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Mohamed Yusuf operando um paciente ferido por arma de fogo
O Hospital Medina é um dos poucos que ainda funciona em Mogadício. Qual é sua capacidade?
Acho que é o principal hospital do país hoje. Ele foi projetado para atender 80 pacientes, mas na maioria das vezes temos muito mais pacientes do que sua capacidade permite. Já chegamos a ter 200 pacientes ou mais. Recebemos feridos em explosões de minas terrestres, bombardeios, ataques com morteiros ou tiroteios. Também recebemos muitos feridos em acidentes de trânsito nas estradas ou quedas. Todos vêm para este hospital. Também temos os doentes.
O apoio que vocês recebem do CICV é suficiente?
Com relação aos medicamentos e material médico e cirúrgico, sim. Se estamos preocupados com a falta de qualquer coisa, simplesmente ligamos para o CICV e conseguimos o que precisamos. Mas não recebemos dinheiro para a limpeza do hospital, limpeza do material ou para o combustível para o gerador – que tem que funcionar 24 horas por dia – e coisas do gênero.
Para ter algum tipo de renda, pedimos aos pacientes que paguem uma pequena quantia pelo tratamento. Mas ajudamos as pessoas fazendo várias exceções a quem não pode pagar. Portanto, nunca dizemos: esse cara não pode pagar, não pode ser tratado ou não terá acesso aos serviços de saúde.
O que vocês recebem do CICV?
Mensalmente, o CICV fornece ao hospital material médico e cirúrgico, paga o salário das equipes e assiste realizando a manutenção dos equipamentos e infra-estrutura hospitalares. O CICV também treina o pessoal médico e técnico.
Devido à subnutrição e a outras doenças na Somália, o número de pessoas que necessitam tratamento médico deve ser maior do que os 200 pacientes que vocês recebem?
Infelizmente, não temos meios suficientes para criar um centro de alimentação. Seria ótimo se pudéssemos.
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Uma mulher leva seu filho ferido em um bombardeio na capital da Somália, Mogadício
O senhor poderia descrever as condições de saúde da população?
É muito ruim. A população vive com limitações que nunca havíamos visto antes. A Somália passou por 19 anos de guerra, mas os últimos dois anos foram os piores de todos. Isso causou grandes problemas. Os socorristas humanitários não podem entrar no país. Não podem chegar às pessoas e lhes levar alimentos. E se alguém está desnutrido, seu sistema imunológico está enfraquecido. Por isso há pessoas com anemias crônicas. Elas já estão muito fracas quando são feridas. Vemos o número crescente de pacientes aos quais não podemos ajudar porque já estão fracos demais antes de serem feridos.
O hospital também tem que carregar um outro fardo: alimentar os pacientes. Na maioria das vezes eles não conseguem se alimentar em casa porque já não têm casa aqui. Então o hospital tem que alimentá-los.
Se o hospital tem apenas 80 leitos, como vocês conseguem lidar com a demanda extra?
Temos tendas e abrimos uma outra ala que era, até meses atrás, ocupada por militares. Pedimos aos militares para se mudarem para outra área e nos deixarem o hospital. Agora temos alguns quartos lá, o que aumentou consideravelmente nossa capacidade.
Se vocês têm mais pacientes, isso significa muitas horas extras para a equipe. Como vocês lidam com isso?
Se há uma emergência, a maioria da equipe não volta para casa no final do turno. O hospital inteiro, incluindo o pessoal da manutenção, às vezes vem para colaborar: levando os pacientes embora ou mudando a roupa de cama. O hospital inteiro está em atividade. Eles ficam até a emergência passar. Quando termina, todos vão para suas casas. E a vida volta ao normal no hospital.
Mas o problema é que não sobram muitas pessoas qualificadas na Somália. Devido à situação e à falta de segurança, sobretudo, cerca de 70 por cento partiu em busca de novos horizontes.
Por que o senhor ainda está no país?
Eu mesmo estive na diáspora, mas depois decidi voltar e trabalhar aqui. Esse trabalho me traz muita satisfação. Não acho que uma pessoa que mate tenha respeito pela vida. Se nós, que temos respeito pela vida, ficarmos aqui ou mesmo voltarmos da diáspora, podemos ser a maioria. Mas se partirmos e com isso criarmos um lugar para os que matam, eles tomarão tudo – e estão tomando tudo hoje – e, então, o país está perdido.
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Equipe médica no Hospital Medina atende um homem ferido em um fogo cruzado em Mogadício
Quando o senhor diz que esteve na diáspora, de que lugares fala?
Passei quase 22 anos em Roma, na Itália, e dez anos trabalhando pela África. Estive na África do Sul, Suazilândia e Maputo, em Moçambique, antes de voltar para Mogadício, em 2002. Desde então, já fiz muitas coisas diferentes, muitas operações e também dei aulas. Dou aulas na Universidade de Benadir e em Medina, que é um hospital-escola hoje.
Quais são os principais problemas que vocês enfrentam hoje?
O principal problema neste hospital é a falta de combustível para manter os geradores funcionando. A eletricidade é fundamental para nós. As câmaras frias, onde guardamos os remédios e o sangue, têm que funcionar 24 horas por dia.
Infelizmente, não temos essas instalações no nosso necrotério. Às vezes os restos mortais de um paciente que morre não são identificados e reclamados por um parente próximo. Mas como não temos como mantê-los, tiramos fotos e depois mostramos para os parentes. “É esta a pessoa que você está procurando?” Perguntamos. “Já a enterramos”. E isso não está certo. A pessoa tem que ter a oportunidade de ver seus mortos antes de eles serem enterrados.