção paradoxal, inclusive perversa. A guerra tinha se tornado mais selvagem e mais visível. A Guerra da Secessão nos Estados Unidos, que estava chegando a um sangrento desenlace quando era assinada a Convenção de Genebra, era qualquer coisa, menos civilizada; qualquer civil que tivesse ilusões sobre as glórias da guerra, somente tinha que olhar as fotografias dos mortos de Gettysburg, nas quais podiam ser vistos os bolsos esvaziados pelos ladrões e os pés inchados pela putrefação. Não parece que o que Dunant encontrou no campo de batalha de Solferino o tenha tornado um pacifista; parte do atrativo de sua "Lembrança de Solferino" consistia numa aceitação realista da inevitabilidade da guerra, associada à sua aprovação admirativa do heroísmo da cultura do guerreiro; esta aprovação se manifesta, por exemplo, numa história que contava sobre um coronel francês que havia reunido suas enfraquecidas tropas em Solferino levantando o estandarte do regimento e gritando: "Todo aquele que ame esta bandeira, siga-me!". No entanto, parece também que Dunant se dava conta que vivia entre duas épocas: a da cavalaria e a nova, a da metralhadora; sobre esta última época, escreveu: uma "era na qual tanto ouvimos sobre o progresso e a civilização e na qual, no entanto, não pode ser evitada a guerra", e se perguntou: "Não é uma questão urgente prevenir ou, pelo menos, aliviar o horror da guerra?" Em agosto de 1870, quando as tropas prussianas de Bismarck invadiram a França, a Convenção de Genebra enfrentou sua primeira prova de fogo. O Comitê Internacional apontou ao governo francês que, aparentemente, poucos soldados franceses conheciam a convenção e muito poucas enfermeiras haviam recebido o bracelete da Cruz Vermelha. Nesse outono, o Comitê interveio quando os prussianos se negaram a entregar os soldados franceses convalescentes, como era estabelecido na Convenção, argumentando que os franceses não podiam garantir que os soldados não voltariam ao front. Dunant propôs que Paris fosse declarada "refúgio seguro", a fim de proteger os civis dos ataques; sua proposta foi ignorada; Paris foi sitiada e o emblema novo da Cruz Vermelha que tremulava sobre seus hospitais foi queimado. Nessa época, Dunant atravessava por dificuldades econômicas, e quando faliu uma de suas empresas, na Argélia, se viu obrigado a renunciar a seu cargo de secretário do Comitê Internacional. Retirou-se a um pequeno povoado na costa do Lago Constanza. Ali escreveria: "Tinha aprendido o que significava a pobreza para outros, mas, agora, ela se apoderou de mim". Durante 23 anos viveu no anonimato, até ser redescoberto por um jornalista curioso; em 1901, recebeu o primeiro Prêmio Nobel da Paz. Doou o dinheiro do prêmio e, em 1910, à idade de 82 anos, morreu, otimista como sempre. Na época em que morreu Dunant, a maioria dos países tinha criado sociedades da Cruz Vermelha. Nos países muçulmanos, estas sociedades se chamavam e continuam se chamando, de Crescente Vermelho. No contexto do direito internacional, a campanha para civilizar a guerra havia lançado sobre o campo de batalha todo um manto protetor de novas convenções. Já em 1868, a Declaração de São Petersburgo tinha proibido os projéteis "explosivos" ou "inflamáveis" e declarado que "o único objetivo legítimo que os Estados devem se propor durante a guerra é a debilitação das forças militares do inimigo". Com a Convenção de Haia de 1907 e a revisão, em 1906, da Convenção de Genebra, foi codificado o direito da guerra terrestre e marítima e foram estabelecidas normas fundamentais para o tratamento dos prisioneiros de guerra. Por exemplo, a norma que estipula que os prisioneiros sob interrogatório somente estão obrigados a revelar seu nome, patente e número de série, data dessas convenções. Embora a Europa se rearmasse a todo vapor, ao mesmo tempo tentava submeter a guerra, segundo os termos de uma das cláusulas da Convenção de Haia, "às leis da humanidade e aos ditados da consciência pública". Nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, o ideal de Dunant de uma guerra humanizada tinha se inserido no senso comum da época. Alguns críticos mostraram seu desacordo. O teórico militar prussiano Carl von Clausewitz havia repelido a idéia de que a guerra pudesse ser civilizada através de uma convenção internacional. "A guerra" - escreveu - "é um ato de força para obrigar o inimigo a aceitar a nossa vontade (...) Associadas à força há certas limitações autoimpostas, imperceptíveis e apenas dignas de menção, conhecidas como direito e costume internacionais, mas que apenas a debilitam." O próprio Dunant nunca acreditou na autoridade de uma convenção internacional por si só. Sem nem argumentar sobre este ponto, considerou que tais convenções extraíam sua força de uma fonte moral mais profunda: os códigos de honra do guerreiro. Embora esses códigos variem de uma cultura a outra, parecem existir em todas as culturas e seus traços comuns se encontram entre os instrumentos mais antigos da moral humana. Onde for que a arte da guerra fosse praticada, os guerreiros faziam a distinção entre combatentes e não combatentes, objetivos legítimos e ilegítimos, armas legais e ilegais, costume civilizado e bárbaro, no tratamento dos prisioneiros e feridos. Parece que estes códigos têm sido aceitos, tanto para violá-los como para respeitá-los, mas sem eles a guerra deixa de ser guerra para converter-se em massacre. Embora as Convenções de Genebra codificassem a honra do guerreiro europeu, o domínio do direito sobre a guerra sempre tem sido incerto. A restrição decisiva das práticas desumanas no campo de batalha encontra-se no próprio guerreiro, em sua concepção do que é honroso e do que é desonroso para um homem em suas ações armadas. Segundo as palavras do historiador militar britânico John Keegan, "nunca existiu nem existirá um substituto para a honra, como meio de impor a decência no campo de batalha. Em combate, lá onde se causa a morte, não há juízes nem policiais". Solferino foi um confronto entre exércitos que apenas durou um dia. Em Verdun e em Somme, a guerra se tornou um enfrentamento em massa entre sociedades. E embora os ideais de Dunant pudessem ter morrido nos campos de Flandres, junto com tantas outras noções do século XIX de progresso moral, o fato surpreendente é que graças à própria Primeira Guerra Mundial, o Movimento da Cruz Vermelha se fortaleceu. As Sociedades Nacionais de ambas as partes em conflito alistaram mulheres de todas as classes, da Czarina da Rússia até as esposas dos homens comuns, para participar do esforço de guerra. Durante todo o conflito, estas mulheres vendaram os feridos, prepararam pacotes para os prisioneiros, administraram hospitais e atenderam os doentes. Utilizando como capital a neutralidade suíça, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha converteu-se num intermediário essencial em questões humanitárias. Seus deveres foram ampliados para cuidar não apenas dos membros das forças armadas feridos, mas também das vítimas civis. Enviou equipes de delegados a visitar milhares de prisioneiros a ambos os lados das linhas do front. Sua sede, em Genebra, converteu-se numa agência distribuidora dos milhões de cartões, cartas e pacotes que as famílias enviavam para seus filhos prisioneiros; sua Agência Central de Buscas entregou milhões de solicitações de localização de soldados desaparecidos. Além disso, embora o direito internacional não tivesse concedido à Agência mandato algum para fazê-lo, entregou mensagens que eram trocadas por civis não combatentes e ajudou a que famílias separadas pela guerra pudessem se reunir. A guerra total demonstrou que uma organização neutra tinha sua utilidade. Até o dia de hoje, a neutralidade continua sendo o núcleo da política moral do Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Mas a doutrina da neutralidade tem se tornado cada vez mais controversa à medida em que a nova política dos direitos humanos apareceu. Em 1948, as Nações Unidas adotaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a qual, em seu retumbante Artigo Primeiro afirmava que "todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos e, dotados como estão de razão e consciência, devem se comportar fraternalmente uns com os outros". Independemente do sentido que se dê ao termo "fraternalmente", este não pode incluir a guerra. A tradição moderna dos direitos humanos considera a guerra uma violação moral e os ativistas dos direitos humanos, situados entre o beligerante e sua vítima, não podem permanecer neutros. Em 1949, o CICV atualizou sua Carta, estabelecendo quatro tratados separados, conhecidos como as Convenções de Genebra. Nestes tratados não são feitas declarações retumbantes sobre a fraternidade humana. No lugar disso, a guerra é aceita como um ritual antropológico normal, a única maneira como certas disputas humanas podem ser resolvidas. Estes tratados buscam simplesmente garantir que os guerreiros se ajustem a certos princípios básicos de humanidade, dos quais o principal é a proteção dos civis e do pessoal sanitário. Embora estas duas tradições - os direitos humanos e o direito de guerra - são as que inspiram os ativistas humanitários nas zonas perigosas de todo o mundo, na verdade são dois corpos diferentes de preceitos éticos práticos. É possível que a maioria dos norte-americanos só conheça a Cruz Vermelha pelos seus bancos de sangue e por Elizabeth Dole. A Cruz Vermelha Norte-americana é uma entre as 170 Sociedades Nacionais que se ocupam, principalmente, de emergências surgidas no interior de seus países. