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Agência Central de Busca do CICV: meio século restabelecendo laços familiares

01-06-2010 Entrevista

No mundo inteiro, a Agência Central de Busca oferece vários serviços de busca que permitem que detidos e civis afetados por conflitos, desastres ou outras situações, como a migração, restabeleçam contato com seus familiares. Para celebrar o aniversário de 50 anos da Agência, o historiador e Diretor-Adjunto de Operações do CICV, Jean-François Pitteloud, descreve a história e as atuais atividades dessa agência.

 
    ©CICV      
   
Jean-François Pitteloud, historiador do CICV 
       
    Veja também:

   
   
   

Fotos: a Agência Central de Buscas do CICV completa 50 anos

       

Fotos em tamanho completo no Flickr
   

   

    ©CICV/hist-00577-26      
   
    Primera Guerra Mundial. Genebra, Suíça.  Departamento de Pessoas Desaparecidas da Agência Internacional de Prisioneiros de Guerra.      
               
    ©CICV/hist-00456_m.jpg      
   
    Segunda Guerra Mundial. Agência Central de Prisioneiros de Guerra.      
               
    ©CICV/T. Gassmann/rw-n-00101-15      
   
    Hospital em Bukavu, Zaire. Após o genocídio em Ruanda, o CICV registrou os dados de milhares de crianças desacompanhadas para ajudá-las a reencontrar a família. 
               
    ©CICV/B. Heger/al-n-00019-34a      
   
    Albânia. Refugiados do Kosovo usaram telefones disponibilizados pelo CICV para se comunicar com parentes dos quais não tinham notícias depois de fugir do conflito em Kosovo.      
               
    ©Cruz Vermelha Britânica/A. Sweeting/af-e-01416      
   
    Por meio de videoconfêrencia, estas pessoas podem se comunicar com seus parentes detidos em um centro de detenção dos Estados Unidos no Afeganistão.      
               
    ©CICV/R. Haviv/cd-e-01001      
   
    Roger Bimael, de 17 anos, encontra seus entes queridos, dos quais tinha se separado devido à guerra na República Democrática do Congo.      
           

  O CICV celebra o aniversário de 50 anos da Agência Central de Busca. Mas a organização tem realizado atividades de busca desde seu começo. Como tudo isso começou?  

 

Foi Henry Dunant que, em 1859, durante a Batalha de Solferino, fez o primeiro gesto que ilustra o que viria a ser a Agência de Busca do CICV. O homem, que mais tarde representou um papel-chave na criação da Cruz Vermelha, escreveu em seu relato sobre a batalha, Lembrança de Solferino :

 

" Um jovem cabo chamado Claudius Mazuet, de mais ou menos 20 anos, com traços expressivos e gentis, havia leva um tiro no lado esquerdo. Não havia esperanças para ele e ele tinha consciência disso. Quando lhe ajudamos a tomar água, ele agradeceu e acrescentou com os olhos cheios de lágrima:'Se o senhor puder, escreva a meu pai para consolar minha mãe...'. Anotei o endereço de seus pais e pouco depois ele veio a falecer " .

 

Dunant acrescentou em uma nota de rodapé: " Os pais moravam em 3, rue d'Alger, em Lyons, e esse jovem que havia entrado para o exército como voluntário era seu único filho. A única notícia que receberam dele foi a que eu lhes transmiti. Como muitos outros, seu nome apareceu entre os'desaparecidos'" .

 

  Quando as atividades de busca passaram a ser uma das principais atividades do CICV?  

 

O trabalho realizado pela Cruz Vermelha de manter e restabelecer laços familiares se desenvolveu consideravelmente durante a Guerra Franco-Prussiana em 1870 atrav és do que se conhecia como Agência da Basiléia.

 

Mas foi durante a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, sob as denominações " Agência Internacional de Prisioneiros de Guerra " e " Agência Central de Prisioneiros de Guerra " , respectivamente, que a Agência passou a desempenhar um papel crucial como foco da ação humanitária do CICV. Tanto que durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) o CICV se uniu completamente à Agência e só retomou operações autônomas em 1919.

 

  Em 1960, o CICV mudou o nome da Agência para Agência Central de Busca. Por que a mudança de nome é importante? O que provocou essa mudança?    

 

A intenção do CICV era indicar que a organização também estava levando em consideração as vítimas dos conflitos armados ou mesmo dos distúrbios internos, os quais as autoridades pertinentes muitas vezes se recusam a ver como eventos de guerra no sentido mais comum do termo.

 

Desde 1945, as atividades da Agência abrangem novas categorias de pessoas – civis não-prisioneiros e refugiados. A Agência reúne famílias e busca pessoas mantidas em cativeiro e outras dadas como desaparecidas em conflitos internos, pessoas cujos governos se recusam a reconhecê-las como beligerantes.

 

Em 1960, a denominação antiga não correspondia mais às novas atividades que o CICV vinha realizando durante os conflitos da Guerra Fria, como o levante na Hungria em 1956, ou durante os conflitos relacionados com a descolonização, como a Guerra da Argélia ou a rebelião de Mau-Mau, no Quênia. Mais do que isso, o CICV estava considerando a possibilidade de a Agência estender suas atividades de busca de vítimas de desastres naturais, como o que foi feito em Marrocos, depois do terremoto de Agadir em 1960. Portanto, deveria ser encontrada uma nova denominação para não impedir esse progresso.

 
   
   
* * * 

   
©CICR 
   
Angela Gussing, diretora-adjunta de Operações do CICV. 
     

