RDC: o rio é a única forma de ajudar as dezenas de milhares de pessoas deslocadas

19-11-2010 Relatório de operações

Com a ajuda de uma barcaça, o CICV prestou ajuda humanitária a 25 mil deslocados na província de Equateur, no noroeste da República Democrática do Congo (RDC). Esta é uma atualização das atividades do CICV realizadas de julho a outubro de 2010, nesta remota região e em todo o país.

     
©CICV/J. Cimanga 
   
Província de Equateur, noroeste da RDC. A barcaça contratada do CICV chega a Dongo, com sua carga de utensílios de cozinha, instrumentos agrícolas e sementes. 
               
©CICV/J. Cimanga 
   
Província de Equateur, noroeste da RDC. Descarregando a barcaça contratada do CICV em Dongo com sua carga de utensílios de cozinha, instrumentos agrícolas e sementes. 
               
©CICV/J. Cimanga 
   
Província de Equateur, noroeste da RDC. A reconstrução de casas destruídas durante os combates através do dinheiro para o programa de trabalho do CICV. 
           

A violência que eclodiu em outubro de 2009 em Dongo, uma cidade no distrito de Sud-Ubangi, teve sérias consequências em termos humanitários. Conforme os dados das Nações Unidas, cerca de 165 mil pessoas foram deslocadas (incluindo 110 mil que buscavam refúgio na República do Congo e 18 mil na República Centro-Africana). As casas foram saqueadas e queimadas, as colheitas ficaram perdidas, o gado, dizimado, e os equipamentos agrícolas, destruídos.

Para o CICV, auxiliar os deslocados é um desafio enorme. " A maior parte da área não pode ser acessada pelos nossos caminhões. As motos são a única maneira de chegar " , explica a chefe do escritório do CICV em Dongo, Anne Muller. Portanto, é necessário versatilidade e imaginação.

" As comunidades desta região sempre fizeram suas casas às margens do rio. Desde que complicou transportar ajuda (que consiste em utensílios de cozinha, instrumentos agrícolas e sementes) para os habitantes de Sud-Ubangi por estrada, decidimos seguir o exemplo deles e usar o rio " , diz o coordenador de logística para o CICV na RDC, Jean-Claude Chesaux.

Portanto, foi carregada uma barcaça com 290 toneladas de ajuda e, ao longo das três semanas seguintes, transportou sua preciosa carga para Dongo. " Passamos várias semanas à mercê do rio, primeiro assistindo o carregamento da barcaça, e depois monitorando o progresso em direção a Dongo, esperando fervorosamente que chegue com segurança ao seu destino antes de iniciar a estação seca " , acrescentou Chesaux. Depois disso, o nível da água fica muito baixo para percorrer o rio.

Por este motivo as equipes do CICV corriam contra o tempo para desesperadamente e ntregar a ajuda necessária para os deslocados, alguns dos quais já começaram a regressar para suas casas.

Um novo começo  

Em cooperação com a Cruz Vermelha Congolesa, em junho de 2010 o CICV lançou um programa de caixa para o trabalho. Um objetivo era reconstruir as casas destruídas durante os combates, o que permitiria às famílias que quisessem retornarem às suas casas. O outro objetivo era o de criar empregos de curto prazo, que de alguma forma atenuaria a perda de renda e de recursos.

Inicialmente, o programa centrou-se nas áreas do centro de Dongo, Monzaya, Dongo-Enyele e Saba-Saba, mas posteriormente foi ampliado para incluir Dongo-Imesse.

Para muitas famílias deslocadas em 2009, retornar às suas aldeias devastadas é uma assustadora perspectiva, pois tudo tem de ser reconstruído a partir do zero. Portanto, o CICV e a Sociedade Nacional continuam executando o programa para que as pessoas tenham moradia adequada ao regressar.

Julie está entre aqueles que fugiram para o outro lado do rio por causa dos confrontos. " A guerra é uma coisa terrível " , diz essa idosa senhora, que, junto às suas duas netas, se refugiaram em Eboko, uma pequena aldeia em frente a Dongo no limite com a República do Congo. Elas passaram seis meses lá, vivendo em condições difíceis em um campo de refugiados, antes de voltar para casa.

O que a convenceu a retornar à RDC? " Não podíamos mais cultivar alimentos. A vida se tornou muito difícil. Quando eu ouvi que a Cruz Vermelha estava ajudando os que voltavam para reconstruir suas casas, não hesitei. É muito melhor estar em casa " .

Crianças reintegradas às suas famílias  

Como tantas vezes acontece em situações de conflitos armados e violência interna, muitas famílias foram dilaceradas pelos confrontos do ano passado.

Através do próprio serviço de restabelecimento de ligações familiares apoiado pela rede de voluntários da Sociedade Nacional, o CICV pôde reunir 37 crianças com suas famílias na província de Equateur.

O CICV ajudou a Sociedade Nacional a desenvolver sua capacidade nesta área, apoiando na criação de um posto avançado em Dongo e treinando voluntários.

A partir do final de outubro de 2010, havia um total de 36 solicitações de buscas. O CICV continua distribuindo mensagens Cruz Vermelha nas regiões onde atua, e tenta localizar as famílias de 97 crianças desacompanhadas que foram registradas na organização até essa data.

Enterro digno para as vítimas  

A violência no ano passado custou caro. Em abril de 2010, o CICV apoiou os esforços da Cruz Vermelha Congolesa para iniciar a coleta e identificação dos restos mortais. Essa tarefa está sendo realizada pelos voluntários da Cruz Vermelha, sob a supervisão de um oficial de polícia judiciária, e continuará em novembro, em Eneyle, Saba-Saba, e Imesse.