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha, por sua vez, faz da guerra - e da domesticação da guerra - seu assunto principal. Sua sede, situada numa colina que domina Genebra, poderia facilmente ser confundida com um balneário de curas médicas ou com a sede de uma empresa farmacêutica, se não fosse pelo grande número de jovens de ambos os sexos, esbeltos e decididos, que vestidos de jeans e camisas de manga curta, caminham apressadamente entre os edifícios da sede. O Comitê, composto principalmente por juristas, banqueiros e diplomatas, é atualmente presidido por Cornelio Sommaruga, fecundo e sagaz jurista ítalo-suíço. Quando, no verão passado, numa entrevista a Sommaruga, lhe perguntei por que uma organização internacional devia ser dirigida por um comitê suíço, ele contestou meu questionamento, argumentando que somente um comitê executivo composto por uma só nacionalidade - neste caso, a suíça - poderia estar livre da paralisia que frequentemente sofrem as organizações multinacionais, como as Nações Unidas. Estes notáveis suíços comandam a organização de socorro mais amplamente admirada no mundo, qualificação confirmada inclusive pelos seus rivais, embora com reticências. O CICV emprega ao redor de 900 trabalhadores de terreno internacionais (denominados seus "delegados") e sete mil pessoas que fazem parte de seu pessoal local e das Sociedades Nacionais, e tem um orçamento anual de US$ 620 milhões. A organização participa de atividades em oitenta países, e trabalha ao longo das linhas do front de todos os conflitos armados do mundo, onde exista a presença da mídia, como no Afeganistão, ou onde esta não estiver presente, como em Sri Lanka ou em Timor Leste. Embora as Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha dependam fundamentalmente de doações privadas, o CICV obtém a maior parte de suas verbas diretamente dos governos. O governo suíço é o terceiro doador em ordem de importância, a União Européia o segundo e, surpreendentemente, os Estados Unidos o primeiro, com uma contribuição, em 1995, de uns US$ 170 milhões. A magnitude da contribuição dos Estados Unidos, um país que deve às Nações Unidas US$ 1,6 bilhão e cujos políticos, aparentemente, injuriam periodicamente as organizações internacionais, é uma prova da legitimidade que goza o CICV em Washington. Na Guerra do Golfo, o CICV ganhou o respeito do general H. Norman Schwarzkopf, o qual reconheceu, embora a contragosto, seu trabalho na supervisão das trocas de prisioneiros e na libertação de reféns; e quando a organização adota posições que irritam os norte-americanos - como quando insistiu em que se permitisse que o general panamenho Manuel Noriega, em sua condição de autêntico prisioneiro de guerra, recebesse visitas em sua prisão na Flórida -, o faz com notável discrição. Sua teimosa neutralidade o converte num valioso intermediário em situações políticas de equilíbrio tenso e potencialmente violento. Na sede da residência da embaixada japonesa em Lima, Peru, o CICV manteve, durante os quatro meses que durou o seqüestro, sua função de intermediário neutro entre o governo e a guerrilha. Até o final da ocupação, com a tomada da casa por comandos peruanos, esteve fornecendo constantemente, tanto aos guerrilheiros quanto aos reféns, tudo o que era necessário, de remédios para o coração até meias femininas novas. A atitude da organização em relação à guerra é muito suíça. Apesar de seus quase duzentos anos de paz e neutralidade, a cultura suíça não é pacifista. Sua doutrina oficial é a neutralidade armada. Todos os suíços recebem alguma forma de treinamento militar; é por isso que muitos delegados do CICV sabem como se limpam e armam as armas com as quais tão freqüentemente os ameaçam nos postos de controle. Não por casualidade "Guerreiro sem armas" foi o título das memórias do doutor Marcel Junod, que em sua condição de trabalhador humanitário, foi testemunha da guerra que de 1935 a 1936 os etíopes travaram contra os invasores italianos e depois da guerra civil espanhola e da Segunda Guerra Mundial, estando no grupo dos primeiros ocidentais a chegar a Hiroshima logo depois da explosão da bomba atômica, em 1945. Existe um curioso paralelo entre a cultura do CICV e a cultura militar cuja pista acompanha e que trata de controlar. Da mesma forma que um exército, o CICV respeita a disciplina, a ordem e a honra. Trabalha melhor quando está, olhos nos olhos, face a guerreiros. Até 1991, o pessoal de campo da organização só podia ser suíço, o que se baseava no argumento de que delegados de uma nacionalidade diferente da suíça poderiam comprometer a reputação de imparcialidade e neutralidade da organização. No entanto, nos seis últimos anos a instituição vem contratando pessoal de outras nacionalidades, acrescentou o inglês ao francês como língua principal de trabalho e está ampliando sua distância em relação a sua base suíça. Até dez anos atrás, o CICV evitava a imprensa. Se vangloriava, como os bancos suíços, de sua discrição e privacidade. Mas, da mesma forma que os bancos suíços, se deu conta de que essas virtudes freqüentemente despertavam suspeitas. Atualmente, tem escritórios de imprensa na maioria de suas grandes delegações. No curso de formação do CICV em Cartigny, nos arredores de Genebra, é ensinado aos novos delegados como dirigir veículos através de campos minados, como falar nos postos de controle para passar por eles sem problema, e como escapar de seus veículos no caso de serem atacados com foguetes. São submetidos a uma simulação de seqüestro realizada por homens mascarados que, segundo os treinados, realizam uma intimidação física e verbal bastante realista. São proibidos de levar armas em seus veículos ou permitir que combatentes de qualquer tipo viajem neles. E fica bem claro para eles que sua segurança depende da autoridade moral impalpável e vaga do emblema da Cruz Vermelha, e de sua imparcialidade, aplicadamente mantida. Provavelmente, os delegados do CICV sabem mais sobre a guerra moderna do que qualquer outro grupo de pessoas no mundo, inclusive a maioria dos generais. Enquanto outras organizações humanitárias freqüentemente retiram seu pessoal quando os tiroteios se intensificam, o CICV se sente na obrigação de ficar. Seus delegados têm sido testemunhas da guerra moderna em suas formas mais primitivas: em Ruanda, observavam através das janelas de seus veículos como as quadrilhas de Interahamwe percorriam as ruas de Kigali fazendo picadinho dos civis a golpes de facão. Também viram a guerra em sua mais alta tecnologia: os delegados suíços que permaneceram em Bagdá em janeiro de 1991, presenciaram o terrível espetáculo de luz e som dos mísseis teleguiados Cruise e Tomahauk. Apesar dos riscos, ou talvez por causa deles, o CICV recebe sempre mais pedidos de ingresso de voluntários do que os que pode aceitar. Entre os que conseguiram entrar, conheci jovens formados em relações internacionais em busca de um ou dois anos de aventuras antes de passar a trabalhar num banco; antigos hippies saudosos das viagens; ex-motoristas de táxi; um antigo traficante de drogas; médicos e enfermeiras cansados das normas perfeitas das clínicas suíças. Todos eles vinham em busca de uma das coisas mais volúveis do mundo: a intangível satisfação de fazer alguma coisa que valha a pena. Além de preparar uma "carta de motivação", um delegado potencial deve passar por uma dura entrevista. Um deles me contou que a primeira pergunta que lhe fizeram foi: "Bom, de que você quer escapar ao vir aqui?" Às vezes se trata de um fracasso no casamento, outras, da segurança claustrofóbica da vida suíça, ou do monótono e pesado trabalho de uma carreira moderna. A maioria dos delegados começa com ilusões de mudar o mundo, mas a longo prazo todos reconhecem que nuncam farão isso: alguns se decepcionam, outros continuam, recompensados pela satisfação de pequenas façanhas como a reunificação de membros de famílias separados pela guerra ou a localização de um prisioneiro considerado morto ou desaparecido em ação. Desde a Primeira Guerra Mundial, passando pela revolta húngara de 1956, o CICV tem sido um dos atores mais destacado nessa área das façanhas positivas; seus socorristas foram os primeiros a chegar aos campos de concentração alemães em 1945; um dos seus delegados foi o primeiro observador neutro que chegou a Hiroshima. Mas a partir da era das tragédias transmitidas por televisão, que começou com a guerra de Biafra, em 1968, o terreno se encheu de concorrentes, entre os que figuram os organismos das Nações Unidas. Também as Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha tiveram que abrir caminho a cotoveladas no lucrativo mundo dos meios de comunicação nas zonas de combate, a fim de poder desenvolver sua ação. A concorrência entre as organizações para conseguir doações, manchetes na mídia e vítimas tornou-se um imenso e desenfreado bazar, e o CICV faz esforços para ser ouvido no meio da balbúrdia. Sua doutrina de neutralidade tem sido questionada por organizações como os Médecins sans frontières (Médicos sem fronteiras), que sustentam que a intervenção humanitária não pode ser completamente imparcial quando se trata dos milicianos sérvios e os civis muçulmanos, ou dos hutus que levantam seus facões e as vítimas tutsis. A doutrina de discrição e silêncio do CICV, que lhe permite trabalhar nos dois lados do conflito, é também criticada pelos jornalistas, que argumentam que seu silêncio se converteu em cumplicidade com os crimes de guerra. Com tudo isso, o CICV se pergunta se a insistência de Dunant em que todas as vítimas são iguais, seja qual for a justiça de sua causa, faz sentido nos amargos conflitos atuais, nos quais um grupo étnico está tratando de aniquilar outro. