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Comité Internacional da Cruz Vermelha
25-08-2008  Reportagem  
Somália: como um programa de rádio pode salvar vidas
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), a Sociedade do Crescente Vermelho da Somália e estações locais de rádio deram início a uma série de spots de rádio a fim de aumentar a consciência do público sobre o código de guerra consuetudinário somali, conhecido como “Biri-ma-Geydo” (literalmente, “preservando pessoas da lança”) e os fundamentos do Direito Internacional Humanitário (DIH).

Durante anos, confrontos armados esporádicos fizeram parte da vida diária dos habitantes da capital somali. Nesta manhã, no entanto, Mogadíscio está surpreendentemente calma. Não há enfrentamentos armados na parte sul da cidade. Crianças descalças jogam futebol na terra e quem passa por lá aproveita a tranqüilidade para comprar um pouco de comida ou carvão com o que restou do salário.

Unindo-se às massas fora da cidade

Perto dali, uma família carrega a carroça com utensílios de cozinha e esteiras. Na última semana, uma bomba atingiu sua casa, ferindo várias pessoas. A família decidiu fugir de Mogadíscio a fim de se juntar a centenas de milhares de outros deslocados em campos improvisados ao longo da rodovia Afgooye, a poucos quilômetros da cidade.
Sentado à sombra de um muro, Farah Gure, um residente de 20 anos de idade, escuta com atenção os dramas transmitidos pela FM local. Apesar da insegurança e dos combates, ele e o resto de sua família decidiram ficar em Mogadíscio.

Vítimas indiscriminadas de hoje

“Devido aos 17 anos de guerra, ao caos na Somália, aos desastres naturais, ao deslocamento constante de famílias e à falta de educação tradicional ou moderna, as pessoas jovens como eu nunca escutaram falar sobre o Biri-ma-Geydo”, diz Farah. “Atualmente, mulheres, crianças e civis são vítimas indiscriminadas dos combates que ocorrem em Mogadíscio ou em qualquer lugar”.

As normas de guerra consuetudinárias da Somália foram elaboradas séculos atrás para regular o comportamento de indivíduos, grupos e clãs, e contaram com a responsabilidade moral e a pressão social para serem cumpridas. Muito desse código de “imunidade frente à lança”, antigamente empregado por somalis, estava de acordo com os ensinamentos islâmicos relacionados à conduta em tempos de guerra.

O código de guerra somali

De acordo com um provérbio somali, toda guerra dá lugar à paz. Antes de a paz chegar, mulheres, crianças, aqueles que se vêem no meio do fogo cruzado, os feridos e os prisioneiros são protegidos e tratados com humanidade durante o conflito.

“O Direito Internacional Humanitário contém disposições das leis consuetudinárias, militares e gerais. Ele foi criado para ser aplicado em tempos de guerra e, portanto, suas semelhanças com o Biri-ma-Geydo são fáceis de explicar aos somalis”, diz Afi, o incansável coordenador de comunicação da Sociedade do Crescente Vermelho da Somália.
Os programas de rádios do CICV e do Crescente Vermelho da Somália – que incluem dramatizações, mensagens e mesas-redondas – são voltados ao público jovem e atingem diretamente as pessoas que participam de combates armados e que pouco ou nada sabem sobre o Direito Internacional Humanitário (DIH) ou o Biri-ma-Geydo.

“A Somália é um país que foi arrasado pela guerra civil durante 17 anos. Em Mogadíscio e outras cidades onde os combates costumam ocorrer, as populações se encontram freqüentemente no meio dos confrontos, e as áreas residenciais são atingidas”, diz Benjamin Wahren, vice-chefe da delegação do CICV na Somália.

“Medina e Keysaney, os dois principais hospitais em Mogadíscio, apoiados pelo CICV, tratam dezenas de pessoas feridas por balas ou estilhaços toda semana. Um terço delas são mulheres e crianças”, afirma.

Rádio multiuso

Sentando ao lado de seu rádio, Farah reflete: “Tenho certeza de que os programas de rádio sobre Biri-ma-Geydo terão um impacto positivo sobre muitos jovens que participam do conflito e que não respeitam as regras básicas da guerra durante os enfrentamentos”.

“Biri-ma-Geydo é provavelmente mais antigo que o DIH. Todos deveriam conhecê-lo. Os somalis deveriam ter orgulho e um grande respeito por ele”.

Como o rádio é a principal forma de comunicação de massa na Somália, seguindo a longa tradição oral somali, ele também tem sido bem utilizado em outras áreas.

O CICV está colaborando com as estações de rádio FM para divulgar programas de conscientização sobre cólera. Em seu esforço conjunto para restabelecer laços entre famílias separadas pelo conflito armado, o CICV e o Crescente Vermelho da Somália também colaboram com o serviço somali da BBC (em ondas curtas) para divulgar os nomes de pessoas procuradas por suas famílias na Somália e em todo o mundo. (Ver o site Somali Family Links).


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