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English title: Gaza: plight of civilians traumatic in 'full-blown humanitarian crisis'
palestine-press-briefing-060109
6-01-2009  Entrevista  
Gaza: situação traumática de civis em uma 'crise humanitária completamente desenvolvida'
Um crescente número de civis morre ou é ferido na crise que se intensifica em Gaza. Em uma conferência de imprensa em Genebra, no dia 6 de janeiro, o diretor de operações do CICV, Pierre Krähenbühl, descreveu a situação dos civis em Gaza como intolerável e pediu às partes envolvidas no conflito que façam o possível para que o CICV e a Sociedade Crescente Vermelho da Palestina cheguem aos necessitados.

Krähenbühl começou ressaltando o enorme nível de preocupação e ansiedade que o CICV tem com relação à crise em Gaza. Expressou a grande preocupação do CICV com o crescente número de civis mortos e feridos e com a quantidade cada vez maior de edifícios civis, incluindo hospitais, atingidos pelas operações militares de Israel.

"Sem dúvida, estamos lidando com uma crise grande e completamente desenvolvida em termos humanitários. A situação das pessoas em Gaza é extrema e traumática, resultado de dez dias ininterruptos de combate. Nesse sentido, a situação deles se tornou claramente intolerável".

"A principal mensagem que sai de Gaza esta manhã é de medo e frustração. As pessoas estão assustadas: pais temem pela segurança de seus filhos e grande parte da população teme ser atingida pelo combate. A noite passada foi descrita como a mais assustadora até o momento". Krähenbühl ressalta que as coisas pioraram desde o início da ofensiva terrestre israelense no último sábado.

Enfatizou que as condições em Gaza eram extremas, mesmo antes da recente escalada. Uns meses antes, colegas do CICV descreveram que a região estava "no limite", devido ao fechamento e a restrição de importação imposta por Israel desde meados de 2007.

O diretor de operações do CICV também destacou a situação no sul de Israel, onde as pessoas continuam sofrendo com o regular ataque de foguetes oriundos da Faixa de Gaza. Relatórios falam de quatro civis mortos e sessenta feridos. Esses ataques espalharam o medo entre quase um milhão de israelenses que vivem nas regiões afetadas.

Krähenbühl disse que agora é crucial que as partes envolvidas neste conflito façam tudo para manter os civis fora da linha de fogo. Acrescentou que os ataques diretos a civis estão proibidos, bem como os ataques indiscriminados. Além disso, os alvos militares não podem estar localizados em áreas de grande densidade populacional ou próxima a elas.

"Os únicos que podem ser atacados legitimamente são os participantes diretos das hostilidades. Os demais devem ser poupados. Da mesma maneira, as infra-estruturas civis, como hospitais, suprimentos de água e redes de esgoto não podem ser atacados diretamente. Respeitar as leis do DHI – respeito aos civis, distinção entre civis e combatentes, medidas de precaução - é de suma importância, sobretudo quando se considera que Gaza tem uma das maiores densidades populacionais do mundo. À medida que o conflito se intensifica, torna-se cada vez mais perigoso para os civis. Eles devem ser poupados. A segurança deles é primordial".

Acesso a cuidados médicos

Krähenbühl continuou descrevendo a crise com relação ao acesso a cuidados médicos, que piora a cada dia em Gaza.

"Muitas pessoas em Gaza não recebem os cuidados médicos emergenciais de que necessitam. Alguns, inclusive, morrem porque as ambulâncias não chegam a tempo, o que, francamente, é estarrecedor".

Para enfatizar a questão, recontou a história de uma mulher em Zeitun, no norte de Gaza, que deu a luz a um bebê morto porque as ambulâncias não conseguiram chegar a tempo.

Disse que se for confirmada que Gaza será de fato dividida em duas ou três partes por ataques israelenses, isso tornaria ainda piores os atrasos para os que necessitam assistência médica.

"Pedimos às partes envolvidas, especialmente Israel, que façam mais para permitir que a Sociedade Crescente Vermelho da Palestina e outras equipes médicas possam salvar vidas. Imploramos que as partes envolvidas cumpram com suas obrigações de acordo com o DHI, de recolher, cuidar e evacuar os feridos e proteger e respeitar as equipes médicas, hospitais e outras unidades médicas e ambulâncias".