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha tem um mandato essencial: garantir que os Estados e as partes beligerantes respeitem as Convenções de Genebra. Isto lhe dá direitos específicos que não têm outras organizações humanitárias: tem o direito, internacionalmente reconhecido, de visitar todos os prisioneiros de guerra, supervisionar as trocas de prisioneiros, e formar os combatentes no direito de guerra. Os norte-americanos, por exemplo, na Guerra do Golfo, combateram levando em conta as disposições das Convenções. Um dos oficiais do Estado-Maior de Norman Schwarzkopf afirmou que a operação Tempestade no Deserto foi a guerra mais legal que os Estados Unidos já fizeram em toda a sua história. Juristas especializados em direito internacional deram ao Exército assessoria sobre decisões relativas aos alvos, de maneira que o público tivesse a percepção de que a guerra era limpa. O CICV tem suas dúvidas sobre algumas dessas decisões, por exemplo, as que deixaram as crianças de Bagdá sem água e sem sistema de tratamento de esgotos; no entanto, no período posterior ao conflito foram seguidas estritamente as Convenções de Genebra. Centenas de milhares de prisioneiros de guerra foram confinados em acampamentos na Arábia Saudita, onde foram visitados e posteriormente libertados, sob o controle do CICV, como está estipulado nas Convenções. A Guerra do Golfo é uma das poucas hostilidades recentes nas quais as partes respeitaram as Convenções de Genebra. Mas as violações a estas Convenções ocorrem em todos os conflitos, e atualmente os delegados do CICV estão encontrando um tipo de guerra que Dunant nunca teria podido imaginar. Dos cerca de 50 conflitos atualmente em andamento, há poucos que se ajustem ao modelo clássico de guerra profissional entre Estados. Entre eles figuram insurreições do Exército, campanhas guerrilheiras contra regimes impopulares, levantes de minorias étnicas contra o domínio da maioria e quadrilhas de chacais passeando livremente entre Estados desintegrados. Nestes conflitos, os civis estão sempre na linha de fogo. Na Argélia, Colômbia e Sri Lanka, os civis são o alvo das milícias irregulares tanto quanto qualquer objetivo militar. Em Angola e Moçambique, os exércitos guerrilheiros em conflito estavam tão equilibrados que as guerras somente terminaram quando tinham sido destruídas as sociedades nas quais se estava combatendo; o mesmo tipo de guerra de desgaste está ocorrendo agora no Sul do Sudão. No Afeganistão e na Chechênia, as guerras que começaram como levantes nacionais genuínos contra a ocupação estrangeira degeneraram, transformando-se em combates depravados por território, recursos, drogas e armamentos, entre milícias que, muitas vezes, não se diferenciam de quadrilhas de criminosos. Estas guerras não tem muito interesse para as grandes potências - não estão em jogo interesses territoriais ou de segurança - e, portanto, pode-se permitir que continuem por tempo indefinido. Nos Estados em vias de desintegração da África Central e do Leste (o ex-Zaire, Ruanda, Burundi), nos Estados latino-americanos divididos pelas guerras de traficantes de drogas e de guerrilheiros (Colômbia, Peru), e ao longo da agitada fronteira entre os novos impérios islâmicos e os antigos impérios soviéticos (Uzbequistão, Tadjiquistão, Turcmenistão, Azerbaijão), a "guerra desigual", como é chamada pelo especialista em contra-insurgência Leroy Thompson, converteu-se numa característica constante da vida cotidiana. Na época de Solferino, o objetivo da guerra era derrotar as forças militares do lado inimigo. Com Hitler, este propósito mudou e passou a incluir aterrorizar, deportar e inclusive exterminar as populações civis do lado adversário. Para que as Convenções de Genebra funcionem, tem que haver exércitos disciplinados o suficiente para distinguir entre combatentes e civis, entre objetivos militares e os que não o são. Mas, que acontece quando não há disciplina alguma? Na Libéria, a guerra civil, que começou em 1989 com uma insurreição do Exército que se rebelou contra o governo corrupto, deixou mais de 150 mil mortos e mais de um milhão de pessoas sem casa - aproximadamente a metade da população - em conseqüência da luta entre as facções pelo controle do tráfico de drogas e de diamantes. Segundo certos cálculos, o número de crianças combatentes pode chegar a seis mil. Elas não sabem nada sobre o código de honra de Dunant. Na Libéria, as crianças combatentes detiveram comboios do CICV em postos de controle nas desertas rodovias fora da capital, Monróvia. Vestidos com jaquetas esportivas, calçados com tênis, e armados com foguetes lança-granadas em seus ombros e fuzis semiautomáticos em suas mãos, estes garotos se vangloriavam entre os cadáveres. Usavam máscaras pintadas com tinta vermelha e adotavam nomes de guerra como Major Rambo, Capitão Problema Duplo e General Serpente. Nos postos de controle, segundo contam os trabalhadores da Cruz Vermelha, a maioria destes mascarados estava fortemente drogada e não tinha a menor idéia de por quê, ou por quem estava combatendo. E, sem nenhum escrúpulo, roubava os veículos do CICV. Graça Machel, viúva do antigo presidente de Moçambique, fez um estudo para as Nações Unidas sobre estes garotos soldados. Em pelo menos 25 dos conflitos armados atuais, há crianças soldados cujo número pode atingir centenas de milhares. Na maioria das sociedades tradicionais, a honra está associada à moderação e a virilidade à disciplina. No porte varonil de muitos antigos guerreiros afegães ou na dignidade dos peshmerga curdos, há uma ordem marcial que constitui, também, uma visão orgulhosa da identidade do homem. Mas a selvageria particular da guerra na década de 90 aponta para outra visão da identidade masculina: a sexualidade exuberante do macho adolescente. As crianças estão abastecendo os exércitos com um tipo de soldado diferente, para o qual a arma não é algo que se deva respeitar ou tratar com correção ritual, mas na verdade algo que tem uma dimensão fálica específica. Atravessar um posto de controle na Bósnia onde adolescentes de óculos escuros e roupa de combate justa de cor cáqui manejam fuzis AK-47, equivale a entrar numa zona de testosterona tóxica. A guerra sempre teve sua dimensão sexual e a farda de um soldado não é garantia alguma de boa conduta, mas quando são soldados irregulares adolescentes os que travam uma guerra, a selvageria sexual se converte numa de suas armas habituais. Quando, em 1949, foram revisadas as Convenções de Genebra, foi ampliado o contexto de aplicação do artigo 3, ficando assim cobertas as guerras civis e outros conflitos não internacionais. No artigo 13 se reconhecia que, nestes novos tipos de insurgência, os combatentes não necessariamente usariam fardas de soldados; no novo mundo da guerra, o distintivo do guerreiro já não era sua farda, mas sua arma; neste artigo se decretava que qualquer um que "carregue as armas à vista" tinha direito à proteção das Convenções. Posteriormente, em 1977, foram acrescentados dois Protocolos, um dos quais autorizava o Comitê Internacional da Cruz Vermelha a intervir em guerras de libertação e em campanhas internas de desobediência civil, como o levante palestino. Os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e Israel ainda não ratificaram estes Protocolos adicionais, devido à convicção de que a presença do CICV em tais conflitos internos legitima os rebeldes em detrimento dos Estados soberanos. No entanto, inclusive quando o CICV recebe autorização para chegar até os grupos insurgentes, enfrenta um problema mais grave: encontrar alguém que esteja no comando. Nas Convenções se fala de exércitos dissidentes sob um "comando responsável". Na década de 1990, a maioria dos combates são travados por soldados irregulares - a calamidade das sociedades que se desmoronam - ou por quadrilhas de paramilitares que combinam o banditismo com a condição de soldado. À medida que a guerra passa das mãos dos Estados às dos senhores da guerra, também se desintegram os rituais da moderação associada à profissão das armas. O trabalho do CICV se tornou mais perigoso. Somente em Ruanda, em 1994, o Movimento da Cruz Vermelha perdeu, em ações bélicas, 36 de seus trabalhadores, alguns deles especificamente atacados como alvos. E 1996 foi talvez o pior ano da longa história do CICV. Em Burundi, em junho,um veículo que levava três delegados foi emboscado e metralhado; o veículo caiu num abismo e todos seus ocupantes morreram. Na Chechênia, uma semana antes do Natal, seis trabalhadores de campo da Cruz Vermelha foram assassinados na cama, num hospital perto de Grozny. Os novos temores pela segurança de seus delegados trazem ao CICV dilemas que se colocam no próprio centro de sua neutralidade. Se os delegados da Cruz Vermelha viajassem em comboios das Nações Unidas estariam mais seguros, mas assim se poria em perigo a reputação de independência da organização. Inclusive o simples fornecimento de coletes e capacetes antibalas a seus delegados e a blindagem de seus veículos têm provocado calorosos debates. O argumento contrário é que, se for dificultado o alvo, aumenta a probabilidade de ser convertido em alvo. Ao contrário, se se confia nas milícias, elas confiarão na gente. Mas os delegados pagaram com suas vidas por esta confiança. Num trabalho recente, Adam Roberts, professor de relações internacionais de Oxford, criticou a confiança do CICV no prestígio de sua reputação: "A tradição de associar a ação humanitária com a imparcialidade e a neutralidade, em si algo honorável, (...) não ajuda a pensar construtivamente a segurança: às vezes, é preciso se afastar desses princípios para garantir a segurança". Praticamente todos os delegados com quem falei já experimentaram uma situação de pânico absoluto. Para Pascal Mauchle, membro da delegação no Afeganistão, isto ocorreu ao atravessar uma linha de front num veículo branco desarmado, chegando assim a uma terra de ninguém, sem saber se a rodovia estava livre de minas, ou se podia acreditar nos homens armados do último posto de controle que diziam que era segura, ou se os homens armados do seguinte posto de controle lhe disparariam ao avistar o veículo.
