Página inicial
Comité Internacional da Cruz Vermelha
26-08-2008  Reportagem  
Gana: Cruz Vermelha presta assistência a uma cidade dividida por confrontos tribais
O conflito entre as tribos Mamprusis e os Kusasis na cidade de Bawku, no norte de Gana, deixou muitas pessoas temendo por suas vidas, sem meios de subsistência e dependentes da ajuda da Cruz Vermelha de Gana e do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV).

“Eu não imaginava que poderíamos ser tão violentos uns com os outros”, diz Abdulaye Talaga, residente de Bawku, relatando suas lembranças dos confrontos tribais que arrasaram nos últimos meses essa cidade no norte de Gana. “Não conseguimos reconhecer alguns corpos devido à gravidade de suas feridas. Nem as crianças foram poupadas”.

Entre 20 e 30 membros das tribos Mamprusis e Kusasis foram mortos e vários outros ficaram feridos desde dezembro de 2007. Cerca de 250 casas foram queimadas, obrigando seus moradores a fugir buscando relativa segurança na “sua” parte da cidade. Os Mamprusis se concentraram na área central de Bawku, enquanto os Kusasis foram para os limites da cidade.

Medo demais para fugir

“Não podemos cultivar nossos campos”, explica Gabianna Gbewa, integrante dos Mamprusis. Ela perdeu o irmão, que sustentava a família, durante os confrontos de junho. “Temos medo de fugir da cidade porque eles podem nos matar”, diz ela. Os Kusasis também estão assustados demais. A maioria não entra na cidade com medo dos ataques. Isso significa que não têm acesso ao hospital nem às escolas da cidade.

A Sociedade da Cruz Vermelha de Gana, com o apoio do CICV, organizou até o momento duas sessões de distribuição de comida para mais de 5 mil vítimas do conflito. Cada família recebeu 120 quilos de milho, 40 quilos de feijão, 20 litros de óleo e 2 quilos de sal.

“Essa ajuda da Cruz Vermelha não substitui nossa renda regular”, afirma Gabianna, “mas pelo menos nos ajuda a sobreviver nesses tempos difíceis. Não sei o que faria sem ela. Ninguém mais está nos ajudando”.

Violência ainda é pouco conhecida

“Sabemos que essa é a ponta do iceberg”, explica Jean-Jacques Tshamala, delegado regional do CICV em Abidjan. “Com nossa participação, esperamos chamar a atenção de outras organizações humanitárias para a condição das vítimas dessa violência pouco conhecida”.

O recente recrudescimento do conflito entre Mamprusis e Kusasis se deu após a mudança sucessória de líderes tribais, que alterou os direitos sobre as terras. A crise começou em dezembro de 2007, com novas explosões de violência em março e junho deste ano. Existe grande preocupação sobre uma eventual escalada da violência nos próximos meses, especialmente durante as eleições presidenciais de dezembro.

“Felizmente, as autoridades estão conscientes do problema e têm feito o máximo para conter a violência por meio de um forte esquema de segurança”, diz Stephen Adei, presidente da Cruz Vermelha de Gana, que viajou ao norte para iniciar a distribuição. “Por outro lado, os toques de recolher que foram impostos desde o início dos combates prejudicaram a atividade econômica. É neste contexto que entramos, para ajudar essas pessoas durante os meses de dificuldades até as colheitas de outubro”.

“Esse conflito produziu muitas vítimas inocentes”, diz Abdulai Abanga, chefe do governo municipal. “Somente pelo fato de pertencerem a uma tribo ou a outra, seus filhos foram mortos, suas casas destruídas e agora têm medo de andar pela cidade. Exortamos aos líderes das respectivas comunidades que contenham essas ações. Se houver queixas e ressentimentos, eles devem resolvê-los por meio dos canais apropriados, não com rifles e facões nas ruas. Não pode haver um vencedor em um conflito como esse. Ao contrário: todos perdem”.

Akologo Francis Amwa, voluntário da Cruz Vermelha que supervisa a distribuição na área, fala sobre suas atividades durante o conflito. “Claro que eu sentia medo, mas tínhamos um trabalho a fazer. Para isso fomos treinados. Felizmente, todos conheciam e respeitavam o emblema da Cruz Vermelha em nossa roupa. Na verdade, fomos os únicos a poder circular livremente”.

Cautela na ordem do dia apesar da calma relativa

Ayakya Mbelliba, residente na área dos Kusasis em Bawku, cujo irmão foi morto e cuja casa foi queimada em junho, fala sobre o trabalho realizado pelos voluntários da Cruz Vermelha de Gana. “Eles fizeram o melhor que podiam, evacuando as vitimas para o hospital sob toque de recolher e cruzando as linhas entre as duas comunidades. Sabíamos que estavam do lado de todos”.

“A situação em Bawju está calma no momento”, diz Jean-Jacques Tshamala, “mas devemos continuar atentos. A violência pode facilmente recomeçar. Por isso, estamos trabalhando com a Cruz Vermelha de Gana para fortalecer a capacidade de resposta humanitária das equipes em Bawku e Bolgatanga. O CICV vai continuar a monitorar a situação de perto, pronto para responder se for necessário”.

©ICRC
Uma vítima de violência recebe óleo de cozinha dos voluntários da Cruz Vermelha Ganense.
©ICRC
Um homem aterrorizado pela visão do que resta da sua casa.
©ICRC
Um homem conta seu drama nas ruinas daquilo que antes era seu lar.


Voltar ao princípio da página
Copyright © 2009 Comité Internacional da Cruz Vermelha26-08-2008
Secção: No mundo > África > Ghana
Página anterior Página anterior