Mali: pessoas com deficiência desafiam as dificuldades

19 fevereiro 2018
Mali: pessoas com deficiência desafiam as dificuldades
Ahmed Sah mostra onde os moldes das próteses são feitos no centro ortopédico de Gao. CC BY-NC-ND / CICV / C.McGoldrick

As pessoas com deficiência estão entre as mais vulneráveis na população do Mali. Os serviços de reabilitação física adequados são poucos e distantes, sobretudo desde que o conflito armado e a crescente insegurança tornaram o acesso particularmente difícil. No centro ortopédico que recebe apoio do CICV, na cidade de Gao, a equipe e os pacientes falam sobre os desafios e as suas esperanças para o futuro.

São 8h da manhã, as portas acabam de se abrir no centro ortopédico de Gao, norte do Mali, e os primeiros pacientes já entram, alguns de muletas, outros de cadeiras de roda.

Ahmed Sah, assistente de fisioterapia e único funcionário estatal no centro que recebe apoio do CICV, é quem os recebe: "Como você pode ver, estamos um tanto sobrecarregados aqui", conta, sentado atrás de uma mesa, com pilhas e pilhas de arquivos e papel. "Há poucos profissionais qualificados na área de órteses-próteses e fisioterapia no Mali, sobretudo nas áreas afetadas por conflitos como aqui e pouco incentivo para tornar-se profissional. Para mim é diferente, tenho o meu próprio incentivo", acrescenta, explicando que a pólio que contraiu quando era criança lhe deu uma "compreensão especial" dos desafios que as pessoas com deficiência enfrentam.

Ahmed Sah, o único funcionário estatal no Centre Régional d'Appareillage Orthopédique et du Rééducation Fonctionelle (CRAORF) em Gao. CC BY-NC-ND / CICV / C.McGoldrick

No entanto, Ahmed não está sozinho no centro. Um especialista em órteses e próteses do CICV, Oua Sangaré, presta apoio e os dois fazem as rondas de visita juntos.

A primeira paciente é Aichatou Seydou, viúva com seis filhos. Aichatou perdeu as pernas depois que o ônibus no qual viajava passou por cima de uma mina terrestre no vilarejo de Gossi, a 160 quilômetros a sudoeste de Gao, em 2017. "Ainda tenho dificuldades para me acostumar com a minha situação, física e mentalmente", contou. "Não posso mais trabalhar e sustentar a minha família. Simplesmente, fico sentada o tempo todo e dependo da ajuda da minha irmã."

Oua ajudou Aichatou a colocar as duas próteses, feitas sob medida para ela no centro, e muito lentamente, ela deu alguns passos vacilantes com as muletas. "Definitivamente, ela está progredindo", afirmou Oua, "mas esse processo leva muito tempo."

Oua Sangaré, especialista em órteses e próteses do CICV, ajuda Aichatou Seydou no centro ortopédico em Gao. CC BY-NC-ND / ICRC / C.McGoldrick

Enquanto isso, Ahmed cuida de outro paciente. Alhassane Waiisou, 22 anos, também perdeu uma perna quando o veículo no qual viajava passou por cima de uma mina terrestre ou um dispositivo explosivo improvisado, também nos arredores de Gossi. Alhassane, que trabalhava como alfaiate, contra que está em casa há mais de um ano sem fazer nada. "As barreiras são psicológicas e físicas ao mesmo tempo", explica Ahmed. "Leva muito tempo para cicatrizá-las."

Mais pacientes chegam, com diferentes deficiências, como paralisia cerebral e pólio. Alguns viajam centenas de quilômetros para chegar a esse centro; pelo menos um deles veio da cidade central de Mopti, a quase 600 quilômetros de distância. "Essas pessoas realmente estão entre as mais vulneráveis da sociedade aqui", conta Oua. "Quase sempre são estigmatizadas. E para elas pode ser muito difícil receber o atendimento que necessitam", acrescenta.

Os serviços de saúde já frágeis estão colapsados como consequência do conflito armado no Mali e do controle de áreas ao norte do país por grupos armados em 2012. Agora, cinco anos depois que uma operação militar liderada pelos franceses dispersou os grupos armados no norte, o conflito está, no entanto, se intensificando e se espalhando. Ao mesmo tempo em que as necessidades humanitárias são cada vez maiores, o acesso à assistência à saúde e outros serviços vitais continua extremamente limitado.

Atualmente, o CICV apoia quatro centros ortopédicos em todo o país: dois na capital Bamako, um em Gao e outro em Timbuctu (três deles são administrados pelo governo e um é particular). Mesmo com as necessidades de reabilitação física claramente superando a capacidade de resposta, um novo centro ortopédico deverá ser aberto no Mali em Mopti, estrategicamente localizado no centro do país, onde atualmente não existe nenhum estabelecimento dessa natureza.

Próteses e muletas no centro ortopédico de Gao. CC BY-NC-ND / CICV / C.McGoldrick

Financiado através do Programa para Investimento em Impacto Humanitário (antes conhecido como Bônus de Impacto Humanitário), um mecanismo inovador de financiamento criado no ano passado pelo CICV, o centro deverá tratar cerca de 2.150 pacientes com deficiência física por ano, suprindo assim uma importante necessidade no centro de Mali e arredores. O CICV construirá e equipará o centro, treinará a equipe e apoiará as operações do centro por dois anos a partir de janeiro de 2020, quando devem iniciar. O objetivo é fortalecer a capacidade dos parceiros nacionais e regionais, sendo eles finalmente responsáveis pelo centro e, desta maneira, assegurando a sua sustentabilidade no longo prazo, um "bom exemplo do CICV ajudando a abordar necessidades de longa data na área entre a ajuda humanitária e o desenvolvimento", segundo a gerente desse projeto de construção do CICV Emilie Schmid, a cargo do planejamento do centro.

Quanto a Ahmed Sah, ele tem esperança de não somente continuar crescendo e melhorando os seus serviços para as pessoas com deficiência no Mali, mas também que, por sua vez, haja um aumento da conscientização e de uma melhor compreensão do público no geral. "Infelizmente, ainda temos neste país a ideia de que as crianças que nascem com deficiências estão amaldiçoadas e algumas são abandonadas à morte", conta. "Quanto mais as pessoas entenderem, mais esperança haverá de que essa ideia desapareça."