Muitos dos assassinatos de Vukovar foram cometidos por quadrilhas de paramilitares comandadas por senhores da guerra e intrigantes criminosos sérvios com relações na política, nos negócios e no submundo de Belgrado. Na Bósnia, paramilitares croatas cometeram atrocidades semelhantes.Os soldados irregulares das guerras balcânicas se caracterizam historicamente porque sua selvageria era instigada por baixo do pano por Estados reconhecidos internacionalmente: a Sérvia e a Croácia. Eram recrutados homens nas prisões, treinados em acampamentos secretos do Exército e equipados com o melhor armamento do arsenal do Estado. Estes soldados irregulares foram criados para dar ao Estado a depuração étnica que oficialmente era negada. Estava sendo feita uma guerra na qual explicitamente se colocava a um lado qualquer prestação de contas moral associada com a arte militar profissional. Em maio de 1992, seis meses depois da queda de Vukovar, a guerra chegou à Bósnia. O CICV enviou um comboio de material médico a Sarajevo, a capital bósnia, comandado por Fréderic Maurice, um de seus mais carismáticos delegados. Seu comboio saiu de Belgrado, se deteve na capital sérvia da Bósnia, Pale, e depois seguiu para Sarajevo. Já dentro da cidade, o comboio, composto por cinco veículos. todos pintados de branco, com o logotipo inconfundível da Cruz Vermelha, passou sem incidentes pelo posto de controle sérvio. Antes que chegasse ao posto de controle muçulmano, o comboio foi atacado; durante 45 minutos esteve desamparado sob o fogo de foguetes e de armas de pequeno calibre. Finalmente, milicianos muçulmanos apareceram e lhes indicaram a via para um lugar seguro. De um veículo completamente crivado de balas foi retirado Maurice e levado para o hospital, onde morreu após uma operação de emergência. A Bósnia fica a cerca de duas horas de vôo da Suíça. Suas pradarias e riachos montanheses trazem aos delegados suíços lembranças do lar. Os líderes bósnios haviam prometido em repetidas oportunidades respeitar as Convenções de Genebra; seus exércitos estavam treinados nas leis de guerra européias. Mas num lapso de dois anos, haviam inventado um tipo de guerra que a Europa acreditava ter sido abolido da história há muito tempo. Também haviam inventado um tipo de combatente que não tinha escrúpulos para usar como alvo um comboio da Cruz Vermelha. De Genebra, o CICV ordenou a seus delegados que se retirassem da Bósnia-Herzegovina no fim de maio, e durante cinco semanas nenhum deles retornou. Estas cinco semanas foram as piores da guerra. Foram explodidos povoados e mesquitas muçulmanos e profanados cemitérios. Entre os primeiros delegados do CICV que voltaram estava Patrick Gasser; em Manjaca, perto de Banja Luka, ao Norte da Bósnia, deparou com uma visão que ultrapassava sua capacidade de descrição: em quentes galpões de ferro construídos para o gado, Gasser encontrou uns 2.300 presos muçulmanos, homens civis não combatentes, magérrimos, com os olhos fundos e em estado de choque. Os homens estavam tão esquálidos que o CICV trouxe um nutricionista que estava trabalhando na fome da Somália, a fim de que supervisionasse um programa de alimentação. Gasser voou de volta para Genebra a fim de informar o que havia visto. Num princípio não pôde fazer entender a seus superiores que os campos de concentração tinham sido criados de novo na Europa. Durante duas semanas, os executivos do CICV discutiram a informação de Gasser e debateram o que deveria ser feito. Cinquenta anos atrás, o CICV tinha enfrentado um dilema semelhante: Carl Burckhardt, alto executivo da Cruz Vermelha, tinha recebido informação de oficiais alemães segundo a qual, em 1941, Hitler havia assinado uma ordem na qual se decretava que, para o fim de 1942, a Alemanha devia estar "livre de judeus". Três anos antes de que a guerra terminasse, o CICV tinha indícios do iminente genocídio, mas decidiu que a organização não deveria fazer um apelo público, pois isto comprometeria seu acesso aos prisioneiros de guerra e aos detidos civis. Durante os dois anos e meio seguintes, ao passar por Mauthausen, os delegados da Cruz Vermelha viam sair fumaça dos crematórios; embora tinham escutado falar sobre as câmaras de gás de Auschwitz, somente tiveram acesso aos campos quando o Reich desmoronou em 1945. Em 1992, em contraste com 1942, o silêncio era impossível: a imprensa mundial tinha conseguido abrir caminho por conta própria até os campos perto de Banja Luka. Roy Gutman, do Newsday, estava lá. Embora o CICV sempre houvesse desconfiado dos jornalistas, desta vez colaborou com eles. Sem divulgar detalhes do que o CICV havia descoberto, Gasser forneceu ao Newsday a confirmação necessária para que saíssem suas primeiras reportagens. Uma semana depois, a organização noticiosa britânica ITN , ao entrevistar em Londres o líder sérvio-bósnio Radovan Karadzic, o colocou num aperto e conseguiu fazer com que ele prometesse que permitiria que uma equipe de televisão de ITN filmasse os campos. Os delegados do CICV que estavam no local dos acontecimentos observavam desconfiados o circo em que os meios de comunicação haviam convertido a situação. Logo se tornou claro para eles que, ao convidar a imprensa mundial, os sérvios estavam explorando cinicamente a lembrança ocidental do Holocausto e convencendo os governos do Ocidente para que recebessem refugiados muçulmanos, fomentando assim a limpeza étnica da Bósnia Central. Os sérvios conseguiram inclusive que o CICV participasse desse projeto: no Natal de 1992, o CICV tinha supervisionado o fechamento de todos os campos no Norte da Bósnia e transferido a maioria de seus prisioneiros a acampamentos transitórios na Croácia e noutros lugares da Europa. O CICV lutou para encontrar a maneira de proteger os civis sem se converter em agente involuntário da limpeza étnica. Em outubro de 1992, Cornelio Sommaruga propôs que determinadas localidades muçulmanas fossem declaradas refúgios de segurança. Em abril de 1993, quando estas cidades estavam a ponto de serem capturadas pelos sérvios, o Conselho de Segurança das Nações Unidas, que nessa época já havia pensado apoiar a idéia de Sommaruga, a adotou. Embora os refúgios de segurança eram um conceito tradicional nas leis de guerra européias - Dunant tinha proposto a idéia para proteger Paris em 1870 -, a idéia de Sommaruga só poderia funcionar se os muçulmanos não usassem estes refúgios como bases militares e os sérvios respeitassem sua neutralidade. Mas nenhum dos dois lados cumpriu o pacto. Um desses refúgios foi Srebrenica. Em julho de 1995, milicianos sérvios abriram caminho até dentro do refúgio, desarmaram os soldados da força de paz das Nações Unidas, prenderam todos os homens da localidade e expulsaram as mulheres e crianças. O CICV somente tinha pessoal sérvio no povoado - seus delegados estavam baseados em Tuzla, lá perto -. Impotentes, os delegados em Srebrenica observaram como umas 23 mil mulheres e crianças avançavam titubeantes através das linhas de batalha e de campos minados até a base aérea de Tuzla. Lá foi organizado um vasto programa de socorro para atendê-las; graças às câmaras de televisão recentemente chegadas ao local, logo havia lá 50 organismos humanitáros agitando-se para ajudar as mulheres e crianças à medida que chegavam. A Cruz Vermelha, marginalizada na luta humanitária, decidiu concentrar-se na busca das vítimas. Seus delegados ergueram uma tenda de campanha na base aérea e durante uma semana se juntaram nela as mulheres de Srebenica, contando como seus homens haviam sido capturados a ponta de pistola pelos milicianos sérvios. Inclusive nesta época , já estava claro para todos que a maioria dos desaparecidos - e o CICV havia contado cerca de 7.000 - já tinham sido executados. Um punhado de jovens delegadas teve que absorver toda a força da dor e da fúria das mulheres de Srebrenica. O estresse emocional foi tanto que uma das delegadas teve que ser enviada para Genebra. Como admitem muitos veteranos do CICV, a Iugoslávia foi um fracasso que abalou a instituição. O CICV chegou a Vukovar algumas horas tarde demais, e centenas de pessoas foram assassinadas; dirigiu-se a Sarajevo apenas para ser atacado lá; descobriu os campos de concentração e se converteu em cúmplice involuntário da limpeza étnica; uniu-se ao clamor internacional para a obtenção de refúgios de segurança, só para observar impotente como os refúgios se convertiam numa armadilha e no final, num túmulo, para 7.000 homens. Uma coisa era ver que os Convênios de Genebra eram ignorados numa cidade não européia; mas ver o pouco que significavam seus princípios, a apenas umas horas de Genebra, era verdadeiramente traumatizante. Muitos delegados se perguntaram abertamente se o Comitê Internacional da Cruz Vermelha tinha extraviado o seu caminho, ou se o mundo tinha mudado tanto, que a organização não cabia nele. Atualmente, o CICV tem uma das bases de dados mais completas e confiáveis das vítimas do massacre, mas se nega a compartilhar sua informação com o Tribunal Internacional de Crimes de Guerra em Haia. A doutrina de neutralidade e confidencialidade lhe impede de fazê-lo.
