A Zona Sul do Rio de Janeiro é um dos mais belos cartões-postais do mundo. A cena idílica de praias, areia branca e mar azul não resume, entretanto, essa cidade do litoral sudeste do Brasil que mistura riqueza e pobreza, abundância e carência no mesmo espaço.
©ICRC/Marizilda Cruppe
Moradores da favela participam de curso sobre primeiros-socorros realizado pela Cruz Vermelha Brasileria com o apoio do CICV.
Fora das praias, crescem enormes bairros periféricos densamente povoados, chamados de favelas. Quando essas favelas incham e unem-se geograficamente nos seus limites, ganham o nome de Complexos. São extensas zonas territoriais muitas vezes carentes de acesso a serviços públicos e onde os níveis de violência são mais altos em comparação com o resto da cidade.
Para amenizar o sofrimento dos moradores destas comunidades, a Cruz Vermelha Brasileira concluiu no dia 2 de agosto o primeiro treinamento em primeiros-socorros para 49 moradores dos complexos do Alemão e da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro. De acordo com os planos, o programa será estendido para outras comunidades do Rio de Janeiro consideradas "zonas de vulnerabilidade social", onde altos índices de violência e carência de serviços se misturam.
Com esse projeto, a organização espera que os alunos tenham condições de atender os feridos por situações de violência ou acidentes domésticos, além de disseminar os conhecimentos de saúde entre seus vizinhos.
"Queremos que essas pessoas saibam salvar vidas, sem distinção de nenhum tipo", diz o representante do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) para os países do Cone Sul e Brasil, o suíço Michel Minnig.
Há 200 mil moradores só nas duas comunidades onde o projeto se desenvolve, muitos deles com dificuldade de acesso a estruturas de saúde e expostos às conseqüências humanitárias dos enfrentamentos entre forças policiais e grupos portadores de armas.
Há 200 mil moradores só nas duas comunidades onde o projeto se desenvolve, muitos deles com dificuldade de acesso a estruturas de saúde e expostos às conseqüências humanitárias dos enfrentamentos entre forças policiais e grupos portadores de armas. Estima-se que 1 milhão de pessoas vivam hoje nas 513 favelas do Rio de Janeiro, o que corresponde a 20% da população da cidade.
©ICRC/Marizilda Cruppe
Moradores da favela aprendem técnicas de primeiros-socorros.
Ana Corina, moradora da Maré há 20 anos, participou dos seis sábados de treinamento dado pelos voluntários da Cruz Vermelha Brasileira. "Eu já vi gente ferida perto da minha casa e eu não sabia o que fazer. Agora, pelo menos, sei como ajudar", diz. "Na hora do perigo até eu me surpreendo comigo mesma. Fico calma".
Esta é a primeira vez que o CICV coopera com a Cruz Vermelha Brasileira em favelas do Rio de Janeiro. O projeto também teve apoio de duas associações locais, a Luta Pela Paz e o Educap (Espaço Democrático de União, Convivência, Aprendizado e Prevenção).
A oficial de programa do CICV no Rio de Janeiro, Ana Cristina Monteiro, reconhece que o número de alunos é pequeno se comparado com a população destas comunidades, mas ela conta que "todos os participantes nos disseram que nós fomos os primeiros a trazer um projeto como esse para cá".
Além disso, a Cruz Vermelha Brasileira ofereceu para moradores destas duas comunidades 10% de todas as vagas permanentes nos cursos regulares de primeiros-socorros, realizados na sua sede, na Praça da Cruz Vermelha, Centro do Rio, o que deve contribuir para um aumento no número de alunos ao longo dos próximos meses.