 Primeiro em cena - recursos ainda limitados  

Na província de Equateur, o CICV trabalha em estreita colaboração com a filial da Sociedade Nacional de Sud-Ubangi.

A fim de reforçar as capacidades neste ramo, em março de 2010, o CICV doou equipamentos de primeiros socorros e ajudou a organização a treinar 40 socorristas. Este treinamen to está em curso e continuará durante o mês de novembro.

" É essencial aumentarmos as qualificações dos voluntários nesta região e apoiá-los. Os voluntários da Sociedade Nacional frequentemente são os primeiros a serem mobilizados e a chegarem ao local. Em 2009, eles fizeram o melhor possível para ajudar as vítimas, muitas vezes com meios limitados, mesmo que a violência também tenha afetado a eles e seus familiares " , diz Anne Muller.

     

 Atividades do CICV em Sud-Ubangi em números  

     

 Construção e reparação de casas  

     

 Entre julho e outubro de 2010, o CICV e a Cruz Vermelha Congolesa:  

     reconstruíram um total de 700 casas em Dongo, Likpangbala, Bolomo I e II, e Mobambo.

  • forneceram a 789 pessoas uma fonte temporária de renda através do programa de dinheiro para o trabalho. Os materiais utilizados nas obras de construção foram adquiridos localmente, garantindo edifícios adaptados ao meio ambiente e estímulo à economia local.

O programa de construção também irá abranger cerca de 20 casas em Saba-Saba, que foram queimadas, e 227 em Monzaya. Uma série de projetos de construção para atender às necessidades das pessoas em Enyele também está sendo considerada. Nos próximos meses podem ser reparadas mais de mil casas abandonadas quando os habitantes fugiram e de terioradas por causa das chuvas e da falta de manutenção.

  Estímulo à produção agrícola  

No final de outubro de 2010, as equipes do CICV lançaram um projeto de assistência para aumentar a produção agrícola por família. Este projeto será constituído por:

  • 1,4 mil famílias com equipamentos de pesca e mais 1,4 mil com ferramentas e sementes (amendoim, milho, amaranto e espinafre), em Imesse

  • 1,8 mil famílias em Dongo Saba-Saba, com sementes e ferramentas

  • 1,8 mil famílias em Dongo - Enyele e Buburu com sementes e ferramentas

  • kits contendo utensílios de cozinha, cobertores, colchões, sabão, baldes, enxadas e roupas para 5 mil famílias em todas as áreas onde o CICV oper

  A situação humanitária nas províncias de Kivu e Orientale ainda é motivo de preocupação  

A vida continua difícil no leste da RDC (nos Kivus e em algumas partes da província Orientale). Para milhares de homens, mulheres e crianças, a predominante falta de segurança os torna vulneráveis a roubos, violência sexual, trabalho forçado e ataques. Em conjunto com a Cruz Vermelha Congolesa, o CICV continua trabalhando para auxiliar os civis e as vítimas militares do conflito nesta parte do país.

Entre julho e outubro de 2010, o CICV:

  • visitou 10.326 detidos durante 71 visitas a 42 casas de detenção em todo o país;

  • recolheu 806 e distribuiu 553 mensagens Cruz Vermelha para os detidos, permitindo que eles restabeleçam ou mantenham contato com seus entes queridos;

  • forneceu regularmente sa bão e artigos de higiene para mais de 10 mil detidos em 14 prisões;

  • como parte do programa de apoio alimentar do CICV, distribuiu ajuda alimentar constituído por mais de 225 mil rações de comida por dia a mais de 2,5 mil detidos em seis prisões (Makala em Kinshasa, Mbanza Ngungu, Matadi, Mbuji Mayi, Bunia e Kisangani);

  • recolheu 10.385 e distribuiu 8.149 mensagens Cruz Vermelha em todo o país;

  • em cooperação com a Cruz Vermelha Congolesa, reuniu 269 crianças separadas, incluindo 103 crianças-soldados, com seus familiares nas províncias do Kivu do Norte e do Sul, Orientale e Katanga;

  • apoiou dez centros de saúde em Kivu do Norte e do Sul, que:

- realizaram 25.805 consultas

- assistiram 1.752 nascimentos

- forneceram 17.838 doses de vacina

  • apoiou 37 " maisons d'écoute " (centros de aconselhamento) no Kivu do Norte e do Sul, que atenderam:

- 1.026 vítimas de estupro

- 130 vítimas de violência sexual

- 597 casos, a maioria dos quais envolvendo trauma associado ao conflito.

- distribuiu kits de produtos essenciais (cobertores, utensílios de cozinha, etc) para 10.704 famílias na província de Orientale e em Kivu do Norte e do Sul, e hortaliças e sementes, ferramentas e outros materiais necessários para reiniciar a produção agrícola para 17.585 famílias nas províncias de Kivu do Norte e do Sul, Equateur e Orientale.

  • apoiou 62 pessoas no Kivu do Sul, através de um projeto econômico individual (pequenos negócios, unidade de produção, etc)

  • distribuiu ração alimentar para 88.296 deslocados e repatriados em Kivu do Norte.

  Mais informações:  

  Inah Kaloga, CICV Kinshasa, tel: +243 81 700 85 36 ou kin_kinshasa@icrc.org  

  ou Iolanda Jaquemet, CICV Genebra, tel: +41 79 217 32 04 ou ijaquemet@icrc.org