No fim de setembro de 1996, o CICV me convidou a visitar sua operação de terreno naquele país. Uma semana antes da data prevista para minha chegada, recebi um telefonema de Genebra no qual me diziam que milícias talibãs tinham penetrado entre as linhas das forças leais ao governo, ao Sudeste de Cabul, que as Nações Unidas e alguns organismos de socorro estavam evacuando seu pessoal não essencial da cidade e que, como era habitual, o CICV se manteria em grande parte por lá. Ainda queria ir? Quando cheguei a Peshawar, Cabul já tinha caído. Consegui que me levassem no segundo vôo de socorro que entrava na cidade. Montanhas que tinham ficado de cor castanho por culpa do fogo rodeavam o aeroporto construído pelos soviéticos e quase sem funcionar: as explosões tinham destruído suas janelas, sua sala de bagagens estava às escuras e as esteiras transportadoras tinham parado e estavam cobertas de pó. À beira da pista, um grupo de combatentes talibãs com seus turbantes e suas calças bombachas, encostados em seus fuzis Kalashnikovs, tinham se apoderado do aeroporto. Atrás dele, havia um veículo Mitsubishi Pajero equipado com foguetes lança-granadas. O significado de Talib é "estudante religioso"; o movimento começou nos seminários islâmicos no Paquistão no início da década de 90. Em 1994, as milícias talibãs, armadas e treinadas pelos paquistaneses, haviam iniciado sua marcha para dominar o Afeganistão, enquanto punham em vigor a mais estrita versão da lei islâmica encontrada no mundo muçulmano: proibiam o trabalho das mulheres, as obrigavam a usar o burka, com seu odioso véu cobrindo o rosto, apedrejavam as adúlteras e amputavam as mãos dos ladrões. Agora, os talibãs controlam a capital e três quartos do país. Na paisagem da guerra endêmica, Cabul em sua desolação é caso aparte. É a Dresden dos conflitos posteriores à Guerra Fria; quilômetros e quilômetros de escombros e pó, abandonada e açoitada pelo vento, povoada por famílias esfarrapadas espalhadas pela cidade, que buscam alguma coisa para sobreviver em containers abandonados que tinham sido serrados pela metade. Nas ladeiras das colinas, se alinhavam milhares de casas sem teto e sem janelas, abandonadas por seus antigos habitantes. As milícias combatentes não tinham deixado nada a salvo: nem as mesquitas com suas cúpulas azuis, nem os minaretes, nem os hospitais, nem as escolas. O museu de Cabul, que no passado possuiu uma coleção de relíquias budistas, jazia aberto para o céu, com suas antigas colunas jogadas ao lado da rodovia e sua coleção saqueada. A embaixada soviética e o centro cultural soviético tinham sido destruídos e destacamentos de artilharia dos talibãs passavam por suas ruínas. Em 1992, quando o regime de Muhammad Najibullah, apoiado pelos soviéticos, se desmoronou após um motim do Exército, ele e seu irmão buscaram refúgio numa repartição das Nações Unidas em Cabul e Najibullah permaneceu lá durante quatro anos. Três noites antes de minha chegada, os talibãs o tinham tirado à força da repartição, o tinham castrado e espancado até a morte, e depois haviam pendurado seu volumoso corpo numa torre de observação da guarda de trânsito. Quando passei de carro por lá, somente restava a corda, salpicada de sangue, balançando pendurada da torre. A sede da delegação do CICV, no centro de Cabul, se ocultava atrás de pilhas de sacos de areia. Os marcos das portas estavam reforçados com suportes de madeira cortados rusticamente. No pátio, havia uma dúzia de veículos brancos, cada um com o emblema "Comitê Internacional, Genebra", em suas portas, e com a imagem de um Kalashnikov atravessado por duas barras vermelhas, indicando que não se permite a entrada de armas nos veículos do CICV, nem em suas instalações. Funcionários locais desarmados registravam todos os que passassem pela porta de entrada. Segundo soube, desde a tomada pelos talibãs, o CICV tinha aberto linhas de comunicação com os comandantes rebeldes que dirigiam a cidade. "Dirigiam a cidade" é um eufemismo, pois, na verdade, não havia governo algum em Cabul. Os dirigentes talibãs desapropriaram todos os veículos disponíveis e tinham se dirigido rapidamente em direção Norte, para pôr em fuga as forças do governo, rumo às montanhas. Os destacamentos que tinham ficado para trás para administrar a cidade, não estavam fazendo muito quanto à administração. Muitas das prisões tinham ficado vazias e as instalações da Cruz Vermelha estavam lotadas de antigos prisioneiros que portavam os cartões amarelos do CICV para o registro de dados e buscavam ajuda. Nos corredores, sobretudo os adjacentes ao telefone via satélite, se amontoavam os jornalistas, ansiosos por cobrir a tomada da cidade pelos talibãs, apesar de que, do seu ponto de vista, não havia, infelizmente, em Cabul, sinais do recente massacre que pudessem transmitir pela televisão. O delegado de imprensa do CICV, antigo jornalista da rádio sul-africana, que estava agora envolvido com "a causa", como a chamava ele mesmo ironicamente, fazia esforços para se entender com eles. O chefe da delegação era Michel Ducraux. Em seu escritório, havia reproduções de Vermeers e Matisse, grandes janelas de plástico, com a vista completamente bloqueada por sacos de areia empilhados a uma altura de cerca de 2,5 metros. Ducraux é um homem magro e elegante de pouco mais de 50 anos. De jeito tranqüilamente reflexivo, parecia manter um sutil equilíbrio interior entre o cinismo e o compromisso. Sua visão da guerra desfrutava dos paradoxos. Recordava como, havia pouco, toda a delegação teve que passar todo o dia em refúgios subterrâneos, enquanto as milícias muçulmanas atacavam com foguetes a cidade; curiosa situação para os delegados: encontrar-se em perigo, empilhados durante horas num refúgio escuro e estreito, eles, que forneciam assistência médica às facções dedicadas aplicadamente a cometer assassinatos; eles, que tentavam ensinar as leis da guerra a milícias que insistiam em destruir-se entre si; eles, que predicavam moderação a guerreiros islâmicos que tinham reduzido a escombros sua própria cidade. Era, segundo afirmava Ducraux, algo "hyperdésagréable". Os afegães são gente de fronteira, situados no tampão entre várias civilizações - Irã, Índia, Ásia central - e têm combatido com obstinação todo o mundo, de Alexandre, o Grande, até o Exército inglês, para manter viva sua independência. Têm a reputação de ser uma das guerrilhas mais terríveis de todos os tempos. Sua tradição de luta, baseada em unidades móveis que evitam o ataque direto ou a batalha campal, busca as passagens na montanha para emboscar e rodear o inimigo, e foi a que lhes deu a vitória sobre os russos. Era uma tradição que respeitava a ecologia de uma sociedade pobre e o clima de uma zona montanhosa: a guerra começava quando tinham semeado as colheitas ou os animais tinham sido levados às pastagens, e terminava quando chegava a colheita e quando caía a neve. A guerra era endêmica, mas autolimitada. Quando os senhores da guerra deixaram de estar unidos contra o inimigo externo, começaram a combater entre si. A radicalização do Irã piorou as coisas: em vez de unir as milícias, a doutrina religiosa fez com que se enfrentassem armados. E as armas que tinham deixado os russos, além das que chegaram dos Estados Unidos, de tanques até mísseis, eram tão potentes que ultrapassaram a ecologia autolimitadora das tradições dos beligerantes. Os guerreiros afegães do passado não tomavam como alvo as mesquitas, os minaretes, os hospitais e as escolas, Cabul é o cemitério da honra dos guerreiros afegães. Então, que estava fazendo lá o CICV nesse momento? Ducraux respondeu com sua filosofia característica, fazendo a seguinte reflexão: Que existe de mais humano do que a guerra? Acrescentou que a organização não estava lá para deter a guerra, nem para humanizá-la; estava lá para reduzir os danos causados; para alimentar as viúvas, visitar os prisioneiros, colocar membros artificiais nos corpos destruídos pelas minas. A guerra era absurda, mas inevitável. Aparentemente, na opinião do CICV, somente restava a modesta ética das pequenas façanhas. Não foi fácil reunir-se com os combatentes talibãs. A maioria estava no vale de Pansheer, ao noroeste de Cabul, e os que tinham ficado para vigiar a cidade eram hostis aos estrangeiros. Mas havia um destacamento baseado no Hotel Intercontinental, uma inverossímil edificação em forma de torta, reduto da bestialidade dos anos 60, ainda erguida milagrosamente no cume de uma das colinas de Cabul, com uma vista panorâmica da devastação. No bosque de pinheiros nos arredores do estacionamento do hotel, foram colocados tanques e artilharia. Com um intérprete do CICV - que, prudentemente, havia tirado seu paletó ocidental e tinha colocado uma pequena capa branca e, além disso, tinha deixado crescer a barba durante vários dias - me aproximei a um destacamento de talibãs cujos membros, sentados na grama ao lado da vazia piscina do hotel, olhavam para a poeirenta neblina de Cabul. Sentados com as pernas cruzadas e seus barbudos rostos com turbantes, se dedicavam a desfolhar rosas languidamente ou a mover entre seus dedos uma espécie de rosário, para diminuir a ansiedade. Levavam relógios e sapatos novos. Perguntei por que lutavam e olharam para o que parecia ser o mais preparado deles, um jovem seminarista com corte de cabelo de tipo ocidental e longa barba. "Pelo