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24-02-2006  Reportagem  
Mianmar: mel selvagem e minas terrestres
Kyaw Htoo tinha 19 anos quando pisou numa mina terrestre. Ele havia sido convocado pelo seu vilarejo a fim de carregar equipamento militar e recebeu ordens de ir à frente no pequeno caminho em meio ao bosque. Duas horas mais tarde olhava chocado para os restos dilacerados da parte inferior de sua perna esquerda.

©CICV/mm-e-00068

A caminhada de três horas para o Hospital Hpapun foi um martírio e ficou ainda pior por causa da perspectiva de nunca mais poder arar a terra das colinas perto de seu vilarejo.

“Era 12 de março de 1997”, disse ele, com a data gravada indelevelmente na sua mente.

A região de Hpapun, no norte do Estado de Kayin, é famosa em Mianmar por duas razões: mel selvagem e minas terrestres. Ambas são produto das colinas cobertas de florestas: abelhas selvagens escolhem os rochedos isolados onde escondem seu ouro derretido, e os rebeldes costumavam usar a cobertura da floresta para resistir e trazer as forças do governo para a luta, até que um frágil cessar-fogo pôs fim às hostilidades em 2003.

As minas terrestres, usadas por todos os lados no conflito, continuam a ser uma lembrança mortal do custo humano dos confrontos, particularmente para os civis.

Kyaw Htoo recuperou-se de seus ferimentos e em 1998 viajou de Hpapun para o Hospital Nacional de Reabilitação em Yangon, com o apoio do CICV. Ele viajou com outros 14 amputados. Kyaw recebeu uma prótese que lhe trouxe a mobilidade e a independência de volta, e voltou para Hpapun a fim de entrar no monastério.

Alguns anos mais tarde começou a ajudar outras pessoas como ele a reconquistar a autonomia. Viajou para vilarejos remotos em busca de amputados e indicou-os para o Centro de Reabilitação Ortopédica (CRO) Hpa-na, construído pelo CICV em 2002, na capital do Estado de Kayin.

Com freqüência a oferta de transporte gratuito, hospedagem e tratamento não era suficiente para convencer os amputados a deixarem seus vilarejos para o desconhecido, e Kyaw Htoo os acompanhava na viagem de sete horas de ônibus para o CRO. O respeito que lhe foi outorgado como monge o ajudou a passar pelos postos de controle sem nenhum incidente.

Entre março de 2003 e dezembro de 2004 ele prestou assistência para que 120 pessoas da região de Hpapun pudessem recuperar todo o seu potencial, apresentando-lhes os serviços ortopédicos do CICV.

Melhorias no hospital

No Hospital Hpapun, Saw Kyaw Day, um amputado que foi indicado para o CRO por Kyaw Htoo, em 2003, senta à beira do leito de sua filha de três anos, que está com malária. Ele pisou numa mina terrestre quando estava trabalhando na terra, em 2002. A última vez que esteve neste hospital foi quando sua perna foi extraída e está surpreso de ver que agora há água e latrinas com descarga dentro do prédio. Ele nunca havia visto latrinas com descarga antes.

Em 2005, o CICV instalou um sistema de água corrente, latrinas e lavanderias no hospital, para substituir o sistema interno que estava entupido e apresentava vazamentos, bem como as latrinas estragadas, que ficavam do lado de fora do prédio. O CICV também introduziu um sistema para jogar fora o lixo hospitalar de forma segura, e deu início a sessões de educação para a saúde. Antes, todo o lixo era jogado num fosso comum que transbordava quando o lençol freático subia durante a estação chuvosa.

“A higiene geral melhorou muito”, afirma Naw Hla Hla Thi, enfermeira chefe do hospital, “e agora muito mais pessoas na cidade querem ter uma latrina com descarga e estão mais conscientes sobre como devem jogar fora o lixo”.

Para a equipe de engenheiros do CICV, a próxima fase na reabilitação do hospital inclui a reforma do auditório e o conserto do incômodo depósito da cozinha, cujo telhado caiu em parte. Esses projetos não assistem apenas os pacientes e os funcionários do hospital, mas também permitem que o CICV tenha uma presença regular nesta região remota da floresta para conversar com a população sobre suas necessidades e preocupações.

Uma abordagem integrada

O programa de assistência também abriu portas junto às autoridades e permitiu que o CICV exibisse filmes e mantivesse conversações sobre os princípios humanitários, o mandato da organização e suas ações no mundo. Famílias inteiras acompanharam os oficiais da polícia para as exibições e seus olhos ficaram fixos no filme que estava sendo exibido. O processo para tentar construir o entendimento e a confiança é lento, mas é assim que o CICV espera conseguir ter acesso às áreas atingidas pelo conflito, que precisam de mais assistência ainda.

Notícias dos entes queridos

Ao voltar de Hpapun, a equipe do CICV pára na cidade de Kamamaung a fim de ver se o voluntário local da Cruz Vermelha, Saw Han Nyunt, recebeu uma resposta da Mensagem Cruz Vermelha que lhe foi dada no caminho de ida para que ele a entregasse num endereço da cidade. Ele é voluntário da Sociedade da Cruz Vermelha de Mianmar desde 1974 e afirma que a entrega de Mensagens Cruz Vermelha é a melhor parte de seu trabalho.

“Adoro deixar as pessoas felizes dando-lhes notícias de um parente do qual eles ficaram sem ter notícias por muito tempo”, afirmou “Já entreguei para famílias Mensagens Cruz Vermelha de pessoas que eles acreditavam ter morrido. Isto é muito emocionante.”

Nessa ocasião, a Mensagem era para a mulher de um interno de um campo de trabalho. Ela não recebia notícias dele desde que ele tinha sido preso, há sete meses. Ela respondeu a Mensagem Cruz Vermelha que recebeu anexando à sua resposta uma foto do bebê que eles tiveram juntos, para que seu marido pudesse ver como a criança havia crescido.

No caso de Kyaw Htoo, ele deixou o monastério quando seu pai adoeceu e agora sobrevive do corte de cana. Ele viaja diariamente quatro horas para colher a cana, mas não se importa com o trabalho duro porque ele o mantém em contato com as pessoas que ajudou. “Gosto de visitar os vilarejos em torno de Hpapun”, afirmou, subindo com agilidade na sua bicicleta. “Fico feliz quando vejo alguém que tive de convencer a obter uma nova perna arando a terra e sendo novamente produtivo. Sou bem-vindo onde quer que eu vá.”


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