“Alguns dos deslocados haviam retornado a Mogadíscio recentemente. Eles tinham esperança de poder reconstruir suas vidas em um ambiente mais favorável”, afirmou Pascal Mauchle, que chefia a delegação do CICV na Somália. “As esperanças agora estão abaladas e o sofrimento continua.”
Muitos dos que fugiram eram mulheres e crianças. Eles estão se juntando às centenas de milhares de deslocados nos campos localizados nos subúrbios da cidade e em outras áreas do país, ou indo para os campos de refugiados que já se encontram superlotados nos países vizinhos.
“A situação é motivo de grande preocupação”, afirmou Mauchle. “Em geral os deslocados deixam suas casas com muito poucos pertences e lutam para sobreviver”. Nos campos improvisados na Somália eles não têm alimentação adequada e água potável. As condições insalubres aumentam ainda mais o risco para a saúde deles, que já é frágil.
Também existem bolsões de violência em outras áreas do país. Confrontos armados têm levado as pessoas a deixar suas casas em várias cidades no centro e no sul da Somália. As comunidades que as acolhem não têm capacidade para ajudá-las como gostariam, de acordo com a tradição somali. As consequências de anos de conflito armado e uma crônica falta de chuvas, além da crise econômica em curso, exauriram os recursos da população residente. Também tornaram mais difíceis as condições para que as famílias possam alimentar seus filhos. Muitos dos deslocados continuam sem nenhuma proteção, abrigo, comida ou utensílios para preparar uma refeição.
“A vida é muito difícil”, afirmou Fátima, mãe de quatro crianças em Mogadíscio. “Todos os dias meus filhos me perguntam sobre o pai. Não sei o que lhes dizer, porque não sei o que aconteceu com ele. Estou me esforçando para encontrar alguma coisa para comer. Não temos um lugar para dormir. Tudo o que quero é um lugar seguro para criar meus filhos.”
O CICV está respondendo à situação de várias maneiras.
Apoio aos centros de saúde
Mogadíscio
O CICV está fornecendo apoio aos dois hospitais de referência cirúrgica da capital: o Hospital Keysaney, no norte de Mogadíscio, administrado pelo Crescente Vermelho somali, e o Hospital Medina, na região sul da cidade.
Desde janeiro, os dois hospitais trataram de mais de 1.500 civis, a maioria deles vítimas de ferimentos à bala, incluindo mulheres e crianças. Os hospitais aceitam pacientes de todas as origens, não importando o clã de proveniência ou a afiliação política ou religiosa. O CICV tem apoiado esses hospitais há muitos anos, e enviou 50 toneladas de material médico para ambos desde o início de 2009.
O CICV também ofereceu um novo serviço de ambulância com kits de curativos para estabilizar os feridos antes de transportá-los para os hospitais. Cada kit de curativo atende às necessidades de 50 pacientes.
Desde janeiro, 52 mil pacientes receberam cuidados médicos em seis clínicas temporárias administradas pelo Crescente Vermelho somali em campos para deslocados perto de Mogadíscio. As clínicas foram instaladas no ano passado. O CICV paga os salários das equipes e os custos operacionais das clínicas, além de fornecer material médico e treinamento.
Sul e Centro da Somália
O Crescente Vermelho somali e o CICV mantêm, apoiam e administram uma rede de 28 clínicas em áreas remotas do centro e do sul da Somália.
Desde janeiro, 18 mil mulheres foram enviadas para as clínicas para consultas de pré-natal e de pós-parto. Foram ainda realizadas 69 mil consultas curativas nas clínicas, cada uma delas com a participação de uma parteira, uma enfermeira cadastrada e uma auxiliar. A parteira é responsável pelos cuidados de pré-natal e de pós-parto; a enfermeira cadastrada cuida das doenças comuns como diarréia ou malária, e a auxiliar é responsável por fazer os curativos e tratar dos ferimentos. As clínicas atendem a cerca de 300 mil pessoas. O CICV paga os salários e os custos operacionais das equipes, e dá treinamento e fornece material médico.
Desde janeiro foram tratados 700 casos de cólera em Kismayo. Oito emissoras de rádio se somaram aos esforços do CICV e transmitem programas de divulgação sobre higiene e cólera.
Ajuda emergencial
Desde janeiro, o CICV forneceu gêneros essenciais como roupas, garrafões de água, lonas, cobertores, colchonetes e utensílios de cozinha para mais de 234 mil deslocados internos nas regiões sul e central da Somália.
Em maio, 66 mil pessoas deslocadas e destituídas em Badhadhe, Hagar, Juba Meridional e Sool, e 36 mil deslocados em Kismayo receberam um suprimento de porção de comida seca suficiente para dois meses.
Em resposta à recente intensificação dos combates em Mogadíscio, o CICV está planejando distribuir gêneros alimentícios de primeira necessidade para as pessoas que fugiram em direção aos subúrbios da cidade e para Shabelle Central e Meridional.