Islã", respondeu. "Para acabar com a luta entre irmãos e para ter um Estado islâmico". "Mas então"- perguntei - "por que estão se matando entre irmãos?" "Por que estão combatendo os irmãos? O profeta Maomé, bendito seja seu nome, nos ensinou que enquanto haja corrupção na terra, temos que combatê-la para trazer a paz". Na manhã seguinte, os talibãs identificaram um exemplo de corrupção, nos próprios porões do Intercontinental. Retiraram de lá 1.400 latas de cerveja e 1.800 garrafas de "bebidas alcóolicas" e as empilharam no estacionamento. Após algumas orações e um curto discurso do chefe da polícia religiosa talibã (uma corporação cujo nome significa "Departamento da imposição da virtude e do castigo dos ilegais"), cerimonialmente quebraram as garrafas e esmagaram as latas, enquanto um público de sedentos jornalistas convidados observava com indisfarçável consternação. Quando retornei do Intercontinental às instalações do CICV, vi que estavam tirando as mobílias para o pátio externo. Agitados afegães com turbantes carregavam cadeiras e mesas. Duas das delegadas, uma administradora e uma enfermeira, tinham colocado calças afegãs e lenços na cabeça. As mulheres afegãs, que se encarregam do sistema de mensagens, preparam os arquivos das visitas aos prisioneiros de guerra, e buscam a pista de prisioneiros e desaparecidos, estavam sendo transferidas a um bloco separado, onde não fossem visíveis, detrás de um muro de sacos de areia. Noutras palavras, a Cruz Vermelha estava reorganizando seus escritórios para manter ocultas as mulheres e contentes os talibãs. Thomas Gurtner, o chefe adjunto do CICV em Cabul, acabava de voltar de uma reunião com outros organismos de socorro (Oxfam, Médecins Sans Frontières, Unicef e o Alto Comissionado das Nações Unidas para os Refugiados).Todos estes organismos tinham programas nos quais empregavam mulheres afegãs e todos estavam protestando contra os decretos dos talibãs que despediam as mulheres de seus trabalhos, obrigando-as a regressar a seus lares e ao domínio de seus maridos e pais. Estes organismos tinham solicitado ao CICV que se unisse a seu apelo, mas Gurtner tinha se negado a fazê-lo. "Este problema é uma questão humanitária?", lhe perguntei. "Claro que não", respondeu-me energicamente. Eu começava a entender que uma coisa são as leis da guerra e outra muito diferente os direitos humanos. O CICV faz cumprir as leis da guerra; não tem nada a ver com os direitos humanos. Não faz campanhas contra a injustiça. Sua legitimidade depende de seu trabalho com os combatentes e os senhores da guerra: se estes insistem em que as mulheres sejam mantidas ocultas, não há outra opção. Como ensinar o código de honra do guerreiro a homens treinados na Jihad islâmica? Como ensinar as leis da guerra a pessoas que talvez nunca tenham ouvido falar das Convenções de Genebra? O delegado do CICV encarregado em Cabul da "difusão" era Jean-Pascal Moret. Jampa, seu nome código de chamada pelo rádio, com seus 42 anos é mais velho do que quase todos os trabalhadores de terreno da Cruz Vermelha. Não tem título universitário; às vezes, nos intervalos entre suas missões da Cruz Vermelha, dirige um táxi em Genebra, e é budista tibetano praticante. Como apontava Jampa, tudo o que faz a Cruz Vermelha é difusão: se um delegado dirige a alta velocidade seu veículo nas ruas de Cabul, dá a toda a delegação uma fama de arrogância; se rejeita as observações de um talibã num posto de controle, é possível que disparem contra o seguinte veículo do mesmo tipo que passe por lá. Noutras palavras, a difusão equivale a preservar o valor ético do emblema da Cruz Vermelha. Se o programa da Cruz Vermelha no Afeganistão é um "sucesso", isto se deve em grande parte a que o emblema conserva sua legitimidade entre todas as facções. O CICV não pode deter o fluxo de armas procedente do Paquistão e da Rússia; não pode forçar um cessar-fogo ou trégua. Somente pode tratar de que as facções respeitem algumas normas fundamentais: não disparar aos feridos nem às ambulâncias, não ter como alvo os hospitais, não atacar os civis e não torturar os prisioneiros. Há uma geração, o CICV fazia poucas concessões às culturas locais. Antes de que partisse para Cabul, um veterano do CICV, Pierre Gassmann, atualmente chefe da delegação na Colômbia, me contou que a difusão tinha mudado radicalmente desde a época em que ele havia entrado na organização, no final dos anos 60: "No princípio, fazíamos aos combatentes todas as recriminações possíveis segundo nossos próprios códigos", lembrava Gassman, "mais tarde fazíamos isso segundo os deles. Agora não sabemos qual código utilizar. Estamos tentando algo mais sutil." Na Somália, a Cruz Vermelha dirige grupos de teatro que se apresentam para os diversos clãs e diante dos grupos de homens armados; a delegação contratou cantores e poetas para gravar canções sobre - incrível, mas é certo - as leis da guerra; estas canções e obras de teatro são transmitidas através do Serviço Mundial de Difusão da BBC. Na Chechênia, equipes de primeiros auxílios distribuem ataduras nas quais estão impressos desenhos de combatentes que recolhem os feridos do campo de batalha, que escoltam órfãos até um lugar seguro, que reúnem os prisioneiros e os levam até uma custódia segura. No entanto, o maior desafio é como ensinar as normas européias da guerra aos radicais do Islã. Na Europa medieval, havia uma distinção entre bellum hostile (a guerra caracterizada pela moderação) e bellum romanum (a lei, segundo expressa o historiador Michael Howard, "na qual não havia limites, e todos os que eram designados como inimigos, não importa se levassem armas ou não, eram massacrados indiscriminadamente"). A Cristiandade medieval levou essa distinção às Cruzadas contra o Islã, reservando-se a ferocidade sem contemplações para os infiéis. O Islã respondeu da mesma maneira; a jihad era sua própria bellum romanum. O particularismo ético destas tradições, que distinguem entre as vítimas dignas de respeito e as que não o são, contrasta com o universalismo ético das Convenções de Genebra, nas que se insta aos soldados que respeitem todas as vítimas. Na busca de princípios universais que tenham eco na cultura islâmica, o CICV tem olhado além da tradição da jihad. Há quatro anos, por exemplo, a organização fez imprimir, no Cairo, uma livro intitulado "Crônicas da história árabe-islâmica", no qual eram apresentadas disposições-chave das Convenções de Genebra que se ajustavam a princípios da sabedoria tradicional árabe e islâmica. Na publicação são registrados alguns conselhos de um combatente muçulmano, o califa Ali Ibn Abi Talib, sobrinho de Maomé: "Se os vences, não mates os que fujam. Não liquides os feridos nem os desnudes. Não mutiles os mortos. Não rompas os véus." Noutra parte da publicação, são feitas exortações habituais na antiga economia agrícola: "Não atraiçoes. Não te vingues. Não recorras à perfídia. Não castigues. Não mates crianças pequenas, velhos ou mulheres. Não cortes palmeiras nem árvores frutíferas. Não sacrifiques ovelhas, vacas ou camelos, exceto para te alimentares." Nos países árabes, os delegados da Cruz Vermelha repetem a história do guerreiro árabe, o sultão Saladino e o nobre tratamento que deu ao prisioneiro Ricardo Coração de Leão, rei dos cruzados. "Assim" - argumenta o CICV com otimismo - "a lei islâmica se adiantou à comunidade internacional em mais de mil anos". Há algo de atrativo nisto, uma determinação de provar que os princípios da Cruz Vermelha não são simples produtos do calvinismo suíço, mas valores humanos universais que podem ser encontrados em todas as culturas. Além disso, há algo de comovente na curiosa fé da Cruz Vermelha em que a violência humana pode ser contida através de exortações extraídas dos livros sagrados. A delegação de Cabul imprimiu exortações semelhantes em seus calendários. Estes calendários, com suas mensagens humanísticas, têm estado pendurados em edificações rodeadas de devastação. Mas o Afeganistão coloca um problema adicional: a guerra se torna mais sem limites quando a religião a rodeia de um propósito santo, e os talibãs são talvez a milícia religiosa mais militante da terra. Nos postos de controle ao redor da cidade, seus combatentes estavam examinando os veículos em busca de revistas e cassetes. Perto de um desses postos vi uma árvore na qual estavam pendurados cassetes e vídeocassetes; achei que eram fitas pornográficas, ou de rock and roll, ou qualquer tipo de propaganda antitalibã; mas soube que o objetivo dos combatentes talibãs é muito mais amplo; buscam qualquer coisa que pinte o rosto humano ou qualquer das criaturas de Deus. Em nenhuma outra sociedade islâmica chegaram tão longe as novas autoridades religiosas; inclusive os sacerdotes iranianos têm ridicularizado a rígida crença dos talibãs no pernicioso efeito das representações visuais. Em consequência, o calendário do CICV, com suas mensagens inofensivas dos textos islâmicos, será mantido oculto. O mesmo acontecerá com a história em quadrinhos que o CICV vem distribuindo localmente, em coordenação com um programa radiofônico da BBC no qual é dramatizada a vida e as dificuldades de Ali Gul, um herói afegão de ficção. Se os dirigentes talibãs descobrirem tudo, será destruído todo este paciente e sutil trabalho de transferir as leis da guerra européias à cultura autóctone do guerreiro. Os olhos são as janelas da alma. E, segundo a rígida interpretação do Corão dos talibãs, estão proibidas todas as representações do olho - todas as fotografias, pinturas, vídeos e filmes -. Nas palavras dos dirigentes talibãs, apenas