25-09-2009 Entrevista Afeganistão: o custo humano da guerra Patrick Hamilton, que recém terminou um período como chefe-adjunto da delegação do CICV no Afeganistão, deixa o país à medida que o conflito se espalha e se intensifica. Ele fala sobre como o CICV pôde ampliar suas operações ao longo dos últimos anos graças a seus princípios de neutralidade e independência.
©ICRC
Patrick Hamilton, que recém terminou um período como chefe-adjunto da delegação do CICV em Cabul
Qual é a situação do conflito hoje e que modificações o senhor viu nos últimos anos?
Dados de uma pesquisa de 2009. Para saber mais, O senhor diz que a forma como a guerra está sendo conduzida tem um impacto prejudicial sobre os civis. O que o CICV está fazendo com relação à condução das hostilidades? Nos últimos três anos, começamos ou retomamos discussões sólidas com os países estrangeiros que têm forças armadas no Afeganistão, a OTAN, as forças de segurança afegãs e com a oposição armada. O objetivo é fazer com todos aceitem a missão do CICV, que nos deem acesso aos que sofrem as consequências do conflito e discutam maneiras de conduzir as hostilidades que reduziriam o impacto da guerra sobre os não-combatentes. O que estamos ouvindo agora dos líderes de todas as partes envolvidas com inédita transparência é que eles de fato pretendem tentar proteger os civis dos efeitos do conflito. Essa intenção se reflete, por exemplo, nas diretrizes táticas da OTAN e nas últimas declarações do líder Talibã. No entanto, o conflito continua matando os civis. Traduzir essa intenção em uma maior proteção ainda é um grande desafio. E que continuará assim enquanto o conflito continuar se intensificando. O senhor diz que agora existe uma intenção de reduzir o efeito sobre os civis. O que gerou essa mudança de atitude? Houve vários fatores. O primeiro está o fato de que o conflito já foi longe demais e agora se intensifica. O grande número de incidentes com graves efeitos sobre a população civil afeta intervenientes políticos, combatentes e qualquer pessoa que leia as notícias. Existe uma crescente conscientização da necessidade de se cumprirem com as obrigações morais e legais com mais rigor. Mas há também um egoísmo inteligente. Ambos os lados querem conquistar a população civil e reconhecem que as vítimas civis só podem alienar a população do Afeganistão e gerar mais ressentimento e ódio para com os responsáveis. Por fim, o diálogo tranquilo do CICV com ambos os lados os tornou mais conscientes das consequências de suas ações. Este é um caso no qual o CICV cumpre com seu mandato de ser tanto guardião do Direito Internacional Humanitário como voz das vítimas do conflito. Para a maioria dos afegãos é difícil ter acesso aos cuidados médicos. Como é no caso das vítimas do conflito? O acesso aos cuidados no Afeganistão já é mínimo em tempos de paz. O CICV está particularmente preocupado com os numerosos ataques ao pessoal sanitário, aos centros de saúde e aos doentes e feridos. Esses ataques infringem o Direito Internacional Humanitário e impedem o pessoal sanitário de trabalhar nas áreas onde estão os mais necessitados. De acordo com uma recente pesquisa (em inglês) realizada pelo grupo Ipsos a pedido do CICV, mais da metade na população do Afeganistão tem acesso mínimo ou não tem acesso aos cuidados médicos. Para piorar as coisas, as pessoas nas áreas remotas têm tanto medo de serem capturadas por um lado ou por outro que em geral nem tentam chegar aos centros médicos nas cidades. O CICV continuará pressionando a tecla de que proteger os serviços sanitários e àqueles que o necessitam não é uma questão de respeitar o direito; é interesse de todos. Quais são os desafios operacionais que o CICV enfrenta em um ambiente tão complexo e perigoso como o Afeganistão? O principal desafio é ter acesso seguro às pessoas e aos lugares. A natureza complexa do conflito implica que temos que falar com todos os lados, em todos os níveis, para garantir que eles entendam, aceitem e respeitem a presença e o mandato do CICV e que permitam que continuemos com nosso trabalho. Nossos esforços para restabelecer o diálogo com todas as partes ao longo dos últimos três anos recuperaram o respeito e a compreensão, pelo menos no nível das lideranças. Como resultado, estamos estendendo nossa cobertura geográfica a áreas nas quais não podíamos entrar e isso é encorajador. No entanto, ainda temos que transitar com cautela. É praticamente impossível conseguir sólidas garantias de segurança, simplesmente por causa dos milhares de artefatos explosivos improvisados e os índices de criminalidade. Portanto, embora o respeito ao CICV tenha voltado a muitas áreas, o que nos permite fazer mais coisas, o Afeganistão ainda é um ambiente muito perigoso para operações, com muitas áreas proibidas. Como o CICV consegue manter contato com a oposição armada? A oposição armada e o CICV começaram a buscar um diálogo há algum tempo e o fato de termos em nossa equipe funcionários internacionais fluentes em pashto com certeza fez a diferença. O contato regular com as famílias que nos procuravam para saber notícias de seus parentes que estavam sob custódia dos Estados Unidos ou do Afeganistão ajudou a construir essa confiança, já que as pessoas perceberam que estávamos prontos para ouvi-los, para levar seus problemas a serio e depois atendê-las, sem motivos velados. Isso foi fundamental. O diálogo com a oposição armada começou com questões humanitárias concretas, como as pessoas feridas em combate e o que podemos fazer por elas. Depois passamos à questão de restituir os corpos de combatentes e civis a suas famílias para um enterro digno. A partir disso, foi possível abordar outros tópicos, como a conduta das hostilidades e o acesso às pessoas e às áreas. Também conseguimos discutir a possibilidade de implementarmos outros programas humanitários, como a campanha de vacinação contra a pólio. Aos poucos, convencemos todas as partes do que temos feito nos últimos trinta anos, isto é, ajudar as pessoas afetadas pela guerra, tratar todas as pessoas como determina o Direito Internacional Humanitário, independente de sua filiação política. Todos as partes envolvidas já nos viram fazendo isso. Também viram que permanecemos fiéis a nosso mandato e nossos princípios de neutralidade e independência. Como resultado, eles se tornaram cada vez mais propensos a permitir que façamos nosso trabalho. Como o senhor resumiria a posição do CICV no Afeganistão? Do ponto de vista do CICV, aconteceram duas coisas no ano passado: a má notícia é que o conflito se espalhou e que o potencial para o sofrimento humano aumentou na mesma proporção; a boa notícia é que todas as partes envolvidas estão agora engajadas mais concretamente com o CICV em questões humanitárias. O engajamento precisa ir muito mais além, mas é uma luz em meio a tanta escuridão. |