Melhora dos recursos de água
As comunidades com pouca ou nenhuma renda não podem manter ou reformar as instalações de água como poços, tanques e sistemas de captação de água. O longo conflito armado e o impacto negativo da mudança climática global e a seca crônica contribuíram para debilitar seriamente as comunidades pastoris que respondem por uma grande parte da população somali.
A fim de ajudar as pessoas até o início da estação chuvosa, o CICV realizou uma grande operação de fornecimento de água. De março a maio a organização enviou, por um caminhão, cerca de 150 milhões de litros de água para áreas remotas na região central do país. O volume foi distribuído para 500 mil pessoas.
Ao mesmo tempo, o CICV continuou seus esforços para melhorar os sistemas de fornecimento de água nas áreas urbanas e rurais tanto para as famílias residentes como para as deslocadas. O objetivo é aumentar os pontos de distribuição de água para promover melhorias na atividade econômica de sobrevivência da população e minimizar o impacto da seca no futuro.
Desde o começo do ano, o CICV concluiu nove grandes projetos e atualmente está trabalhando em outros 12 distribuídos por sete áreas do centro e do sul da Somália. Os projetos, que vão beneficiar quase dois milhões de pessoas, incluem consertos em tanques e poços e nos sistemas de distribuição, grandes sistemas de captação de água nas áreas onde as condições geológicas não permitem a perfuração, e a reforma de reservatórios subterrâneos abastecidos pela água da chuva.
Outras atividades de assistência
A maioria das bombas d’água no país foi destruída ou saqueada desde o surgimento do conflito armado nos anos 1990. Isto significa que a agricultura é agora basicamente irrigada pela água da chuva, com exceção das regiões de Shabelle Central e Meridional e de Juba Central. As chuvas intermitentes ou o baixo índice pluviométrico em geral levam ao fracasso parcial ou completo da colheita. Muitas regiões do país têm sofrido da falta de chuvas há várias temporadas agrícolas. Os estoques de comida e de sementes de muitos agricultores estão vazios. Uma redução dramática no terreno cultivado, as colheitas ruins e a falta de renda para comprar sementes têm levado ao empobrecimento de toda a comunidade de agricultores.
O CICV está ajudando a população necessitada por meio do fornecimento de sementes e alimentos. Desde janeiro, 138 mil pessoas em nove regiões do centro e do sul da Somália receberam gergelim, milho e sementes de sorgo. A fim de ajudá-las a superar as dificuldades até a próxima colheita, cada família também recebeu uma porção de comida suficiente para um mês, com sorgo, feijão e óleo.
Desde janeiro, o CICV distribuiu 17 bombas d’água para associações de agricultores. Com cada bomba, os agricultores podem irrigar pelo menos 15 hectares de terra, beneficiando até 500 pessoas. Com uma bomba, a produção de milho pode ser de uma vez e meia a até duas vezes mais elevada que quando irrigada apenas pela água da chuva.
A fim de se preparar para a próxima estação chuvosa e evitar enchentes, o CICV ajudou as comunidades que vivem ao longo do rio Shabelle a reformarem oito pontos localizados à beira do rio e a reforçarem os diques.
Restabelecimento de laços entre familiares separados
Outro componente importante do trabalho do CICV na Somália é o restabelecimento e a manutenção dos contatos entre os familiares separados pelo conflito. Trabalhando ao lado do Crescente Vermelho somali, o CICV já recolheu este ano quase 3.500 Mensagens Cruz Vermelha e distribuiu mais de 5.800. Cento e quarenta e sete pessoas puderam voltar novamente para o seio de suas famílias e 1.690 nomes foram divulgados em um programa de rádio transmitido em parceria pelo CICV e pela BBC.
O CICV na Somália
O CICV trabalha na Somália desde 1977 e se concentra em fornecer ajuda emergencial para as pessoas diretamente atingidas pelo conflito armado – com freqüência, acrescido de tragédias naturais. Também conduz amplos programas de primeiros socorros, assistência médica básica e outros projetos de saúde com vistas a tratar dos feridos e doentes. Além disso, leva adiante projetos agrícolas e de água destinados a melhorar, a médio prazo, a segurança econômica das comunidades vulneráveis. Trabalha em parceria com o Crescente Vermelho somali e apoia o desenvolvimento desta entidade.
Mais informações:
Pedram Yazdi, CICV Somália, tel: +254 20 272 3963 ou +254 722 518 142
Nicole Engelbrecht, CICV Nairóbi, tel: +254 20 272 3963 ou +254 722 512 728
Anna Schaaf, CICV Genebra, tel: +41 22 730 22 71 ou +41 79 217 32 17
Para gravações para a TV ou fotos, favor entrar em contato com Pedram Yazdi