o próprio Deus deve olhar nas janelas da alma. Um aspecto fundamental das Convenções de Genebra é o chamado trabalho de detenção do CICV: a proteção dos prisioneiros de guerra militares. O delegado encarregado das visitas aos prisioneiros em Cabul é Pascal Mauchle,outro dos da nova camada que parece acolher com satisfação o controle externo dos jornalistas, talvez quem melhor os persuada sobre a sua causa. Pascal me convidou a acompanhá-lo numa visita de detenção. Ele tinha dividido sua equipe em três grupos: dois deles iam a uma prisão que, segundo foi descoberto recentemente, guardava milicianos do governo presos pelos talibãs durante a captura de Cabul; o terceiro ia à cidade checar as alegações de detenções sumárias realizadas pelas forças de segurança dos talibãs. Eu acompanhei um dos destacamentos que ia à prisão. A prisão era uma estrutura decrépita com um teto de palha e grossos muros de pedra. Os guardas talibãs, apoiados por alguns membros da polícia secreta paquistanesa, descansavam à entrada dos longos e escuros blocos de celas. As pequenas portas das celas eram frágeis construções de madeira e as fechaduras não eram muito consistentes. Curvando-nos bastante entramos na cela, de aproximadamente 1,80 m de largura por 3 m de comprimento, na qual 18 prisioneiros estavam de cócoras em colchões sujos. Pregadas nos muros havia algumas bolsas plásticas com seus pertences. O cheiro da jaula era semelhante ao de um animal enjaulado, mas era limpo. Através dos vidros quebrados de uma janela, podia-se ouvir as buzinas dos carros e os gritos dos vendedores ambulantes da rua Chicken. Os prisioneiros, que se juntavam ao nosso redor, eram perturbadoramente jovens; logo soube que poucos deles tinham mais de 18 anos e que vários não chegavam aos 14. Alguns tinham apenas os primeiros sinais de barba. Gradualmente, à medida que um dos delegados do CICV, sentado no chão com as pernas cruzadas, preenchia um cartão com os dados pessoais de cada prisioneiro, suas histórias foram surgindo pouco a pouco. A maioria deles era da etnia tadjique. Nenhum deles reconhecia ser soldado regular. Todos alegavam ter estado trabalhando como vendedores ambulantes, garçons ou mecânicos de automóveis, e terem sido empurrados a entrar nas milícias devido a que, numa economia que desmorona, a milícia do governo lhes oferecia segurança, dinheiro e comida. Mas não tinham demonstrado ser combatentes muito decididos.Após terem sido colocados nos subúrbios do lado Sudeste da cidade para repelir o avanço dos talibãs, tinham se rendido, segundo eles, sem dar um único tiro. Enquanto o delegado anotava os dados de um prisioneiro, eu dobrava o cartão amarelo de registro de dados do prisioneiro anterior, o colocava num pedaço de plástico e o entregava a ele. Muitos deles recebiam seu cartão com uma leve inclinação ou com o gesto afegão de colocar a mão brevemente no coração. Depois, cada um colocava seu cartão no bolso interno da jaqueta marrom. Havia algo de sacramental neste ritual. Em cárceres, calabouços, jaulas e campos ao redor do mundo, prisioneiros como estes têm recebido cartões semelhantes, que constituem sua garantia da proteção e o interesse moral que podem lhes oferecer as Convenções de Genebra. É a prova de que não foram esquecidos, que algum estrangeiro se encarregará, como se fosse um assunto seu, de pedir informação no caso de que desapareçam com ele, ou de que, na próxima visita, apareçam marcas no seu corpo. Mas parece que os cartões amarelos não resolvem tudo. Após serem tomados os dados de todos e de lhes serem entregues os cartões, os prisioneiros pareciam ter pressa. Um deles, com atitude preocupada, falou durante longo tempo com o delegado. Tinham lhes prometido anistia ao serem capturados pelos talibãs e queriam que o delegado da Cruz Vermelha defendesse sua causa. O delegado juntou seus papéis. Sua posição foi cortante: lhes disse que a anistia não era assunto seu e que o CICV não estava facultado para intervir no "processo da justiça". As Convenções de Genebra não tratam de justiça, mas de bom tratamento. O papel do CICV, continou o delegado, era garantir que os homens fossem tratados com decência, alimentados e que, ao serem soltos, recebessem assistência para regressar às suas aldeias. Houve uma troca de lúgubres olhares e murmúrios quando nos curvamos para sair pela pequena porta da cela. Ao longo de minha estada em Cabul, muita gente me disse que tinha que conhecer o Alberto. Como todas as lendas locais, não parecia ter sobrenome, simplesmente, Alberto. Não era exatamente um delegado típico do CICV, mas para muitos repórteres simbolizava o que havia de admirável na organização. Alberto é Alberto Cairo, um italiano alto e magro de uns 45 anos, com óculos de armadura metálica redonda, algo grisalho e com um ar de distração nervosa. Tinha estado em Cabul durante sete anos, mais que nenhum outro delegado e mais talvez que qualquer outro funcionário internacional na cidade. Esteve lá quando caíram mísseis no hospital Kar Teh Seh, com seus corredores cheios de feridos e moribundos; também quando o asilo para cegos foi avariado por uma explosão e quando os muyahidin aterrorizaram o refúgio Marastoon para doentes mentais; quando começou o cólera, quando uma enfermeira da Cruz Vermelha foi assassinada ao Sudoeste da cidade e quando ambulâncias da Cruz Vermelha viraram alvos. Tinha chegado como fisioterapeuta e agora dirigia o maior programa de membros artificiais de todos do CICV, o centro ortopédico no hospital Wazir Albar Khan. Era uma próspera oficina, cujo pessoal estava, na maioria, composto por afegães, eles próprios feridos de guerra. Levou-me a visitar o hospital; beijou um amputado que ajustava próteses novas num torno; mexeu no cabelo de outro que colocava gesso ao redor dos membros de amputados recentes; e deu pancadinhas amistosas noutro que preparava novos moldes nos fornos. Segundo soube, os saltos das próteses artificiais são recortados de velhos pneus soviéticos. "São de excelente qualidade", afirmou Alberto. Muitos dos pacientes de Alberto eram jovens afegães que, como nunca tinham ido à escola, entraram nas milícias porque os senhores da guerra eram os únicos que pagavam um salário. Agora, passeavam, mancando nos caminhos do jardim externo, levantando com esforço seus estranhos novos membros ao longo dos atalhos de pedrinhas. Fora os combatentes, havia outras vítimas da guerra, inclusive mais terríveis. Num quarto, sobre uma cama de hospital, jazia um pequeno pacote coberto por um esfarrapado cobertor de cor azul cinzenta. Alberto retirou o cobertor e deixou ver uma criança de rosto sujo, de uns sete anos, tremendo no sono. "Pólio", disse. Os programas de imunização tinham falhado e, com a guerra, a poliomielite tinha voltado ao Afeganistão. Alberto queria que eu conhecesse Moheb Ali, seu administrador-chefe, um paraplégico em cadeira de rodas, de 26 anos de idade, que vestia pijama de cor azul celeste. Dois anos atrás, um centro ortopédico do CICV tinha ficado em meio ao fogo cruzado dos canhões do governo, sobre a Colina da Televisão, e um dos grupos de milicianos islâmicos escondidos num labirinto de ruas das proximidades. O pessoal internacional se retirou, mas Moheb se ofereceu voluntariamente a ficar no centro, com um rádio e a companhia de alguns guardas, a fim de fazer o que pudesse para proteger o maquinário de fabricação de membros artificiais, no caso de que as instalações fossem atacadas. O combate continuou durante 12 dias. Já que a delegação estava no centro da cidade, Alberto somente podia se comunicar com Moheb através do rádio, e às vezes era tanto o barulho dos disparos que quase não conseguia entender o que Moheb dizia. Posteriormente, uma noite, as forças do governo chegaram até as instalações e capturaram Moheb e os guardas, acreditando que pertenciam às milícias que estavam combatendo. "Estava fazendo minhas orações", lembra Moheb ironicamente. Alberto, desesperado, persuadiu um ministro do governo para que ordenasse a suas tropas que soltassem Moheb. Na noite seguinte, as milícias se apoderaram do centro ortopédico. Indefeso em seu refúgio na cadeira de rodas, Moheb ouviu que eles entravam através da porta das instalações. "Comecei a rezar de novo e a ler o Santo Alcorão", afirmou. Esta vez a artilharia do governo fez que os milicianos abandonassem as instalações. Duas semanas mais tarde, Alberto conseguiu finalmente que as duas facções aceitassem que um comboio do CICV evacuasse Moheb e os guardas. A comida já estava acabando e as baterias do rádio de Moheb estavam quase esgotadas. Moheb estava pronto. Em meio ao contínuo fogo de mísseis, ele e seus guardas deram um jeito de preparar para a evacuação a maioria das máquinas. Praticamente sem ajuda, Moheb havia salvado o centro. Esta era para mim a história do Afeganistão, um país no qual dois grupos, enlouquecidos pelas armas e a ideologia, não tinham escrúpulos em se matarem pela posse de um centro ortopédico da Cruz Vermelha. Para Alberto, a história explica porque tinha ficado em Cabul. Quando Moheb terminou sua história, Alberto me olhou com um expressivo levantar de ombros italiano e me disse: "Como posso partir? Quanto ao que sua história significa para Moheb, em um ou dois minutos descobri. Virou-se para seu computador portátil e para suas ordens de compra, e disse algo tão suavemente que tive que pedir que repetisse: "A Cruz Vermelha me fez valente".