  O CICV tem uma longa história na área de buscas. Por que a busca é tão importante e quais são os principais progressos nesta área?  

 

Acredito que todos podemos imaginar como seria difícil se um membro de nossa família desaparecesse e seu paradeiro e as condições em que se encontram continuassem desconhecidos. Para a maioria das pessoas, a possibilidade de estar em contato com os familiares é uma necessidade essencial e básica.

 

Desde o começo, o CICV trabalhou para permitir que prisioneiros de guerra mantivessem contato com seus familiares. Hoje, continuamos fazendo isso não só pelos detidos no mundo todo, mas também ajudamos os civis afetados por conflitos, desastres ou outras situações, como a migração, ao fornecer uma ampla variedade de serviços que permitem que as pessoas restabeleçam contato com familiares.

 

Nos últimos anos, o CICV tem trabalhado com as Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho para realizar atividades de busca. Essa parceria é essencial para atender as necessidades das pessoas separadas de suas famílias. Através de tal cooperação, o Movimento da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho tem condições de prestar serviços além de suas fronteiras, assistir familiares para restabelecer contato ou esclarecer o paradeiro de parentes desaparecidos.

 

Por exemplo, em Ruanda, durante a década seguinte ao genocídio em 1994, o CICV, junto com várias Sociedades Nacionais e outras organizações , reuniram dezenas de milhares de crianças com suas famílias. Foi uma tarefa enorme que envolvia ouvir a história de cada criança e entender sua situação particular, coordenar com as autoridades, transmitir mensagens e verificar as identidades de pais e crianças, entre outras coisas. É muito emocionante para qualquer delegado presenciar a alegria de uma família reunida de novo.

 

Outro importante progresso na área de busca é o reconhecimento das necessidades dos familiares que perderam contato com seus entes queridos de saber o que aconteceu com eles. Isso passou a ser parte do Direito Internacional Humanitário e Direito dos Diretos Humanos. As famílias agora têm o direito de conhecer o paradeiro dos parentes desaparecidos.

 

  No mundo de hoje, onde prevalecem a Internet e os telefones celulares, por que ainda seriam necessários os serviços de restabelecimento de laços familiares da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho?  

 

Os avanços tecnológicos têm um grande impacto na busca, sobretudo ao acelerar a transmissão de informação para um grande número de pessoas. O CICV mudou com o tempo e usa esses meios para ajudar as famílias a entrarem em contato com seus entes queridos.

 

Por exemplo, depois do último terremoto no Haiti, o CICV montou uma página na Internet para ajudar a milhares de pessoas que foram embora sem ter notícias de seus entes queridos a restabelecerem contato com eles. Enquanto nossas equipes de terreno no Haiti cadastravam as pessoas que sobreviveram, as pessoas no exterior podiam publicar os nomes dos parentes aos quais buscavam. Muitas pessoas puderam encontrar seus familiares e alguns nos contataram para manifestar seu alívio e sua alegria ao saber que um membro de sua família estava vivo. A tecnologia de hoje permite que as pessoas recebam notícias de maneira rápida. Infelizmente, muitas outras não r eceberão um sinal tranquilizador de seus parentes.

 

Não estaria errado pensar que hoje em dia todos sabem usar e têm acesso a um computador e um celular.

 

Em épocas de crise, muitas pessoas conseguem, com seus próprios meios, contatar seus parentes e não necessitam nossos serviços. Ainda assim, essas crises quase sempre afetam populações que já eram vulneráveis antes do evento. As populações afetadas podem não necessariamente ter acesso a Internet ou telefones para começar. Isso significa que há muitas pessoas que ainda dependem da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho para ajudá-las a restabelecer contato com familiares desaparecidos.

 

  A busca requer a cooperação das Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. Como o CICV trabalhar com as Sociedades Nacionais para buscar pessoas que estão desaparecidas ou separadas de suas famílias?  

 

De fato, a busca requer a colaboração de nosso parceiro local, que conhece a cultura e o ambiente. As Sociedades Nacionais representam esse papel e temos muita sorte de trabalhar com eles.

 

Todos usamos a mesma abordagem para assistir familiares separados. Por exemplo, um refugiado somali no Reino Unido que esteja procurando um parente com quem perdeu o contato devido ao conflito em Mogadíscio, Somália. Essa pessoa pode se dirigir à Cruz Vermelha Britânica no Reino Unido, que entra em contato com o CICV e o Crescente Vermelho Somali. A busca começa em Mogadíscio e pode levar à informação de que a pessoa a qual buscamos fugiu para o Iêmen. Através do Crescente Vermelho Iemenita, podemos localizar essa pessoa, que poderá retomar o contato com seu parente no Reino Unido.

 

Esse seria um final feliz, com a rede mundial funcionando como deveria. Como parte de nosso papel de estar a cargo da Agência Ce ntral de Busca, coordenamos esse tipo de trabalho para garantir que possamos ajudar os familiares a manterem contato.

 
       

 
   
   
Fatos & Números

    Em 2009, o CICV visitou um total de 479.669 detidos em centros de detenção. Mais de 28 mil detidos se beneficiaram do programa de visita familiar do CICV. Durante esse período, o CICV:    
  • recolheu e distribuiu mais de 253 mil Mensagens Cruz Vermelha;
  • publicou mais de 83 mil nomes na Página da Restabelecimento de Laços Familiares;
  • facilitou mais de 12 mil telefonemas, o que permitiu que pessoas separadas de seus familiares restabelecessem contato com eles;
  • realizou 1.063 reuniões familiares;
  • e trabalhou em 45.605 pedidos de busca, incluindo os que foram feitos em 2009.