Enfatizou a grande diferença que isso poderia fazer quando se trata de salvar vidas, apesar dos perigos e atrasos, as ambulâncias da SCVP conseguiram salvar dezenas de feridos a cada dia em Gaza.

A situação nos hospitais em Gaza

Krähenbühl descreveu o apuro nos hospitais em Gaza, onde as salas de emergência e as unidades de tratamento intensivo são levadas ao limite. Os hospitais estão superlotados e as equipes estão exaustas.

"Os hospitais agora dependem de geradores, mas esses geradores podem quebrar a qualquer momento por falta de manutenção e de peças de reposição nos últimos 18 meses. Na segunda-feira, havia uma preocupação por conta do combustível em dois hospitais, que está por terminar. O CICV está tentando resolver esse problema negociando a passagem segura de tanques de combustível da AATNU".

As atividades terrestres do CICV em Gaza

Krähenbühl demonstrou alívio e satisfação por a equipe cirúrgica do CICV ter finalmente podido entrar em Gaza na segunda-feira e agora estar trabalhando no hospital Shifa para apoiar as equipes locais. Dependendo de como evoluir a situação, o CICV vai dispor de equipes extras conforme a necessidade.

Descreveu a cooperação entre o CICV e a SCVP e o Magen David Adom israelense (MDA). As atividades da SCVP envolvem principalmente serviços de ambulâncias, para as quais o CICV tenta conseguir passagens seguras. O MDA ajuda aos feridos em Israel, dá treinamento de primeiros-socorros e também tem atendido a vários palestinos feridos evacuados para tratamento em Israel.

"Esta é a oportunidade de ressaltar que, como sempre, os primeiros a responderem em toda as crises são os atores locais, que trabalham sob condições muito perigosas. A equipe do CICV em Gaza apóia e busca aumentar seu envolvimento direto, especialmente nos hospitais".

Krähenbühl continuou resumindo as principais atividades do CICV em Gaza, cuja principal preocupação é dar acesso a cuidados médicos e apoio aos hospitais.

O CICV pôde levar aos hospitais drogas e suprimentos médicos para 3 mil feridos e centenas de outros levemente feridos e pacientes doentes. Também forneceu material extra, como lençóis plásticos para cobrir janelas quebradas. No entanto, com a constante entrada de feridos, os hospitais precisarão de novos suprimentos a cada dia.

"Na segunda-feira, por exemplo, os hospitais ficaram completamente sem vacinas antitetânicas, que pode salvar as vidas dos feridos. O CICV levou novos suprimentos de sangue e mil doses de antitetânica para Gaza".

Água e outros gêneros básicos

Krähenbühl manifestou a grande preocupação do CICV com relação aos danos nas linhas de energia que levam eletricidade de Israel para Gaza, que têm um rápido efeito dominó no suprimento de água. Como resultado, dez dos 45 poços de água da Cidade de Gaza não estão mais funcionando; outros foram danificados pelos ataques aéreos e espera-se que outros tantos parem de funcionar em breve.

"A menos que o fornecimento de energia possa ser consertado, cerca de meio milhão de pessoas na Cidade de Gaza ficará sem acesso a água potável. O CICV está trabalhando para assegurar acesso seguro aos técnicos que tentam consertar as linhas de energia".

Pierre Krähenbühl fechou com uma forte declaração para as partes envolvidas neste conflito.

"Ao mesmo tempo em que há uma declarada boa vontade por parte das autoridades israelenses para facilitar a realização de atividades humanitárias, o que se traduziu na possibilidade de transferir material e gêneros para a Faixa, a movimentação em terra permanece extremamente difícil e perigosa por conta da dinâmica do conflito em andamento. Isso acontece apesar dos mecanismos de coordenação existentes. O CICV insiste em que a possibilidade de chegar aos necessitados e a infra-estrutura atingida devem melhorar imediatamente".




O CICV conta com uma equipe em Gaza de 13 expatriados e 65 locais. Trabalham em cooperação com o SCVP, equipes de hospitais e de instituições que prestam serviços básicos, como água e saneamento.

©ICRC / T. Gassmann
06/01/09. Conferência de imprensa.

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