Fui criado na política antibélica dos anos 60, e para mim a mensagem da organização era um paradoxo, inclusive algo suspeito. Holleufer, um suíço-alemão melancólico e reflexivo, de olhos grandes e tristes, compreendia as contradições. "Na ética moderna, a guerra é desumana e, por tanto, indefensável", afirmou. "As ideologias que movem o mundo de hoje são a ecologia, os direitos humanos e a ética humanitária. Cada vez mais, é proscrita a guerra da cultura moderna". O conceito de direitos humanos é, naturalmente, algo recente. As leis da guerra o precedem por muitos milênios: a idéia de que os guerreiros devem mostrar compaixão por suas vítimas é talvez muito mais antiga do que a de que todos os seres humanos têm direitos e devem ser tratados como iguais. O gênio original de Dunant residiu em sua aceitação da guerra como um ritual essencial da sociedade humana, que embora possa ser domesticado, nunca será erradicado. E, segundo sustenta Holleufer, este ritual vai contra as bases da nossa época, essencialmente pacifistas, contra nossa cultura dos direitos humanos. Inclusive no CICV, acrescentou Holleufer, há muitos delegados aos quais lhes parece difícil digerir a aceitação da guerra por parte da organização. "Muita gente da Cruz Vermelha opina que devemos lutar pela paz", acrescentou. Acham que o CICV deve estar no lado que luta pela "justiça, a segurança e a liberdade". "Mas, talvez, nosso apego principal não é em relação a estes valores", afirmou, "mas em relação a um pensamento mais sombrio: a idéia segundo a qual, entre a morte, o medo e o massacre, a dignidade pode continuar prevalecendo entre os guerreiros". Holleufer colocou um vídeo. Esperava distribuí-lo aos canais de televisão da antiga Iugoslávia. Tratava-se de uma série de desenhos, de linhas cinzas, de combatentes patrulhando ruas em ruínas e com uma simples voz de fundo que dizia: "Um guerreiro não mata prisioneiros; um guerreiro não mata crianças; um guerreiro não estupra mulheres". A voz surpreendia pelo que não dizia. Não fazia nenhum apelo à compaixão ou à decência. Não falava aos combatentes em sua condição de seres humanos, mas, simplesmente, em sua condição de guerreiros. Quantos entre nós estamos preparados para depositar em soldados nossa confiança ética? Apesar de tudo, o tenente Calley era um oficial de um Exército com uma sólida tradição de honra, mas esta tradição não deteve o massacre de My Lai. No entanto, o tempo que passei com o CICV me ensinou a reconsiderar minha cultura antibélica. A Cruz Vermelha reconhece que a honra de um guerreiro é uma pequena esperança, mas quiçá seja tudo o que há para separar a guerra da selvageria. E uma esperança resultante é que os homens podem ser treinados a combater com honra. Embora os exércitos treinem as pessoas para que matem, também lhes ensinam a moderação e a disciplina; canalizam a agressão, convertendo-a em ritual. Apenas as normas éticas redimem a guerra, e, como afirma Holleufer, "a Cruz Vermelha é o guardião das normas". O problema, aceita Holleufer, é que cada vez há mais guerreiros que já não respeitam as normas. Com a tecnologia moderna, a distância entre o guerreiro e sua presa se tornou cada vez maior, tanto no aspecto ético quanto no geográfico. Qual pode ser o sentido de honra que relacione o técnico que aponta um míssil Cruise ou Tomahawk com os civis de Bagdá, a mil milhas de distância? No outro lado da balança, o mercado mundial de armas de curto alcance está rompendo o monopólio dos Estados sobre os meios de violência. A história da guerra é constituída por um processo no qual o Estado confisca a violência da sociedade e a confia a uma casta especializada de guerreiros. Mas se o Estado perde o controle da guerra, como tem ocorrido em muitas das zonas vermelhas de insurgência e rebelião no mundo, se a guerra se torna o campo vedado de exércitos privados, gangsters e paramilitares, então pode desaparecer a diferença entre a batalha e a barbárie. A batalha de Solferino durou um dia, do amanhecer ao crepúsculo. A guerra em Angola durou trinta anos. A guerra afegã vem ocorrendo desde 1979. Os massacres em Ruanda e no Burundi começaram com a independência nos anos 60 e desde então vêm se repetindo. Em épocas passadas, a guerra respeitava seus próprios limites ecológicos. Os conflitos se extinguiam por si próprios quando os soldados se esgotavam, da mesma forma que os abastecimentos e a comida. Agora, a guerra tem a capacidade de ultrapassar a capacidade de resistência da ecologia local. Os esforçados delegados do CICV lutam para que a população possa se sobrepor ao insuportável; mas escondido na mente de cada delegado está o pensamento de que, ao atender o ferido, ao dar refúgio ao que perdeu seu lar e ao confortar viúvas e órfãos, não está fazendo mais do que prolongar o conflito, dando à sociedade a capacidade de continuar se destruindo a si própria. O surgimento da guerra endêmica e irregular no final do século XX permitiu ao CICV ampliar rapidamente seu orçamento e seu pessoal. Em lugares como o Afeganistão, chegou até novos guerreiros e encontrou uma linguagem que pode compartilhar com eles, e nisso tem sido mais eficaz que nenhuma outra organização. Mas compartilhar uma linguagem não é suficiente para deter a violência. O monopólio do Estado foi quebrado: seus arsenais foram saqueados e as armas, tão fáceis de usar que uma criança pode aprender a matar em um quarto de hora, se expandiram como um vírus através de todo o tecido social das sociedades pobres. Mais do que desenvolvimento, mais do que ajuda ou socorros de emergência, mais do que guardiães da paz, o que estas sociedades necessitam são Estados, com exércitos profissionais comandados por dirigentes treinados. A polícia e o exército da nação-estado continuam sendo as únicas instituições disponíveis que foram estabelecidas para controlar e canalizar a violência humana em grande escala. É necessário desarmar as milícias e confiscar as armas. Onde for que a comunidade internacional veja uma clara perspectiva de vitória, terá que apoiar um dos lados, uma das milícias ou das tribos, para que vença de maneira clara, consolide o poder, restaure a ordem e crie exércitos com a autoridade, a disciplina e o autocontrole que lhes permitam recuperar o monopólio da violência. Se não for assim, os jovens com as máscaras do Dia das Bruxas e os fuzis AK-47 expandirão o perigo inclusive mais perto das zonas de segurança, e não será tarefa do CICV detê-los. Como expressa Holleufer, "somos as sentinelas entre o humano e o desumano". Nunca foram tão necessárias as sentinelas. Nunca foi tão perigoso o trabalho de alertar. Uma semana antes do Natal de 1996, seis membros do pessoal da Cruz Vermelha dormiam em suas camas num hospital do CICV em Novye Atagi, perto de Grozny, na Chechênia. O hospital, no qual se prestava atenção médica a todas as facções do conflito, tinha sido aceito oficialmente tanto pelas autoridades russas como chechenas. As instalações do hospital eram vigiadas por pessoal de guarda checheno desarmado. Ao redor das quatro da manhã, um número desconhecido de homens armados e mascarados escalou o muro das instalações. Todos tinham pistolas com silenciadores. Bateram num guarda, deixando-o inconsciente, dispararam vários tiros nos computadores do hospital e abriram caminho até o bloco dos dormitórios onde dormia o pessoal da Cruz Vermelha. Uma enfermeira chechena os viu e lhes pediu explicações e lhe disseram que saísse do meio. As seis pessoas que dormiam, provenientes do Canadá, Noruega, Nova Zelândia, Holanda e Espanha, foram executadas a tão curta distância que depois lhes encontraram queimaduras de pólvora. Um dos delegados homens que conseguiu se levantar para resistir recebeu uma bala no ombro e pôde se salvar, fingindo de morto. Os membros do esquadrão paramilitar fugiram quando um dos guardas chechenos - que, contra as ordens, estava armado - disparou para o ar em sinal de advertência; escalaram o muro e desapareceram. Nenhuma das facções chechenas ou russas se responsabilizou pelo crime. O incidente foi o pior massacre de pessoal da Cruz Vermelha da história. Numa reunião urgente de chefes de delegação para discutir sobre segurança, o CICV reconheceu que as novas e semicriminosas formas de guerra expunham os delegados a perigos que nunca tinham visto antes. Mas não aceitaram a necessidade de colocar guardas armados nos hospitais ou de fornecer escoltas armadas aos seus comboios. Reafirmaram sua fé na legitimidade do emblema da Cruz Vermelha. Enquanto os ataúdes com os corpos dos seis membros do pessoal - Nancy Mally, Sheryl Thayer, Hans Elkerbout, Ingeborg Foss, Gunnhild Myklebust e Fernanda Calado - eram tirados do avião para a pista do aeroporto de Genebra, Tobias Brendland, médico da Cruz Vermelha Norueguesa, sobrevivente do ataque, estava em pé em posição de sentido, portando o símbolo da Cruz Vermelha na lapela de seu casaco de inverno. Na sede da organização, uma bandeira a meio pau estava hasteada no pátio, e, no salão onde deveria ser realizada a festa de Natal, os membros do pessoal e os delegados se reuniram para ouvir Cornelio Sommaruga. Ele havia recebido uma mensagem de um delegado de campo e a leu em voz alta: "Todo o nosso esforço está baseado na crença em que, no meio das piores atrocidades da guerra, o homem mantém um mínimo fundamental de humanidade. Acontecimentos como este podem tornar muito difícil que mantenhamos esta crença. Mas, sem ela, teríamos que admitir que nada diferencia o homem da fera, e isto não vamos admitir." Sommaruga pronunciou esta última frase com ênfase particular. O salão permaneceu em silêncio durante vários minutos. Depois, os homens e mulheres da Cruz Vermelha se dirigiram silenciosamente para a fria noite de inverno. |